Wolf: o que Obama deve dizer aos líderes do G20

Martin Wolf Colunista do Financial Times

O encontro de cúpula de Londres de 1933 marcou o momento em que os esforços de cooperação para tratar da Grande Depressão ruíram. O encontro de cúpula dos países do Grupo dos 20, na mesma cidade em 2 de abril, precisa apresentar um resultado diferente. Isto pode parecer uma tarefa simples. Não é. Um comunicado trivial habitual seria uma catástrofe.

O mundo precisa agora de uma mudança na qual acreditar. Apenas Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, pode fornecer a liderança desejada: ele é imaculado, popular e líder do país que, para o bem e para o mal, continua sendo central.

A oportunidade para Obama é agora, enquanto os "guias" do G20 preparam a minuta do texto. Ele precisa escrever urgentemente aos demais chefes de Estado. Algo assim seria perfeito.

"Caros líderes, Franklin Delano Roosevelt abandonou seu encontro de cúpula em Londres. Eu espero transformar em nosso o momento em que salvaremos a nós mesmos. Vamos decidir legar uma nova prosperidade para a posteridade, não o colapso da economia mundial que herdamos."

"Me permitam tirar um ponto importante do caminho: sim, os Estados Unidos foram culpados. Nós achávamos que sabíamos sobre finanças modernas sofisticadas. Estávamos errados. Em nome do meu país, eu peço desculpas. Mas este desastre não aconteceu no meu mandato. Então vamos deixar para trás o 'jogo da culpa'. Nós temos que aprender as lições e olhar para frente, não para trás."

"Nós estamos em uma situação terrível. No quarto trimestre do ano passado, o produto interno bruto encolheu a uma taxa anual de 20,8% na Coreia do Sul, 12,7% no Japão, 8,2% na Alemanha, 5,9% no Reino Unido e 3,8% nos Estados Unidos. Até mesmo a economia da China estagnou. A indústria foi atingida de forma particularmente dura: o mais recente declínio ano a ano na produção industrial foi de 21% no Japão, 19% na Coreia do Sul, 12% na Alemanha, 10% nos Estados Unidos e 9% no Reino Unido. Resumindo, o mundo está em uma profunda recessão."

"O Instituto para as Finanças Internacionais, com sede em Washington, também prevê um colapso no fluxo líquido de capital privado para os países emergentes, de US$ 929 bilhões em 2007 para meros US$ 165 bilhões neste ano. A previsão é de que os fluxos de crédito encolham em US$ 30 bilhões. O Fundo Monetário Internacional também prevê um declínio no volume do comércio mundial neste ano."

"Por trás de tudo isto está um colapso da riqueza de papel e uma ruptura no crédito. Os países deficitários podem ter criado estes vírus, mas não são os mais vulneráveis a ele."

"Então, o que devemos fazer agora?"

"Primeiro, devemos estabelecer prioridades. Eu noto com consternação a obsessão dos europeus com a regulamentação dos fundos hedge e paraísos fiscais. Eles causaram esta crise? Não. Os europeus também pedem pela regulamentação de todos os mercados, produtos e participantes, sem exceção. Isto é como pedir pela pesquisa do radar enquanto o Titanic está afundando. Eles percebem que os bancos mais importantes para o sistema e que estão no coração desta crise são as instituições mais regulamentadas que possuímos? Não vamos nos desviar das prioridades de hoje."

"Segundo, a maior prioridade é deter a queda livre na demanda. Ninguém mais pode imaginar que este é um problema dos outros. Eu agi e, se necessário, o farei de novo. Vocês precisam fazer o mesmo, dentro de suas próprias limitações. Os países com superávit possuem a maior margem para manobra. A China está mostrando o caminho. Que a Alemanha e o Japão sigam o exemplo. Nós todos precisamos de metas temporárias para crescimento da demanda, monitoradas pelo Fundo Monetário Internacional."

"Terceiro, nós temos que consertar nossos sistemas financeiros. Eu estou longe de satisfeito com o que meu governo conseguiu. Mas nós aprenderemos. E vocês precisam também. Os ativos tóxicos não são mais apenas uma pilha de hipotecas de risco americanas securitizadas. Se não agirmos, nós encontraremos dívidas podres em toda parte. Nós temos que concordar em abordagens comuns para a recapitalização dos sistemas financeiros e restauração do crédito, visando prevenir onerosas contaminações uns dos outros."

"Quarto, nós temos que evitar tanto o protecionismo quanto as falsas piedades. Nós temos que reconhecer duas duras realidades."

"Uma é que, com os contribuintes chamados para resgatar as instituições financeiras, as finanças serão direcionadas mais domesticamente. Agora também sabemos que apenas os grandes países podem bancar um seguro das instituições globais. Nós temos que minimizar os danos causados por este levante."

"Outra realidade é que se os Estados Unidos não puderem expandir suas exportações, aumentará a pressão para que restrinjam suas importações. Para os países deficitários que estão tentando economizar mais do que antes, como os críticos corretamente insistem que deveriam, uma melhoria na exportação líquida agora é essencial. Nós não podemos empregar medidas fiscais e monetárias excepcionais para sempre, arriscando assim a destruição do crédito de nosso governo e o valor de nossa moeda. Os países com superávit precisarão acomodar estes ajustes essenciais por meio de expansões da demanda, em relação à oferta potencial. Em uma guerra comercial, os países com superávit são os que têm mais a perder. Isto não deve ser visto como uma ameaça, mas como um alerta."

"Quinto, para superar esta crise e melhorar o funcionamento de todo o sistema global, nós precisamos de sistemas internacionais de monitoramento e garantia maiores, mais eficazes e mais legítimos. O ponto de partida tem que ser um grande aumento nos recursos para o Fundo Monetário Internacional e a reestruturação dos direitos de voto na instituição. É ridículo que os países europeus possuam cerca de um terço dos votos."

"Foi pedido aos líderes europeus que dobrem os recursos do FMI para cerca de US$ 500 bilhões. Mas em um mundo com US$ 7 trilhões de reservas em moeda estrangeira, os recursos do FMI precisam ser de uma ordem de magnitude maior do que a atual. Eu apoiaria uma emissão em grande escala de direitos especiais de saque -o ativo de reserva do FMI- e uma grande mudança nos direitos de votação. Os países emergentes que recorrerem à sua garantia precisam de maior participação nas decisões sobre como o FMI e outras instituições globais funcionam. Com esse sistema de garantia melhorado, não apenas será possível para os países emergentes incorrerem em déficits em conta corrente de forma mais segura no futuro, mas também não serão forçados a reduzir agressivamente os gastos agora."

"Como argumenta Morris Goldstein, do Instituto Peterson para as Finanças Internacionais, com sede em Washington, nós precisamos de uma 'grande barganha' -uma frase escolhida por Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido. O âmago desta barganha certamente é claro para todos nós."

"Finalmente, nós temos que implantar uma reforma abrangente da estrutura não apenas da regulamentação, mas das próprias finanças globais. Nós precisamos promover o avanço deste processo em Londres. Mas os desafios são complexos demais e o risco de consequências indesejáveis é grande demais para consertar tudo isto agora."

"Então, vamos concentrar nossos esforços na crise diante de nós. Nas palavras de Abraham Lincoln, que sejamos tocados pelos 'melhores anjos de nossa natureza'. Mas não precisamos travar uma guerra. Pelo contrário, a meta é fortalecer uma ordem econômica pacífica e cooperativa. Nós apenas devemos nos erguer acima das preocupações mesquinhas. O desafio é agora; nós temos que decidir enfrentá-lo juntos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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