Eleição na Coreia do Norte traz pistas sobre o próximo passo de Kim Jong-il

Christian Oliver

As eleições norte-coreanas nunca deixam ninguém roendo as unhas de expectativa. Assim sendo, a disputa de 8 de março apenas sacramentará a manutenção dos membros da Suprema Assembleia Popular, a mais alta instituição daquele país isolado. É provável que todos os seus integrantes, incluindo Kim Jong-il, o líder do país, obtenham um apoio de 100%.

Mas nesta ocasião a escolha dos membros da assembleia proporcionará pistas raras quanto à direção para a qual ruma a ditadura de Kim, enquanto as tensões militares elevam-se na Península Coreana e os boatos sobre a escolha de um novo sucessor multiplicam-se.

A decisão de realizar uma eleição agora, após adiá-la no outono passado, quando acredita-se que Kim tenha sofrido um derrame, é um forte indício de que ele sente-se bem o suficiente para garantir a sua autoridade e apresentar-se a Barack Obama como um parceiro saudável para as negociações nucleares. Mas se um dos filhos de Kim ocupar uma cadeira parlamentar nesta eleição, isto será um sinal claro de que há um aparente sucessor sendo preparado.

Fontes de inteligência já sugeriram que o seu sucessor pode ser o filho mais velho, Kim Jong-nam, ou o terceiro e caçula, Kim Jong-woon. Porém, Kim Jong-nam declarou que não está interessado na sucessão.

Muitos olhos estão também voltados para Chang Sung-taek, o cunhado reabilitado do líder: muitos analistas acreditam que era ele que estava no comando do país quando Kim encontrava-se enfermo.

A incerteza quanto à liderança está deixando o novo governo norte-americano seriamente preocupado. Hillary Clinton, a secretária de Estado dos Estados Unidos, advertiu nesta semana que há atualmente uma necessidade urgente de elaboração de uma estratégia para lidar com o programa nuclear da Coreia do Norte.

"Se há uma sucessão, ainda que seja uma sucessão pacífica... isso cria mais incerteza e pode também encorajar comportamentos que são ainda mais provocadores como forma de consolidar o poder junto à sociedade", disse ela na sua viagem à Ásia. "O nosso objetivo é tentar elaborar uma estratégia que seja efetiva para influenciar o comportamento dos norte-coreanos em um momento em que a situação de toda a liderança do país é meio nebulosa".

Os dois filhos mais velhos de Kim não são considerados líderes apropriados pela comunidade internacional.

Kim Jong-nam, o mais velho, foi detido em um aeroporto no Japão quando tentava deixar o país com um passaporte falso. Sabe-se também que ele circula pelos cassinos de Macau.

Kim Jong-chol, o segundo filho, ficou famoso por convidar Eric Clapton para apresentar-se em um concerto na Coreia do Norte, e acredita-se que ele careça da seriedade necessária para controlar a política machista da Coreia do Norte. Quanto ao terceiro filho, que quase não aparece em público, sabe-se relativamente pouco sobre ele.

A sociedade norte-coreana ainda possui fortes raízes confucionistas, que favorecem a sucessão pelo filho primogênito. Mas segundo as mais recentes especulações, Kim Jong-il preferiria o filho caçula.

Uma indicação disso foi a nomeação de Kim Young-chun - que é tido pelos analistas como mentor de Kim Jong-woon - para o cargo de ministro das Forças Armadas.

Fontes diplomáticas em Pequim fizeram com que se intensificassem os boatos de que Kim Jong-woon poderia ser o sucessor, ao afirmarem à mídia sul-coreana que o filho caçula concorrerá a uma cadeira na assembleia.

Aidan Foster-Carter, pesquisador da Universidade Leeds, na Inglaterra, diz: "Nunca vimos o nome de um dos filhos dele ser sequer mencionado em uma publicação oficial".

A demora de Kim em nomear um sucessor indica que o próximo líder poderia exercer apenas uma chefia simbólica, e que o país poderia vir a ser governado por um politburo.

Embora admita que tudo isso não passe de palpites, Daniel Pinkston, especialista em Coreia do Norte do Grupo de Crises Internacionais, não espera uma mudança drástica. "Se eles organizassem um congresso do partido, isso sim seriam um fato importante", afirma Pinkston.

Desde 1980 não há um evento desse tipo.

Mas Kim Jong-il deverá utilizar a reunião anual da assembleia para anunciar nomeações importantes.

Há sinais de que ele estaria implementando uma mudança, já que na semana passada nomeou dois líderes para a área de defesa.

Algumas mudanças significativas poderão ser percebidas na mídia oficial quando os nomes, as profissões e as idades dos novos membros forem divulgadas. Isso poderia revelar se o exército obteve cadeiras parlamentares, um fato relevante tendo em vista o atrito, há muito percebido, entre o partido e as forças armadas.

Enquanto isso, Kim Jong-il parece ter sido aconselhado a disputar a cadeira número 333, e não a 666, que tradicionalmente é a sua favorita.

Tradução: UOL

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