Vulnerabilidade variável

Stefan Wagstyl

Enquanto empregos desaparecem e projetos de investimento estrangeiro são descartados, as tensões aumentam nas problemáticas novas democracias - mas algumas ainda estão apresentando um bom desempenho




Este deveria ser um ano de comemoração na Europa Central e Oriental. Faz 20 anos que o Muro de Berlim caiu, dez que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deu início à sua expansão para o leste e cinco que a União Europeia começou a expandir-se na região: do Báltico ao Mar Negro, os países que escaparam do jugo soviético têm muito a comemorar.

Mas a crise econômica global estragou a festa. Em vez de prosperarem calcados nas realizações das últimas duas décadas, os líderes da região estão sentindo as bases econômicas tremerem sob os seus pés.

A Europa inteira está rumando para a sua pior crise econômica desde a década de 1930. Mas, se comparadas à rica zona ocidental, as nações europeias centrais e orientais estão em uma posição mais frágil para responder à crise. Os perigos são tão grandes que os líderes da União Europeia reunidos em Berlim no domingo passado concordaram em apoiar a duplicação dos recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) para US$ 500 bilhões (348 bilhões de libras esterlinas, 391 bilhões de euros) para ajudar os países da Europa Central e Oriental, em meio àquilo que a chanceler alemã Angela Merkel chamou de "uma crise internacional extraordinária".

O que está em risco não é apenas o desenvolvimento econômico dos países vulneráveis, mas também a estabilidade política deles. Ninguém espera que haja uma repetição dos males da década de 1930. Mas a ira acumulada devido à recessão, ao desemprego e à dívida poderia alimentar o populismo, o que teria consequências imprevisíveis. Como na Europa Ocidental, poderia haver tensões sociais e étnicas. Governos reformistas, companhias multinacionais e bancos poderiam tornar-se alvos de protestos públicos quando a sobrevivência dos cidadãos ficasse ameaçada. "A crise econômica terá um impacto maior sobre a Europa Oriental do que sobre a parte ocidental do continente porque os sistemas políticos e econômicos da Europa Oriental são mais vulneráveis", afirma o ministro das Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt.

A própria União Europeia, o centro político e econômico da região, está vendo-se em dificuldades, em meio às indicações de que líderes ocidentais estão respondendo à crise colocando os interesses nacionais acima da solidariedade entre os membros da união, especialmente no que se refere ao auxílio estatal às finanças e à indústria. Tendo se empenhado para inserir os seus países no eixo europeu globalizado, alguns líderes europeus centrais e orientais sentem-se traídos. Pavol Demes, ex-ministro eslovaco das relações exteriores e diretor do departamento para a Europa Central e Oriental do Fundo Marshall Alemão, uma instituição de pesquisa política e social dos Estados Unidos, afirma: "Tem gente questionando a democracia liberal, os mercados e a União Europeia. Eles veem países como a França recorrendo a soluções nacionais quando o que é precisa são soluções internacionais. Eles sentem-se excluídos".

Demes e outros aplaudem a República Tcheca, que ocupa a presidência rotativa da União Europeia, por contestar o presidente francês Nicolas Sarkozy, que sugeriu que o auxílio às companhias automobilísticas da França deveriam ser condicionado à preservação de empregos franceses, e não àqueles que essas indústrias proporcionam na Europa Central. Mirek Topolanek, o primeiro-ministro tcheco, falou o que muitos na Europa Central e Oriental pensam, ao declarar: "A resposta dos países da zona do euro, mais do que qualquer outro acontecimento imaginável, deformou o projeto do euro".

Porém, apesar de todos as manifestações anti-governamentais na Bulgária e na Lituânia, dos protestos violentos na Letônia e da escalada da retórica anti-cigana na Hungria, a área da Europa Oriental e Central não se constitui em uma região prestes a sucumbir à desordem. Apesar das preocupações quanto à solidariedade na União Europeia, as 27 novas nações que integram o bloco continuam comprometidas com o aumento da integração. A Polônia, por exemplo, está acelerando os planos para integrar-se à zona do euro. "Nós precisamos é de mais - e não de menos - Europa", afirma Eugeniusz Smolar, diretor do Centro de Relações Internacionais de Varsóvia.

