Indianas sofrem com fanatismo dos "vigilantes dos costumes"

Amy Kazmin

Com suas paredes brancas luzidias e iluminação azulada, móveis ultramodernos e garrafas de cerveja a 160 rúpias (US$ 3), o Amnesia Lounge foi projetado para ser um ponto chique para jovens profissionais endinheirados na histórica cidade portuária de Mangalore, no sul da Índia.

Em vez disso, o Amnesia ganhou fama nacional após hindus fanáticos invadirem o clube e atacarem as clientes do sexo feminino - enquanto câmeras de televisão, avisadas com antecedência pelos agressores, registravam tudo.

O ataque ocorrido em janeiro expôs as profundas divisões de gerações na Índia. Valhos políticos do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP) e do Congresso se queixaram do florescimento nos últimos anos da cultura do "bar e shopping", juntamente com o progresso econômico.

Mas violência imprudente nunca foi uma expressão tradicional do conservadorismo social profundamente enraizado da Índia.

Em vez disso, o ataque faz parte de um aumento perturbador do número de vigilantes hindus entre os jovens de classe baixa, cuja raiva contra sua marginalização econômica está sendo canalizada em indignação religiosa por parte de organizações hindus de direita como a Bajrang Dal, ou Sri Ram Sena, ou Exército do Senhor Rama.

Mulheres jovens consideradas como violadoras das tradições sociais conservadoras foram vítimas de uma série de ataques violentos em Mangalore, gerando medo em uma comunidade antes conhecida por seu espírito cosmopolita, ambiente descontraído e relativa convivência tranquila entre meninos e meninas. Em particular, os grupos vigilantes (parte da família de grupos hindus conservadores que formam a principal base de apoio do BJP) estão irritados com o convívio social entre garotas hindus e rapazes da comunidade muçulmana, que prosperaram nos últimos anos graças ao afluxo de dinheiro enviado por migrantes locais que trabalham no Golfo.

Os agressores "veem uma riqueza ostentosa por toda a volta à qual eles não têm acesso, de forma que surge uma espécia de frustração", diz H. P. Soumayaji, um membro do Fórum de Harmonia Comunal de Mangalore, que tem documentado a violência. "Esta frustração é sistematicamente transformada em uma política de ódio."

Em dezembro, hindus fanáticos usaram barras de ferro e correntes para quebrar o pára-brisa e as janelas de um ônibus privado que transportava 40 estudantes hindus, cristãos e muçulmanos em uma passeio escolar com monitores, deixando cinco estudantes feridos com o vidro quebrado.

Mulheres também apanharam por conversarem com homens em ônibus públicos, em cafés e teatros, e as mulheres jovens também estão sendo vigiadas nos campi escolares por estranhos, que as alertam agressivamente a não conversarem com muçulmanos.

"Eles me repreenderam por estar com um rapaz muçulmano", disse K. S. Shruti, uma estudante colegial de 17 anos, que no mês passado foi arrastada para fora do ônibus juntamente com seu acompanhante muçulmano por uma gangue de valentões, que levaram os dois jovens para uma área remota e batarem neles. "Eles disseram; 'Você não é uma hindu'. Eu fiquei apavorada", ela acrescentou.

Enquanto faz campanha para as próximas eleições parlamentares, o BJP busca se proteger como o partido capaz de revigorar a economia em dificuldades, fortalecer a segurança nacional e melhorar a posição global da Índia. Mas em Mangalore, que está no Estado sulista de Karnataka, governado pelo BJP, muitos consideram o partido leniente com os grupos extremistas hindus, com os quais têm laços fortes e compartilha a preocupação com as mudanças sociais na Índia.

O capitão Ganesh Karnik, um membro do BJP do legislativo estadual de Karnataka, disse que o partido não faz vista grossa à violência. Mas ele acrescentou que o relacionamento entre garotas hindus e garotos muçulmanos está "perturbando" a sociedade, levando alguns a expressar sua "angústia".

"As garotas daqui querem se tornar mães antes de se casarem?" perguntou o capitão Karnik. "A sociedade está mudando, os valores estão mudando e estas questões são muito delicadas. Nós precisamos de mais tempo para resolver isto."

Tradicionalmente, as famílias indianas, tanto hindus quanto muçulmanas, mantêm um controle rígido sobre as mulheres - incluindo sua educação, trabalho e vida social - segundo as crenças e prioridades da família. Mas quando as famílias afrouxam as restrições, os hindus fanáticos acreditam ser sua prerrogativa interferir.

Muitos também acreditam que os vigilantes contam com o apoio tácito da polícia estadual, que fala de garotas hindus locais sendo "exploradas" pelos garotos muçulmanos ricos, além de responder aos ataques de gangues contras as mulheres jovens convocando os pais das vítimas e os repreendendo sobre a conduta de suas filhas.

Sarah Aboobacker, uma proeminente romancista muçulmana e crítica social em Mangalore de 73 anos, disse que o crescente fundamentalismo hindu espelha o extremismo que ela vê na comunidade islâmica. "Todos os fundamentalistas fazem o mesmo", ela disse. "Eles querem decidir o que as mulheres devem e não devem fazer."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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