Medidas tomadas contra a crise começam a demonstrar algum efeito

Ralph Atkins, David Pilling e Krishna Guha

À medida que a economia mundial piora a ponto das profundezas se tornarem insondáveis, surgem sinais de que as ações tomadas podem ter um efeito

Lars Nonbye, diretor geral da empresa Nonbye de produção de placas na Dinamarca, encontrou uma forma de lidar com a desaceleração econômica global. Ele a baniu do local de trabalho. Jornais são recortados para remover os artigos repletos de pessimismo, conversas sobre a crise estão proibidas no início das reuniões e adesivos anticrise são distribuídos aos clientes. "É preciso dizer um basta", argumentou Nonbye.

No que se refere a estratégias, a dele é tão eficaz quanto qualquer uma já concebida por um político ou um banqueiro central. Nesta semana, o novo governo americano do presidente Barack Obama enfrentou dificuldades inesperadas para aprovação dos US$ 800 bilhões em estímulo fiscal, a China aumentou o fantasma de uma inquietação social em massa ao indicar que um vasto número de trabalhadores migrantes rurais perderia seus empregos -e políticos europeus, como seus pares americanos, pareciam impotentes para devolver a estabilidade à economia.

Onde algo foi feito, ainda é difícil ver algum efeito. Os pacotes de estímulo econômico no valor de US$ 2 trilhões em todo o mundo e as reduções dramáticas nas taxas de juros oficiais proporcionaram pouco alívio até o momento. Os Estados Unidos perderam mais 598 mil vagas de trabalho no mês passado, segundo dados de sexta-feira; a produção industrial alemã está em queda livre e o Fundo Monetário Internacional correu para reduzir suas previsões de crescimento para a Ásia.

"A simples força dos ajustes que estamos testemunhando no setor financeiro e na economia real parecem apequenar e desafiar todas as tentativas dos autores de políticas de controlá-los", disse Marco Annunziata, economista-chefe do Unicredit da Itália. Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, falou de uma "intensificação excepcional da crise" em relação a setembro passado.

Apesar das políticas globais voltadas à crise terem sido "proporcionais" às circunstâncias, disse Trichet, a incerteza em relação ao que aguarda à frente tomou uma dimensão imensurável. "Nós não sabemos quais são as leis da probabilidade dos eventos futuros."

Uma coisa está clara: os bancos permanecem no centro da crise. Mesmo 18 meses após a erupção das tensões nos mercados de crédito, "os autores de políticas ainda não conseguiram restabelecer a transparência e a confiança", disse Annunziata. Os políticos "em breve terão que encarar situações desagradáveis", ele argumentou, e tomar decisões difíceis quanto a novas nacionalizações, quanto à criação de "bancos podres" para assumir os ativos tóxicos ou quanto ao fornecimento de sistemas mais abrangentes de garantias.

Mas o colapso da confiança no setor bancário já teve um amplo impacto nos sistemas vitais de suporte de vida econômicos, como o fornecimento de crédito para as empresas. "Nós vemos um aumento dos riscos de ação insuficiente na frente financeira, e com eles os riscos da economia global se ver atolada em um período prolongado de baixo crescimento", alertaram economistas do Deutsche Bank nesta semana.

A aparente impotência dos autores de políticas também parece estar se espalhando geograficamente. As dores americanas continuam ganhando as manchetes, refletindo o papel do país no estabelecimento da agenda global de políticas. A briga no Senado americano em torno do pacote de estímulo econômico se intensificou nesta semana em meio aos sinais de que o ajuste econômico americano ainda terá muito a percorrer. Mas a sensação de que os autores de políticas estão tendo dificuldades para acompanhar o ritmo dos eventos também está sendo sentida por toda a Europa nesta semana.

O Banco da Inglaterra cortou as taxas de juros britânicas em mais meio ponto percentual, atingindo o ponto mais baixo em seus 315 anos de história, mas pareceu não estar convencido de que a medida terá muito efeito. As forças mais poderosas em atuação no país eram meteorológicas, com a neve parando o Reino Unido na segunda-feira.

Por sua vez, o Banco Central Europeu se viu repensando sua estratégia. Ele fez uma pausa no corte dos juros mas, após o que Trichet descreveu como uma "meditação profunda", parecia menos resistente do que antes à idéia de que possa reduzir os custos oficiais de tomada de empréstimo a zero e expandir seu arsenal de ferramentas políticas não convencionais para combater a crise.

Na Alemanha, onde a estabilidade econômica se tornou um direito nato da geração moderna, os números mostraram uma queda na produção industrial de quase 7% nos últimos dois meses do ano passado. Enquanto isso, os autores de políticas embarcaram em uma rodada de autoanálise em torno das propostas do ministério das finanças de expropriar os bancos problemáticos -em mente está o Hypo Real Estate, um banco hipotecário que o Estado já socorreu com bilhões de euros em garantias.

Entretanto, em Berlim e em outras capitais europeias como Paris e Londres, um alvo muito mais fácil tem sido a remuneração dos banqueiros -com os políticos seguindo o exemplo de Obama na condenação de quaisquer sinais de excesso.

