Crise global foi causada por "criação destrutiva"

Gillian Tett

Ganância, fraude, dinheiro barato, falhas de gerenciamento e fiscalização deficiente foram fatores que contribuíram para a crise - mas no cerne dela está a complexidade e a opacidade do sistema financeiro moderno


Há seis anos, Ron den Braber trabalhava para o Royal Bank of Scotland em Londres quando ficou preocupado com a possibilidade de o modelo do banco estar subestimando o risco das opções de crédito que fornecia. Mas quando o especialista holandês em estatística alertou os seus patrões para o problema, ele deparou-se com tamanha desaprovação que acabou saindo da empresa.

"Comecei falando as coisas gentilmente... mas ninguém queria ouvir", recorda-se den Braber. "Acredito que o motivo para isso reside no 'pensamento grupal' e nas pressões para que os negócios sejam feitos, bem como no puro desconhecimento a respeito de como os modelos funcionam".

Histórias desse tipo ajudam a explicar como foi que os grandes bancos ocidentais colocaram-se na presente situação difícil e jogaram o mundo em uma recessão. Os prejuízos são da ordem de US$ 1 trilhão (795 bilhões de euros, 725 bilhões de libras esterlinas), segundo o Instituto de Finanças Internacionais, o grupo de Washington vinculado aos lobbies das instituições bancárias. O Banco da Inglaterra diz que os prejuízos dos bancos que tiveram que reajustar os seus investimentos para preços de mercado são de US$ 3 trilhões, o equivalente a cerca de um ano de produção econômica do Reino Unido. Na segunda-feira (09/03), o Banco de Desenvolvimento Asiático estimou que os ativos financeiros em todo o mundo podem ter sofrido uma queda, até o presente momento, de mais de US$ 50 trilhões - um número equivalente à produção global anual.

Assim, para saber para onde o capitalismo está rumando, é imperativo que os governantes, banqueiros e investidores entendam mais claramente o que ocorreu de tão errado com o sistema financeiro do século 21. Sem dúvida o que não falta são potenciais culpados: ganância desbragada, regulações destituídas de rigor, políticas monetárias excessivamente flexíveis, empréstimos fraudulentos e fracasso gerencial. Tudo isso desempenhou um papel - conforme ocorreu em períodos anteriores de prosperidade e crise.

Um outro problema que influiu na crise: a extraordinária complexidade e opacidade do sistema financeiro moderno. Nas duas últimas décadas, uma onda de inovação remodelou a forma como os mercados funcionam, de uma maneira que dava a impressão de resultar em grandes benefícios para todas as partes. Mas essa inovação tornou-se tão intensa que atropelou a capacidade de compreensão dos banqueiros mais comuns - isso para não mencionar os reguladores.

Como resultado, não só o sistema financeiro está amargando prejuízos em uma escala que ninguém jamais previu, mas os pilares da fé sobre os quais o novo capitalismo financeiro foram construídos também praticamente desmoronaram. Isso fez com que todos, dos ministros das finanças aos banqueiros centrais, dos pequenos investidores aos pensionistas, ficassem destituídos de uma bússola intelectual, desnorteados e confusos.

"O nosso mudo está quebrado - e eu honestamente não sei o que irá substituí-lo. A bússola segundo a qual conduzíamos os Estados Unidos desapareceu", afirma Bernie Sucher, diretor de operações em Moscou do Merrill Lynch. "A última vez em que vi algo desse tipo, em termos de sensação de desorientação e prejuízos, foi entre os meus amigos na Rússia, quando a União Soviética desmoronou".

A atual crise é um produto de mudanças que vêm se enraizando silenciosamente no Ocidente há vários anos. Há meio século, a atividade bancária parecia ser uma arte relativamente simples. Quando os bancos comerciais estendiam os empréstimos, eles tipicamente mantinham essas operações dentro de seus próprios sistemas contábeis - e utilizavam cálculos rudimentares (combinados com as informações sobre os seus clientes) quando decidiam se emprestariam ou não.

Porém, da década de setenta em diante, duas revoluções ocorreram: os bancos passaram a vender o seu risco de crédito a outros investidores nos prósperos mercados de capital; e adotaram complexos sistemas baseados em computadores para mensurar o risco de crédito que eram frequentemente importados do setor de ciências puras - e elaborados por "geeks" da estatística, como den Braber do RBS.

Até o verão de 2007, a maioria dos investidores, banqueiros e governos acreditava que essas revoluções representavam "progresso" real que beneficiava a economia como um todo. Os reguladores adoravam o fato de os bancos estarem ampliando as exposições de crédito, já que crises como a de poupanças e empréstimos nos Estados Unidos, na década de oitenta, demonstraram os perigos de os bancos serem expostos a um tipo concentrado de empréstimo. "A dispersão do risco de crédito ajudou a tornar o sistema bancário e financeiro mais resistente", proclamou em abril de 2006 o Fundo Monetário Internacional (FMI), expressando uma crença ocidental generalizada.

Os banqueiros ficaram ainda mais entusiasmados, porque, quando reestruturaram os empréstimos para venda a investidores externos, eles embolsavam taxas em quase todos os estágios da cadeia de "fatiamento". Além do mais, quando os bancos disseminaram o risco de crédito, os reguladores permitiram que eles criassem mais empréstimos - possibilitando que mais crédito fosse injetado na economia, criando ainda mais taxas bancárias. No início de 2007, dirigentes financeiros do Northern Rock do Reino Unido estimaram alegremente que poderiam triplicar a extensão dos seus empréstimos, por unidade de capital, em relação a cinco anos antes. Isso porque eles estavam transformando as suas hipotecas em títulos e, desta forma, eram capazes de atender às diretrizes regulatórias de uma maneira mais "eficiente".