O que quer que aconteça, é provável que países diferentes que enfrentam a crise cheguem a resultados bem diferentes. Em um extremo estão as nações sujeitas a pressões financeiras particularmente severas, especialmente Hungria, Letônia e Ucrânia, que obtiveram pacotes de socorro do FMI. No outro extremo encontram-se a Polônia, a República Tcheca e a Eslováquia, que formam uma base de relativa estabilidade econômica na área central da Europa. Manfred Wimmer, o principal diretor financeiro do Erste Group, o banco austríaco que tem grandes operações na região leste e central da Europa, adverte: "O que se perdeu com muita frequência nesta crise foi a capacidade das pessoas de diferenciar as coisas".

Mesmo assim, há uma sensação cumulativa de pessimismo até mesmo nos países que até o momento escaparam do pior. Na Croácia, uma quantidade recorde de esquiadores foi passar as férias no exterior neste inverno, os preços das propriedades na costa do Mar Adriático continuam elevados e a vida noturna em Zagreb, a capital do país, está agitada. Mas, segundo Davor Butkovic, comentarista do jornal diário "Jutarnji List", nem tudo vai vem. Falando no badalado bar Bulldog, em Zagreb, ele afirma: "Ainda não estamos enfrentando uma crise econômica, mas há a sensação de que algo de ruim está vindo por aí. Neste ano houve uma queda de 30% nas propagandas publicadas no 'Jutarnji List'".

Após quase uma década de crescimento rápido, que no ano passado ainda foi de quase 5%, o produto interno bruto na região - incluindo o centro e o sudeste da Europa e a Ucrânia, mas excluindo a Rússia - deverá cair em 2009 pela primeira vez desde o caos pós-comunista do início da década de 1990. Os migrantes estão fugindo das economias problemáticas da Europa Ocidental e da Rússia e voltando para casa. Os investimentos estrangeiros diretos estão sendo adiados, como, por exemplo, no caso do projeto da Fiat no valor de um bilhão de euros (US$ 1,3 bilhão, 890 milhões de libras esterlinas) para a modernização da fábrica de automóveis Zastava, na Sérvia.

E o pior é que alguns dos bancos internacionais que alimentaram o recente crescimento econômico estão encontrando dificuldades para financiar as subsidiárias locais, o que tem provocado temores de colapsos de crédito. Segundo o Bank of International Settlements, um conglomerado de bancos centrais, no final de setembro do ano passado os empréstimos obtidos pela Europa Oriental junto a bancos estrangeiros (em moedas locais e estrangeiras) foram de US$ 1,656 bilhão - três vezes mais do que em 2005, sendo que a maioria desses empréstimos foi proveniente de bancos europeus ocidentais.

A crise do mercado neste mês evidenciou os perigos. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), o banco multilateral da região, calcula que o setor bancário necessita de US$ 200 bilhões em refinanciamento neste ano, e de US$ 100 bilhões a US$ 150 bilhões para recapitalizar-se a fim de poder lidar com os empréstimos problemáticos. A questão é saber que quantidade dessas carteiras de empréstimos enfrentará problemas à medida que as economias sofrerem desaceleração e o valor das moedas cair. Os empréstimos em moeda estrangeira, que chegam a 90% na Letônia, são uma preocupação especial devido ao fardo extra que representam para quem tomou dinheiro emprestado e paga a dívida com moeda local.

Se os bancos cobrirem apenas 70% das necessidades das suas subsidiárias, os governos e instituições multilaterais poderão enfrentar demandas de cerca de US$ 100 bilhões - uma quantia grande, mas não exagerada quando comparada à magnitude dos pacotes de socorro bancário na Europa e nos Estados Unidos. Robert Zoellick, o presidente do Banco Mundial que calculou uma quantia maior, entre US$ 40 bilhões e US$ 45 bilhões, está pedindo aos governos dos países da União Europeia que apoiem o FMI, o Banco Mundial e o BERD para a captação de fundos, afirmando que a questão é crucial para o futuro da Europa. Ele disse nesta semana a um jornal alemão: "Se a Europa se cindisse novamente em duas partes, eu consideraria isso uma tragédia imensa".

