Abre-se um novo capítulo na onda de violência que engole o Paquistão

James Lamont e Farhan Bokhari

O mais próximo que muitos moradores de Lahore chegarão do esporte internacional nos próximos anos será no aeroporto da segunda maior cidade do Paquistão. Antes de enfrentar as suas atuais dificuldades financeiras, o Royal Bank of Scotland encheu o aeroporto de cartazes de propaganda com fotos dos astros de rugby, críquete, golfe e corrida de automóveis.

Os cartazes em tamanho real eram tão imponentes que os visitantes poderiam ser desculpados por pensar que tinham chegado a uma capital esportiva do mundo.

Mas isso não ocorre mais. O atentado terrorista de grande magnitude contra a equipe de críquete do Sri Lanka na última segunda-feira abriu um novo capítulo na história de violência que engole este país do sul da Ásia. A ação aprofundou a sensação de isolamento do Paquistão e atingiu uma cidade, próxima à fronteira indiana, que vinha conseguindo escapar de grande parte dos assassinatos perpetrados por militantes.

O ataque mais recente, visando deliberadamente estrangeiros para a obtenção do maior impacto possível na mídia, segue-se ao atentado contra o hotel Marriott em Islamabad em setembro do ano passado, e à captura do Vale Swat, que anteriormente era uma área turística, por militantes do Taleban no mês passado. As autoridades dizem que o ataque de segunda-feira - realizado por pistoleiros ágeis que levavam um arsenal de munições e explosivos - tem também alguma similaridade com os ataques terroristas de Bombaim, que mataram quase 200 pessoas.

A guerra que se difunde a partir da fronteira do Afeganistão dava a impressão de estar muito distante da comercial e histórica Lahore, ainda que a cidade tivesse sofrido um atentado a bomba no ano passado. O famoso mercado Liberty de Lahore orgulhava-se da sua imunidade à violência extremista que tem devastado o Paquistão desde os ataques terroristas de 2001 nos Estados Unidos. A área é um paraíso à luz do dia para os consumidores que buscam roupas e sapatos da moda. À noite ela é uma região de restaurantes caros.

"O mercado Liberty era um bairro de luzes e prosperidade. Era isso que eu costumava dizer, mas hoje vejo que estava totalmente equivocado", diz um dos mais proeminentes empresários do Paquistão, entrevistado em Lahore. O ataque de segunda-feira foi um amargo lembrete para consumidores e amantes do críquete de que os militantes são capazes de atacar à bel-prazer em qualquer local do Paquistão. A segurança deteriorou-se drasticamente desde que um governo civil assumiu o poder um ano atrás após anos de regime militar sob Pervez Musharraf. Imran Khan, um ex-jogador de críquete paquistanês que tornou-se político, disse que a falha de segurança da segunda-feira foi "vergonhosa".

"Isto é um golpe enorme para os que amam o críquete e o Paquistão. O fato confirma que hoje em dia o Paquistão é um lugar perigoso. Existem forças internas, e talvez externas, operando para atingir a segurança nacional do Paquistão", afirma Talaat Masood, um general paquistanês da reserva e especialista em segurança.

Diplomatas em Islamabad dizem que o ataque pode ter tido ligação com os protestos públicos da semana passada provocados pela desqualificação, por um decreto da Corte Suprema, de Nawaz Sharif, o ex-primeiro-ministro, e do seu irmão mais novo, Shehbaz Sharif, para a disputa por um cargo político. Shehbaz foi substituído por um indivíduo nomeado pelo governo para o cargo de ministro-chefe do Punjab.

Os dois irmãos Sharif são os mais proeminentes líderes da oposição a Asif Ali Zardari, o presidente do Paquistão. A Liga-Nawaz Muçulmana do Paquistão (PML-N), liderada pelo Sharif mais velho, deverá promover mais um dia de protestos contra o governo na próxima sexta-feira.

Os líderes do PML-N acusaram publicamente Zardari, o viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, que foi assassinada em dezembro de 2007, de manipular o veredicto do tribunal. "Este é um exemplo flagrante de uma completa falha de segurança. Se somos incapazes de proporcionar segurança até mesmo para um time visitante de críquete, como é que transmitiremos confiança para o nosso próprio povo?", questiona Mushahid Hussain, líder oposicionista da Liga-Quaid Muçulmana Paquistanesa (PML-Q). "Embora o governo esteja preocupado em marcar pontos políticos e em minar a oposição, ele não tem controle sobre o país".

Mas muitos detectaram há muito tempo uma radicalização do Punjab, a província mais populosa e politicamente poderosa do Paquistão. Um diplomata ocidental disse que grupos militantes como o Lashkar-e-Taiba, responsabilizados pelos ataques de Bombaim, têm recrutado jovens desempregados do Punjab. Os grupos tornaram-se "jihadistas" de uma forma mais ampla, em vez de limitarem-se a abraçar uma causa específica, como a liberação do território sob disputa na Caxemira, que está sob controle indiano.

"Eles não são combatentes pela libertação da Caxemira. São indivíduos do Punjab recrutados para a causa por outros motivos. Há jovens que estão aparecendo mortos", disse o diplomata.

O ataque contra a equipe do Sri Lanka enervou bastante a Índia, que é vizinha do Paquistão. Lahore é tida como uma cidade culturalmente irmã de Nova Déli, a capital indiana. Autoridades da Índia temem que um ataque terrorista em solo indiano antes das eleições parlamentares do mês que vem provoque retaliação contra militantes paquistaneses enquanto os partidos do congresso lutam para manterem-se no poder.

Já as autoridades indianas responsáveis pela administração do críquete temem que o ataque em Lahore atrapalhe nas próximas semanas o prestigiado calendário doméstico desse esporte. A Liga Principal Indiana recrutou jogadores internacionais que poderão preferir a segurança dos cartazes aos jogos no campo.

Tradução: UOL

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