Um homem modesto no Chelsea

Simon Kuper

Era uma noite nervosa em Amsterdã e uma dúzia de homens estava reunida em um apartamento. Primeiro ocorreu um jogo de perguntas sobre futebol, depois um banquete, então uma boa conversa até a madrugada. Guus Hiddink era a pessoa mais velha à mesa, um técnico de futebol admirado mundialmente. Mas ele não se comportou dessa forma. O holandês, que nesta semana foi contratado como técnico do Chelsea para o restante da temporada, gosta de contar histórias, mas também fica feliz em se reclinar e escutar os outros. Ele é uma presença firme, um homem de fato, mas sem compulsão de dominar.

"Ego pequeno" é uma frase que Hiddink frequentemente usa para descrever a si mesmo. Isso é raro no vestiário do Chelsea e entre os técnicos de futebol. Entre os recentes antecessores de Hiddink no Chelsea estão "Felipão" Scolari e José "O Especial" Mourinho. Mas o ego pequeno de Hiddink é um dos seus grandes segredos profissionais. Conhecer futebol é apenas uma pequena parte do trabalho do técnico. Hiddink tem as qualidades humanas necessárias em um clube tão espinhoso quanto o Chelsea.

Filho de uma professora escolar e de um herói da resistência do tempo da guerra, ele nasceu em 1946 na tranquila Dutch Achterhoek, ou "canto dos fundos", perto da fronteira alemã. É o tipo de região rural onde simplicidade é apreciada. Depois que Hiddink levou a Coréia do Sul à semifinal da Copa do Mundo em 2002, cerca de 16 biografias foram lançadas em coreano, mas quando voltou para casa, seu pai apenas disse: "Bem, não foi nada mal. Quer café?"

Crescer com cinco irmãos deu a Hiddink um curso relâmpago sobre como lidar com outros homens. Isso foi útil quando ele trabalhou por 10 anos como professor de educação física em uma escola para crianças com dificuldades de aprendizado, ao mesmo tempo em que jogava futebol semiprofissional. Hiddink persuadiu um garoto que estava empunhando uma faca a sair e tentar apunhalar os pneus de seu carro.

Tudo isso foi uma boa preparação para o Chelsea. "A diferença entre uma classe difícil e um grupo difícil de jogadores de futebol de ponta não é tão grande", disse Hiddink em sua biografia holandesa autorizada. "Sabe como é: você precisa brigar com esse e não com aquele, caso contrário dará tudo errado."

Aos 40 anos, ele se tornou técnico do clube holandês PSV Eindhoven. Ele tinha menos status do que alguns jogadores de sua equipe, mas, diferentemente de muitos técnicos, ele adora trabalhar com jogadores difíceis. Ele troca cigarros, os deixa cometer algumas transgressões, pede a opinião deles. Isso parece funcionar. Em 1988, o pequeno PSV conquistou a Copa dos Campeões. Posteriormente, Hiddink se destacou em clubes de vários países, e como técnico das seleções da Holanda, Coréia do Sul, Austrália e agora da Rússia. Mas seu ego permaneceu pequeno. Ele ainda escuta os outros e evita ficar com o crédito pelas vitórias. Ele aprecia o mesmo modo discreto de Roman Abramovich, o oligarca russo que é dono do Chelsea. "Um homem muito tranquilo", disse Hiddink a respeito dele. "Não gosta de aparecer. Calça jeans e um relógio comum. Até mesmo abaixo do normal."

Quando Abramovich visitou Hiddink certa vez, o sujeito que dirigia a cantina do clube dividiu com eles uma xícara de chá sem descobrir quem era o estrangeiro trajando jeans.

O ego pequeno de Hiddink o protege do circo diário que cerca o futebol: as manchetes nos tablóides, ameaças de morte e o que o presidente do clube supostamente disse à amante do goleiro reserva. Hiddink ignora tudo isso. "Senhor deixa para lá", pediu seu assistente no Valencia anos atrás. "Limite-se ao futebol."

O técnico não acredita no mito de ser insubstituível. Ele também não deseja trabalhar 13 horas por dia, preferindo ficar sentado em um hotel cinco estrelas em Moscou, bebendo cappuccinos e ocupado com um jogo por mês. Seu gosto por golfe e a boa vida já o impediu no passado de assumir o Chelsea. Delegar poderes é como ele pretende treinar o clube londrino e a seleção russa simultaneamente. Hiddink sempre trabalha com assistentes fortes, vários dos quais posteriormente assumiram o comando de grandes clubes ou seleções.

Se você é calmo e vence partidas de futebol, as pessoas geralmente gostam de você. Hiddink entende a vantagem profissional de ser agradável. Ele é um raro treinador que faz com que os outros se sintam bem a respeito dele, mesmo quando perde. Quando terminar a temporada, seu maior desafio poderá ser escapar de um contrato mais longo com o Chelsea e recuperar aquela suíte de hotel em Moscou.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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