Twitter firma-se como nova onda promissora da Internet

Richard Waters

Dizer algo de convincente em um formato tão compacto é difícil que concorre com milhões de outros meios concisos. Será que esta moda online gerará dinheiro.

À primeira vista, o Twitter tem todas as características de uma moda passageira da Internet. O serviço de "microblogging", que limita as mensagens a 140 caracteres, tornou-se um favorito entre as celebridades e os inquietos especialistas em computadores e tecnologias, que parecem estar sempre "descobrindo" alguma coisa nova e interessante. Britney usa o Twitter, e Lance também. Barack, é claro, está nesta onda há eras.

O Twitter tem sua própria linguagem peculiar. As mensagens são conhecidas como tweets e as pessoas que as leem são chamadas de "followers" (seguidores). Há também os peculiares modos de comportamento e a cultura do Twitter: a sociabilidade é ampliada pela retransmissão (ou "retweeting") das mensagens que você achar especialmente interessantes - repassando-as para os seus próprios followers. Entre os usuários mais frequentes, a autopromoção gratuita é desprezada.

Mas, para além das aparências iniciais, há mais coisas por trás dessa nova moda da Internet. Porque, do seu jeito aparentemente simples, o Twitter descobriu uma fórmula que vinha sendo procurada por toda uma geração de recentes empresários da Web: uma maneira de as pessoas conectarem-se com amigos, expressarem-se e descobrirem informações que têm uma chance de um dia tornarem-se tão populares quanto outras tendências maciças online, como os blogs e as redes sociais.

O próprio Twitter - um serviço administrado por uma pequena companhia do Vale do Silício que possui apenas 29 empregados - ainda precisa demonstrar que é de fato atraente para o mercado de massa, ou que é capaz de descobrir uma maneira de ganhar dinheiro com a ideia. Mas, ainda que não consiga, as novas formas de comportamento que estão se desenvolvendo em torno do Twitter apontam para uma área inteiramente nova de interação online que outros se apressarão em explorar.

"À medida que a mídia muda e se expande, a maneira como respondemos a isso precisa também se expandir", diz Peter Norvig, diretor de pesquisas do Google. Novas maneiras de interagir na Internet já estão evoluindo para novas formas, acrescenta ele: por exemplo, entre as pessoas mais jovens, os e-mails deram, em grande parte, lugar a uma comunicação baseada em uma mistura de textos, mensagens instantâneas e inserção de mensagens em redes sociais.

Neste mundo online no qual a comunicação, a auto-expressão e o consumo da mídia estão constantemente transmutando-se em novas formas, Novig diz que o Twitter parece ser muito mais do que uma moda passageira, mesmo que ainda seja difícil discernir qual é o quadro de longo prazo.

Os usuários do Twitter enviam mensagens curtas a partir de computadores pessoais ou telefones celulares. Tais mensagens geralmente são exibidas publicamente, embora possam ser restritas a pessoas selecionadas. Quem quiser rastrear os tweets públicos de um "twitterer" pode optar por tornar-se um follower: a "stream" (corrente) de mensagens é a seguir misturada a outras streams de outras pessoas que estão sendo seguidas, sejam elas apenas uma pequena comunidade de amigos ou um grande grupo composto de celebridades, políticos e outros indivíduos que se apressaram para ter uma voz neste novo domínio.

Lançado há três anos, o Twitter conquistou inicialmente um grupo de seguidores entusiasmados entre os tecnófilos. Mais tarde, celebridades e outras figuras públicas aderiram, e, desde o ano passado, há sinais de que o universo de adeptos está se ampliando bem mais. Segundo o grupo de pesquisas Pew Internet and American Life, 11% dos usuários da Internet nos Estados Unidos dizem que estão transmitindo atualizações curtas sobre as suas ações, humor e pensamentos, embora grande parte disso possa estar ocorrendo em uma rede já existente como o Facebook.

O interesse crescente explica por que os especialistas em finanças do Vale do Silício sentem que essa poderá ser a próxima grande onda na Internet, e têm recomendado investimentos na companhia, ainda que ela não tenha lucros e até o momento não faça ideia de como os obterá no futuro.