Mas margens orientais da União Europeia e além, a crise parece estar ganhando intensidade. Os eventos tomaram um curso dramático na Rússia, onde as receitas do petróleo não mais fornecem uma defesa poderosa contra a crise global. Vladimir Putin, o primeiro-ministro, aprovou uma segunda série de resgates a bancos. Em um repensar de sua resposta à crise em desdobramento, Moscou está optando deliberadamente por permitir que o crescimento do produto interno bruto caia a zero ou menos neste ano para estabilizar a economia e manter as reservas de moeda estrangeira.

Na Ásia, nenhum outro lugar simboliza melhor a incapacidade dos políticos de combater a onda de recessão do que o Japão. Após números desta semana mostrarem um colapso mês a mês de quase 10% na produção industrial em dezembro, um forte aumento dos estoques e uma alta do desemprego, o Banco do Japão abandonou seus escrúpulos e retornou à odiada política de impressão de moeda para escorar os preços das ações. As ações responderam ao plano de resgate de 1 trilhão de ienes (US$ 11 bi) dando de ombros e caindo modestamente.

De modo geral, as grandes empresas japonesas estão cortando suas estimativas de ganhos. Um plano do ministério do comércio de despejar US$ 17 bilhões no problema parece irrelevante. Peter Tasker, da Dresdner Kleinwort, disse que o arrocho dos ganhos corporativos, sem precedente em sua severidade, expõe a vulnerabilidade do setor manufatureiro de alto valor agregado do Japão ao choque da demanda externa. "Parece tão injusto", ele acrescentou, se referindo à relativa falta de exposição dos bancos japoneses aos ativos tóxicos. "Aqueles que mais festejaram deveriam estar com as piores ressacas. O Japão permaneceu em seu quarto tomando água mineral. Mas agora está sofrendo de uma senhora dor de cabeça."

O que ocorre no Japão também ocorre em grande parte da Ásia. O fato de poucos bancos asiáticos terem sido pegos no fiasco das hipotecas subprime (de risco) fez pouco para proteger as economias de uma séria desaceleração, transmitida pelo comércio para um colapso na produção industrial e um choque na confiança do consumidor. O FMI reduziu quase pela metade sua estimativa de crescimento do PIB asiático em 2009, dos 4,9% que projetava há menos de dois meses para 2,7%.

Economias antes aparentemente invulneráveis estão caindo de joelhos. A Austrália, que apresentou crescimento por 17 anos consecutivos, anunciou um pacote de estímulo de 42 bilhões de dólares australianos (US$ 28 bi) e um corte das taxas de juros para o nível mais baixo desde os anos 60, à medida que a queda dos preços dos commodities trouxe o fantasma da recessão. A economia de Cingapura poderá encolher 5%, sua pior recessão desde sua independência em 1965. Os políticos sul-coreanos estão se agarrando à história de que sua economia ainda poderá crescer neste ano. O FMI diz que o país sofrerá uma retração de 4%.

Então está tudo perdido? A China é um dos poucos países onde os políticos estão mantendo um certo grau de controle. Nesta semana o governo indicou que um número muito maior do que o esperado, 20 milhões de trabalhadores migrantes rurais, ou 15% do total, poderia perder o emprego. Mesmo assim, alguns efeitos positivos da barragem de medidas do governo, incluindo um pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans (US$ 585 bi), parecem estar surgindo.

O empréstimo pelos bancos subiu de 200 bilhões de yuans em outubro para 770 bilhões de yuans em dezembro, além de estar a caminho de atingir 1,2 trilhão de yuans neste mês, segundo uma pesquisa da Dragonomics. Wen Jiabao, o primeiro-ministro, disse ao "Financial Times" nesta semana que a liderança da China poderá adotar ações mais preventivas se for necessário.

Em outras partes, os economistas vêem outros pequenos sinais de esperança. Julian Callow, da Barclays Capital, argumenta que os indicadores de confiança apontam para certa estabilização -mas em níveis baixos recordes. "Por ora, nós ainda estamos em queda no mesmo ritmo severo. Mas os dados de confiança sugerem que a desaceleração não está mais se intensificando, o que pode significar a proximidade de um ponto de mudança de direção."

Os esforços dos bancos centrais ao menos resultaram em um avanço -o alívio do estresse nos mercados de dinheiro de curto prazo, incluindo os mercados interbancários, onde os spreads caíram acentuadamente nas últimas semanas, e o mercado de papéis comerciais, onde o empréstimo privado foi retomado. A queda resultante nas taxas de empréstimo de três meses reduziu as taxas de tomada de empréstimo de fato na economia.

Na segunda-feira, Tim Geithner, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, deverá anunciar um pacote concentrado em garantias ao estilo seguro para os ativos tóxicos, mas provavelmente incluindo alguma forma de "banco podre". Ele também revelará iniciativas para reduzir as execuções hipotecárias.

Apesar dos analistas temerem que um pacote não convincente arrasaria as esperanças de que o governo Obama será capaz de lidar com a crise, o anúncio é uma chance de reverter o sentimento. O clima ao redor do mundo poderia melhorar. Os autores de políticas estão se preparando para o encontro de cúpula do Grupo dos 20 países industrializados e em desenvolvimento, em Londres em abril, que visa coordenar os planos de resgate econômico.

Se isso não funcionar, há sempre a "negação da crise" como defendida na Dinamarca. Nonbye diz que a campanha de sua empresa está ganhando impulso por toda a Europa, com manifestações de interesse da Noruega até a Suíça. "Ela ganhou uma força que nunca imaginaria na minha vida."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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