No entanto, nem todo mundo está fazendo fila nas portas do FMI. A Eslováquia e a Eslovênia encontram-se inseridas seguramente na zona do euro. A Polônia e a República Tcheca insistem que não necessitam de ajuda, e disseram que as recentes tempestades do mercado devem-se em parte ao fato de investidores em pânico terem acreditado equivocadamente que a região inteira é uma zona não diferenciada de desastre.

O impacto social e político da crise também variará. O governo da Letônia entrou em colapso na semana passada devido à austeridade exigida pelo FMI. Na Ucrânia, a desordem econômica transformou-se no mais recente motivo para as brigas entre o presidente Viktor Yushchenko e a primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Na Bulgária a crise gerou apoio para o Gerb, um grupo populista anti-corrupção que espera ganhar as eleições no país neste verão. No entanto, em outros países da região, a crise fortaleceu os governos. Donald Tusk, o primeiro-ministro liberal da Polônia, está mais popular hoje do que quando assumiu o governo em 2007.

Mas esses são desdobramentos de curto prazo. Uma crise prolongada poderia implicar na redução do apoio a políticas favoráveis ao mercado e gerar conflitos e confusão. Krisztian Szabados, diretor do Instituto de Capital Político, um grupo de pesquisas de Budapeste, teme que aumente a atividade da extrema direita, especialmente nos países que têm minorias ciganas significativas. "A extrema direita está em ascensão", afirma ele, apontando para o Jobbik, um partido húngaro de extrema direita que obteve 8,5% dos votos em uma eleição local no mês passado.

Um teste maior para partidos como o Jobbik ocorrerá no verão deste ano, nas eleições parlamentares europeias. A questão para os líderes dos países europeus centrais e orientais pode não ser o tamanho do voto extremista. Afinal, poucos partidos de extrema direita da região têm apresentado no decorrer do tempo um desempenho tão bom quanto o da Frente Nacional, da França. Mas será difícil controlar as manifestações de extremismo. As instituições públicas estão mais fracas do que na Europa Ocidental, e os governantes às vezes não têm capacidade ou vontade para impor a sua autoridade. Szabados cita o exemplo da cidade húngara de Miskolc, fortemente atingida pela crise, onde um chefe de polícia, que foi destituído por afirmar que os ciganos seriam os responsáveis por uma onda de criminalidade, foi reinstituído no cargo após a realização de manifestações em seu apoio.

Ivan Krastev, diretor do Centro de Estudos Liberais, na Bulgária, teme um colapso da confiança da classe média caso as pessoas percam os seus empregos e sejam engolidas pelas suas hipotecas: "Essas pessoas identificaram-se com o Ocidente e agora sentem-se traídas. 'Fizemos o melhor que pudemos', argumentam elas. 'Agimos da melhor forma possível e agora estão nos dizendo que adotamos as piores práticas'. E não há nenhum outro modelo disponível".

Ele traça paralelos com a crise financeira russa de 1998, durante a qual as pessoas de classe média que perderam as suas poupanças deram as costas para a democracia liberal e passaram a apoiar o autoritário Vladimir Putin. "Assim como ocorreu na Rússia, poderia haver no Ocidente uma falta de fé no sistema", adverte Krastev.

Mas este parece ser um cenário muito apocalíptico para a maior parte da região europeia central e oriental. Contando com acesso amplo aos benefícios decorrentes do ingresso na União Europeia, as elites combaterão energicamente as tentativas populistas de mudar o rumo. As instituições democráticas e pró-mercado estão bem mais fortes do que na Rússia na década de 1990.

Além do mais, a despeito da recessão, prevê-se que neste ano as economias da região apresentem um desempenho melhor do que aquelas da Europa Ocidental. Afinal, as vantagens da Europa Oriental e Central, como baixos custos e mão de obra de alta qualidade, continuam existindo. Conforme diz Erik Berglof, economista do BERD: "Apesar da crise, a integração de longo prazo da Europa Central e Oriental com a Europa Oriental seguirá em frente. O modelo de desenvolvimento é o correto".

Tradução: UOL

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