"Creio que as pessoas não fazem ideia de como, e com que rapidez, esses novos domínios de mídia podem crescer", diz Todd Chaffee, parceiro da companhia de capital de risco IVP, que na semana passada participou de um pacote de financiamento do Twitter no valor de US$ 35 milhões. Apontando para as plateias globais geradas pelo YouTube e pelo Facebook, ele acrescenta: "Existem domínios de mídia maciços e o Twitter está rumando nessa direção. Há um efeito de rede viral que está gerando um crescimento orgânico explosivo".

Mas será que um pequeno e superficial serviço de mensagens curtas poderia realmente ser o próximo YouTube ou Facebook? Afinal, apesar do entusiasmo apaixonado dos seus usuários, o Twitter passou a simbolizar, quase desde o seu início, uma onda dos chamados serviços da Web 2.0, que expandiram a sociabilidade da Internet, mas geraram pouquíssimo lucro.

Mas muitos analistas importantes advertem contra descartar a ideia sumariamente. John Seely Brown, ex-diretor dos renomados laboratórios de pesquisa da Xerox no Vale do Silício, e co-autor de "The Social Life of Information" ("A Vida Social da Informação"), um livro influente que é anterior à explosão da mídia social online da década, argumenta que o Twitter acrescentou um novo e útil elemento de comportamento online. A enxurrada de mensagens curtas no serviço "expande a consciência periférica", diz ele, e as partículas de observação e informação criam um "contexto" mais rico para a vida online. Eles também lubrificam uma ampla gama de interações sociais: "Isso nos dá uma consciência daquilo que está a nossa volta. É fácil entrar e manter uma conversa de um minuto com a comunidade que se está seguindo no Twitter".

O fenômeno Twitter tem muito a ver com a simplicidade fundamental da ideia. Operando no ponto de encontro dos fenômenos dos blogs, mensagens de texto e redes sociais, o serviço desafia qualquer categorização fácil. "Como o Twitter está passando por uma evolução tão rápida, é difícil colocar um rótulo nele", diz Peter Fenton, parceiro do Benchmark Capital, que acaba de ingressar na diretoria do Twitter. "Não descobrimos ainda nem um só rótulo ou descrição".

Os seus elementos - incluindo a natureza de tempo real do fluxo de comentários, o fato de os tweets poderem ser procurados e de os followers escolherem que streams receberão - combinaram-se para criar algo que despertou uma coceira que a maioria dos usuários da Internet nem sabia que tinha. E, à medida que o Twitter foi crescendo, surgiu também um efeito de rede.

"Quanto mais usuários, mais valioso o sistema - há um efeito cumulativo", afirma Fenton.

Uma decisão tecnológica inicial tomada em relação ao serviço está começando a dar a impressão de ter sido inteligente. Os fundadores do Twitter criaram uma forma segundo a qual outros programadores podem redigir aplicações da Internet que funcionam em cima do Twitter - levando, por exemplo, à criação de serviços de busca independentes e de instrumentos organizacionais que se baseiam em dados do Twitter.

Conforme iniciativas similares no Facebook e no iPhone da Apple demonstraram, aberturas como essa podem transformar uma tecnologia em uma plataforma na qual ocorrem inovações, o que, por sua vez, atrai mais usuários. É só nas mãos dos usuários que serviços como esse podem se tornar vivos ou perecer. "Trata-se mais de um triunfo da humanidade do que de um triunfo da tecnologia", diz Fenton.

Tony Hsieh, diretor da Zappos, uma vendedora online de sapatos, exibe o entusiasmo dos novos usuários fiéis do Twitter - ele confessa que checa os tweets no seu BlackBerry Pearl enquanto "espera em filas, no sinal vermelho, ou quando caminha". Ele conta que nos dois anos transcorridos desde que aderiu ao serviço, a maneira como ele é utilizado "evoluiu bastante".

No início tratava-se de criar uma rede em meio a pessoas familiarizadas com a tecnologia e que pensavam de forma similar, embora a coisa tenha passado a dizer respeito "mais à construção de relacionamentos" à medida que o número de usuários foi crescendo. Com vários links com coisas que os usuários leram ou viram, ele também se transformou em um serviço de compartilhamento de mídia. Conforme diz Hsieh: "Eu geralmente obtenho todas as minhas notícias através do Twitter".

