A esperança de Chávez de obter o toque de Midas com a mineração

Benedict Mander

Enquanto o helicóptero faz um voo rasante sobre uma das maiores reservas não exploradas de ouro do mundo, ao sul da negligenciada cidade mineradora de El Dorado, o piloto dá de ombros com um ar desanimado.

"É uma grande vergonha", afirma ele, apontando para a cicatriz na floresta virgem no sudeste da Venezuela, uma floresta que está sendo derrubada por milhares de garimpeiros ilegais em busca ouro.

Mas, após uma década de caos, durante a qual os garimpeiros destruíram o meio ambiente, enquanto as companhias privadas não conseguiram extrair um grama de ouro sequer de Las Cristinas, o presidente Hugo Chávez disse que a jazida poderá ser explorada por uma joint venture firmada entre o Estado venezuelano e a mineradora russa Rusoro Mining.

Como o petróleo proporciona mais de 90% das receitas com exportação e mais da metade do dinheiro gasto pelo governo, a queda dos preços no setor de energia fez com que o governo passasse a se interessar pelas respeitáveis reservas de ouro com o objetivo de aumentar as suas rendas. O governo venezuelano também está interessado agora em commodities como o café e o cacau - que já foi o maior produto de exportação da Venezuela.

A parceria entre o presidente socialista e a companhia russa é um dos frutos de uma parceria que cresce entre Caracas e Moscou - parte da estratégia do presidente anti-imperialista para desafiar a influência dos Estados Unidos na região.

"O espírito de boa vontade entre os dois governos certamente nos ajudou muito", afirma George Salamis, presidente da Rusoro, que já adquiriu minas e aperfeiçoou precários projetos de mineração aqui no ano passado.

Algumas companhias estrangeiras enfrentaram dificuldades na Venezuela nos últimos anos, quando Chávez procurou punir companhas capitalistas enquanto aprofundava a sua revolução socialista.

Assim como as empresas afetadas pela iniciativa estatal de assumir o controle de indústrias "estratégicas" nos últimos dois anos, uma das companhias que apresentaram o pior desempenho foi a Crystallex, do Canadá, que aguarda permissão para explorar a jazida de Las Cristinas desde que recebeu concessão para as suas atividades na Venezuela em 2002.

"O meu principal objetivo é acabar com a percepção de que a Venezuela é um local arriscado para os negócios, uma ideia que foi exacerbada pelo que vem acontecendo em Las Cristinas nos últimos 15 anos", afirma Salamis.

Após adquirir, em 2008, os direitos de operações da Hecla, empresa dos Estados Unidos, e da sul-africana Gold Fields, a Rusoro é a única companhia internacional que de fato extrai ouro na Venezuela. Com o controle sobre Las Cristinas, bem como sobre o vizinho projeto Brisas, que atualmente é controlado pela norte-americana Gold Reserve, a Rusoro acrescentará às suas reservas de 283,5 toneladas mais 765,5 toneladas de ouro, o que representará a maior parte das jazidas deste mineral na Venezuela, que são estimadas em 1,4 milhão de toneladas.

Mas há obstáculos significativos. A imprevisibilidade dos negócios na Venezuela é exemplificada pela insistência da Crystallex em dizer que não foi avisada de que o governo venezuelano pretendia trabalhar com a Rusoro, apesar "da comunicação constante com autoridades venezuelanas graduadas".

A tentativa da Rusoro de assumir o controle sobre o projeto Brisa, da Gold Reserve, também não transcorreu tranquilamente como se esperava, depois que um tribunal canadense anulou a oferta de ações da companhia, determinando que esta obteve acesso impróprio a informações confidenciais sobre a Gold Reserve.

"No fim das contas, a mensagem para a Crystallex e a Gold Reserve é clara", afirma Mickey Fulp, analista de mineração que trabalha em Albuquerque, no Estado do Novo México. "Que organização capitalista do mundo estaria disposta neste momento a financiar negócios na socialista Venezuela?".

Embora a reserva total de ouro equivalha a no máximo seis meses de receitas provenientes do petróleo, a exploração desses recursos representaria um grande estímulo para esta área remota, já que criaria milhares de empregos na economia formal. Isso também se encaixa em uma estratégia mais ampla para industrializar a economia, com planos para investimentos nos setores de diamante e urânio.

Talvez o maior obstáculo para as companhias mineradoras da região seja o nível elevado de tensão social e de desemprego, que foi amplificado pela incapacidade das companhias mineradoras de conquistar as comunidades locais. Mas o sucesso da Rusoro em trabalhar com as comunidades parece ter rendido a ela simpatias junto ao governo socialista.

"O povo daqui perdeu toda a confiança nas companhias internacionais", diz Roger Flores, um garimpeiro local, explicando que o fracasso das tentativas de obter um acordo com o governo fez com que uma multidão de garimpeiros ilegais decidisse agir por conta própria em Las Cristinas, provocando danos ecológicos permanentes.

Tradução: UOL

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