Tsvangirai promete recomeço para o Zimbábue

Richard Lapper
Em Harare (Zimbábue)

Na quarta-feira (11/02), Morgan Tsvangirai prometeu um "recomeço para o Zimbábue", e o fim dos "anos de privilégio e impunidade", enquanto dezenas de milhares de pessoas que o apoiam comemoravam a escolha dele para o cargo de primeiro-ministro e o início de um novo governo de unidade nacional.

No Harare Showground - cenário da violência repressiva que marcou o fim do otimismo em torno da eleição do ano passado - ônibus e caminhões chegavam lotados de apoiadores de Tsvangirai, muitos deles usando roupas vermelhas, brancas e pretas, as cores do Movimento pela Mudança Democrática, o partido de Tsvangirai. Eles estavam eufóricos pelo fato de o seu líder ter prometido "um recomeço para o Zimbábue" e "o fim de anos de privilégios e impunidade".

Tsvangirai animou ainda mais a multidão, cujas emoções já estavam exaltadas, prometendo que o seu novo governo pagará milhares de professores, enfermeiros, médicos e policiais - "os servidores públicos que são a espinha dorsal do nosso governo" - em moeda estrangeira até o final deste mês. Ele não explicou de onde poderiam vir as verbas em moeda estrangeira.

No início do dia, Tsvangirai foi empossado no recém-criado cargo de primeiro-ministro por um circunspecto Robert Mugabe, o presidente, em uma cerimônia destituída de entusiasmo que abre caminho para a formação de um governo de unidade nacional no final desta semana.

Os dois homens - inimigos mortais no passado - precisarão trabalhar em conjunto para planejar a recuperação do Zimbábue, supervisionar a redação de uma nova constituição e preparar o país para novas eleições dentro de aproximadamente 18 meses. Mas muitos temem que os dois dedicarão mais tempo a tentativas mútuas de sabotagem.

Um governo de coalizão de 31 ministros - 15 do partido Zanu-PF, de Mugabe, 13 do MMD e três de uma facção rival do MMD - começará a funcionar oficialmente nesta quinta-feira.

Embora o MMD não tenha conseguido obter o controle sobre a pasta de questões domésticas, uma demanda fundamental, já que isso teria garantido ao partido o controle sobre a força policial, ele compartilhará a responsabilidade pela administração do ministério. E o MMD assumirá ainda a pasta das finanças, onde o seu líder mais duro e crítico, Tendai Biti, ficará encarregado da tarefa de negociar a obtenção de apoio de doadores internacionais.

Encontrar uma nova forma de convivência entre partidos cujas relações têm sido marcadas por extrema animosidade - vários ativistas do MMD continuam detidos pelo regime de Mugabe - será um desafio considerável. Mas isso não será mais difícil do que persuadir os doadores internacionais a emprestarem dinheiro a um governo no qual Mugabe provavelmente desempenhará um papel poderoso.

Na quarta-feira os Estados Unidos disseram que precisarão perceber mudanças antes de suspenderem quaisquer das sanções em vigor, ainda que o líder do MMD seja o primeiro-ministro.

Porém, Tsvangirai minimizou os potenciais problemas, argumentando que o novo arranjo é apenas transitório, significando que ele trabalhará pela por novas eleições. "Não pode haver retorno ao passado. Este acordo não é perfeito, mas ele ainda é uma forma de seguirmos adiante", disse Tsvangirai à multidão.

Em vários momentos, ele citou a experiência da transição democrática no início da década de 1990 na vizinha África do Sul, fazendo uma comparação entre o tratado para o compartilhamento de poder firmado entre o Congresso Nacional Africano e os governantes do regime de apartheid do país.

"Quando Nelson Mandela saiu da prisão 19 anos atrás, aquilo não significou o fim da luta pela democracia, mas o fato criou um novo foco e um novo cenário para a luta", disse Tsvangirai.

"Assim como o Congresso Nacional Africano trabalhou com sucesso em conjunto com o Partido Nacional, o MMD trabalhará com o Zanu-PF", afirmou Tsvangirai. "Nós deixamos de lado as nossas diferenças políticas e concordamos em trabalhar juntos".

Tais sentimentos podem muito bem refletir a influência diplomática da África do Sul e de outros vizinhos que ajudaram a modelar o acordo e que monitorarão a sua implementação. Thabo Mbeki, o ex-presidente sul-africano, mediou as negociações que resultaram em um acordo original de unidade em setembro, e ele e o seu sucessor, Kgalema Molanthe, empenharam-se em persuadir Tsvangirai e Mugabe a concordarem.

Para os zimbabuanos, desesperados por boas notícias, os recentes acontecimentos são agradáveis. "Sim, ele será um ótimo primeiro-ministro. Agora teremos paz", disse Hedge Ngoromani, um motorista de ônibus aposentado, de 73 anos de idade, que parou de votar no Zanu-PF em 1999.

"O Zimbábue está se libertando", concordou Joyce Mashona, 57, uma vendedora de rua. A promessa de Tsvangirai de pagar os funcionários públicos em moeda estrangeira foi a que gerou maiores aplausos da multidão.

"Isso fará toda a diferença", disse Barbara, uma enfermeira de 42 anos. "Antes tínhamos que escolher entre comer e ir para o trabalho".

Tradução: UOL

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