Não é de se surpreender que as empresas também estejam procurando formas de obter benefícios de uma rede que cresce tão rapidamente. O fato de os usuários escolherem que mensagens desejam receber abre caminho para uma nova forma de mercado "opcional". "O Twitter é um símbolo do conteúdo focado que interessa, quando você o deseja", diz Bob Pearson, diretor de comunidades e conversação da Dell. A fabricante de computadores, por exemplo, emite uma stream de tweets a respeito de novos descontos sobre os seus produtos, que qualquer um pode assinar.

Além das conexões sociais e empresariais que lubrifica, a enxurrada de mensagens curtas do Twitter criou uma nova maneira de avaliar o clima que prevalece entre os usuários do mundo virtual - uma maneira que funciona em tempo real. Segundo Norvig, do Google, isso pode ser a contribuição mais integrante do sistema à Internet atual: "Quem consulta o Google espera procurar coisas que aconteceram anteriormente, e não o que está ocorrendo agora".

No Twitter, as vozes agregadas de milhões de pessoas podem ser ouvidas em uníssono. "É como dizer, 'Ei, estamos tendo essa experiência juntos'", diz Norvig. "O fato de eu dizer que estive na cerimônia de posse do presidente Barack Obama não desperta o interesse de ninguém. Mas se um milhão de pessoas dizem que estiveram lá, a coisa torna-se interessante".

Isso transformou grandes eventos globais em uma nova forma de experiência compartilhada. O tráfego no website disparou durante a cerimônia de posse, quando os usuários que estavam lá, ou os que assistiam pela televisão, recorreram ao serviço para falar do que sentiam - um contraste com o Google ou o Facebook, que tiveram queda de tráfego durante o evento. Enquanto o atentado em Mumbai (antiga Bombaim) se desenrolava, no ano passado, um fluxo de relatos de testemunhas oculares transformou o Twitter em uma fonte de notícias e em um local onde as pessoas respondiam imediatamente ao incidente.

"A gente obtém um quadro do que está acontecendo de forma realmente rápida", afirma Frank Eliason, diretor de serviços digitais da Comcast, a companhia de televisão a cabo dos Estados Unidos. "No Facebook você pode procurar grupos, mas não dá para procurar o que as pessoas estão fazendo ou dizendo".

É claro que nada disso garante que o Twitter chegou para ficar - ou mesmo que outros serviços de "microblogging" como ele terão sucesso em atrair um público maciço da forma como as redes sociais fizeram. O excesso de informações, ou simplesmente a resistência ao que é novo, poderá prejudicar o seu crescimento. As barreiras para penetração na Internet são baixas - como o próprio Twitter comprovou -, e a luta darwiniana entre os serviços de mídia social é intensa. Sem dúvida alguma outra coisa emergirá para procurar atrair a atenção cada vez mais dispersa dos twitterers.

Além disso há a questão do lucro. O investimento de US$ 35 milhões de dólares foi "um salto de fé", admite Fenton. Biz Stone, o co-fundador, diz que o Twitter jamais cobrará qualquer taxa pelo serviço básico, embora ele tenha cogitado cobrar dos usuários empresariais por funções extras.

"Se o Twitter conseguir atrair um universo maciço de usuários, haverá todos os tipos de oportunidades para lucros", afirma Chaffee. "Mas, por ora, com bastante dinheiro no banco, ele pode se dar ao luxo de construir o seu universo de usuários durante 'anos' antes que precise se preocupar com ganhar dinheiro".

Essa abordagem do tipo "construa e o lucro virá" produziu muitos dos maiores nomes da Internet. Essa foi a estratégia por detrás de nomes populares como o YouTube e Skype, bem como o próprio Google. O Twitter ainda tem um longo caminho pela frente até que seja capaz de ingressar nesse clube, mas, entre os diversos serviços de Internet que estão lutando para obter atenção, ele tem uma chance maior do que a maioria dos concorrentes.

* Chris Nuttall e David Gelles contribuíram para esta matéria.

Tradução: UOL

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