Até onde o Brasil aguenta a crise?

Por Jonathan Wheatley

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está animado. "O Brasil entrou na crise mais tarde [que o resto do mundo] e tem toda chance de sair dela mais rápido", disse ao Financial Times.

É uma mensagem que está funcionando com a maioria do povo brasileiro.
Uma pesquisa de opinião nacional feita no mês passado mostrou que a taxa de aprovação de Lula chegou a um recorde de 84% - um patamar extraordinário para um presidente na metade do segundo mandato, com ou sem crise.

Lula da Silva descreve 2008 como um "ano excelente" e diz que continua otimista em relação a 2009. A maioria dos brasileiros sentiu que estava melhor de vida sob seu governo uma vez que a oferta de emprego e os salários cresceram regularmente - pelo menos até a crise começar, no final de 2008. O valor do PIB do quarto trimestre, que será divulgado amanhã, deve confirmar que a economia cresceu com folga mais de 5% no ano passado.

Mas os números também poderão aumentar as preocupações quanto à verdadeira resistência do país em relação à crise. "Esperaremos pelo relatório do PIB da semana que vem [nesta terça-feira (10)] antes de revisar e provavelmente reduzir nossa previsão de 0,3% de crescimento do PIB em 2009", disse o Unibanco, um dos grandes bancos do país, em nota aos clientes na última sexta-feira.

A previsão do Unibanco está abaixo do consenso de 1,5% medido pelos economistas do Banco Central na estatística semanal mais recente e abaixo da meta de 4% de crescimento do governo para este ano.

Os economistas do Unibanco não são os únicos alarmados com uma série de indicadores surpreendentemente ruins. A produção industrial em janeiro, por exemplo, caiu 17,2% em relação a janeiro passado.

Os números deste mês foram especialmente chocantes, levando em conta que a produção de veículos - responsável por um décimo de toda a produção industrial - recuperou-se e cresceu 41% desde dezembro. Ainda assim, a recuperação no setor automotivo deve perder velocidade quando um imposto sobre a venda de veículos, que foi suspenso em janeiro, voltar à ativa no mês que vem.

Mas Lula argumenta - e poucos observadores discordam - que o Brasil está muito melhor colocado para superar a crise do que estava há uma década, quando as crises da Rússia e da Ásia levaram a uma queda súbita na moeda que quase obrigou o país à inadimplência.

Desde que o presidente assumiu o poder em 2003, a demanda por alimentos e bens industriais, junto com os altos níveis de investimento estrangeiro direto, ajudaram o Brasil a juntar mais de US$ 200 bilhões em reservas em moedas estrangeiras - uma proteção confortável contra a volatilidade.

O Brasil também está relativamente isolado do resto do mundo. As exportações equivalem a apenas 14% do PIB, e o crédito total na economia antes da crise equivalia a apenas 30% do PIB, com uma pequena parte vinda do estrangeiro. Isso deveria proteger o país da queda da demanda mundial e da falta de crédito global.

Mas conforme cresce a apreensão em todo o mundo a respeito da verdadeira extensão da crise global, a idéia de que o Brasil possa superar a tempestade num isolamento confortável está sendo questionada.

"O Brasil é muito mais sensível do que as pessoas acreditam", diz Marcelo Carvalho, economista-chefe do Morgan Stanley em São Paulo, que prevê crescimento zero este ano. "O quadro global é desesperançoso e a queda aqui será pior do que as pessoas estão esperando".

Ele disse que a recente aceleração na queda das exportações brasileiras é mais significativa do que seu montante em relação ao PIB, que a saída de capital é extremamente negativa, que o fechamento dos mercados de crédito do exterior causou expansão dos empréstimos no mercado brasileiro e, talvez mais significativamente, que uma queda nos negócios e na confiança dos consumidores provocou uma repentina paralisação da atividade econômica.

Por que, então, Lula continua tão popular? Almir Araújo, dono de uma locadora numa favela na periferia de São Paulo, tem parte da resposta. "Crise, aqui? Não. As pessoas estão preocupadas, mas ainda não tivemos nenhum impacto".

Os dados de desemprego sugerem que isso pode estar mudando. Mais de 100 mil empregos formais foram perdidos em janeiro, depois dos mais de 650 mil em dezembro. Mas pelo menos dois terços dessas perdas foram causadas por fatores sazonais. Com muitos brasileiros retornando ao mercado de trabalho só na semana passada, depois do hiato que vai do Natal até o Carnaval, o aumento na taxa de desemprego de 7,4% em setembro para 8,6% em janeiro - depois de ter atingido 13% no final de 2003 - poderá ser relevante.

"Nosso maior temor é que nossas conquistas não sejam revertidas em termos de emprego e renda para dezenas de milhões de brasileiros pobres", disse Lula da Silva. A multidão de brasileiros pobres, que atribui ao presidente a melhoria das condições de vida durante os últimos seis anos, deve concordar com ele.

Tradução: Eloise De Vylder

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