Mas, à medida que a inovação tornou-se mais intensa, ela também passou a ficar permeada de uma terrível ironia. Em público, os técnicos financeiros na vanguarda da revolução retratavam as mudanças como medidas que promoveriam uma forma superior de capitalismo de livre mercado. Quando uma equipe do JPMorgan criou derivativos de crédito na década de 1990, uma palavra-chave favorita na sua literatura de mercado era a afirmação de que tais derivativos promoveriam "completitude de mercado" - ou mercados livres mais perfeitos.

Na realidade, muitos desses novos produtos eram tão especializados que nunca foram comercializados em mercados "livres". Um instrumento conhecido como "obrigações de dívida colateralizada de securities lastreadas por ativos" (ODC de SLA) é um exemplo disso. Este artifício surgiu em meados desta década quando os banqueiros criaram carteiras de títulos vinculados a hipotecas, muitas vezes misturados a outros derivativos de crédito. A sopa de letrinhas de abreviaturas que isso gerou era, com frequência, tão estonteante quanto os produtos que os acrônimos representavam. Em 2006 e início de 2007, nada menos do que US$ 450 bilhões dessas securities "ODC de SLA" foram produzidas. Em vez de serem comercializadas, a maioria foi vendida a entidades que não pertenciam à carteira de balanço dos bancos, como os SIVs (sigla em inglês para "veículos de investimento estruturado") - ou simplesmente deixada nos registros de contabilidade.

Isso constituiu-se em uma zombaria em relação à ideia de que a inovação ajudara a dispersar o risco de crédito. E também enfraqueceu qualquer ideia de que os bancos estivessem usando sistemas de contabilidade ajustados ao mercado: como a maioria dos bancos não contava com preço de mercado para essas CDOs (ou muita coisa mais), eles geralmente atribuíam a elas determinado valor usando cálculos teóricos derivados de modelos. O resultado foi que uma onda de inovações que deveria criar mercados mais livres na verdade produziu um universo opaco no qual o risco estava ficando concentrado - de maneira que quase ninguém podia entender. Por volta de 2006, poderia ser necessário "um fim de semana inteiro" para que os computadores realizassem os cálculos necessários para avaliar os riscos de CDOs complexas, admite a agência de classificação Standard & Poor's.

A maioria dos investidores estava satisfeita em comprar produtos como as CDOs porque confiavam no valor das classificações de crédito. Enquanto isso, os bancos obtinham lucros tão grandes que havia pouco incentivo para questionarem os seus modelos - mesmo quando especialistas como den Braber tentavam indicar as falhas.

Em julho de 2007, a fé cega começou a sofrer rachaduras. Nos Estados Unidos a inadimplência passou a aumentar no setor de hipotecas subprime. Agências como a Standard & Poor's reduziram as classificações de produtos vinculados a hipotecas e admitiram que os seus modelos estavam apresentando defeitos. Isso provocou um choque tamanho que investidores como os fundos de mercado de capital deixaram de adquirir notas emitidas por entidades nebulosas como os SIVs. A gangrena do medo começou a infectar os bancos "reais", que, segundo descobriram os investidores, encontravam-se expostos aos SIVs de maneiras inesperadas. "Apesar de estar há mais de 30 anos no ramo, eu não fazia ideia da dimensão dos veículos externos às listas de balanço dos bancos, como os SIVs", observou recentemente Anthony Bolton, presidente de investimentos do Fidelity International.

A partir de 2005, bancos como o Merrill Lynch, o Citigroup e o UBS passaram a acumular instrumentos como os CDOs. "Nunca prestamos muita atenção... porque os nossos gerentes afirmavam que esses instrumentos tinham nota 'A-triplo'", lembra Peter Kurer, presidente do UBS. Mas quando o índice de inadimplência das subprime aumentou, os contadores exigiram que os bancos reavaliassem esses instrumentos.

Por volta da primavera de 2008, o Citi, o Merrill e o UBS haviam amargado coletivamente um prejuízo de US$ 53 bilhões. Muitos ficaram chocados ao descobrirem que dois terços desses prejuízos estavam vinculados aos CDOs supostamente "A-triplo", que naquela altura já valiam menos da metade do seu valor nominal. "No setor de serviços financeiros, aquela foi a era na qual os modelos fracassaram", diz Joshua Rosner, um economista norte-americano.

Os bancos tentaram tapar este buraco com a obtenção de mais de US$ 200 bilhões em capital novo. Mas o buraco continuou aprofundando-se. Como resultado, a fé na capacidade dos reguladores de monitorar os bancos desmoronou. A fé nos bancos também acabou. A seguir, quando os modelos perderam a credibilidade, os investidores desprezaram todas as formas de finanças complexas.

Em setembro do ano passado, o último pilar da fé veio abaixo. A maioria dos investidores assumira que o governo dos Estados Unidos jamais deixaria um grande grupo financeiro fracassar. Mas quando o Lehman Brothers faliu, a desconfiança e a perplexidade aumentaram exponencialmente. A maior parte dos mercados de crédito desmoronou. Os preços enlouqueceram. Os bancos e analistas de ativos descobriram que todos os seus modelos de trading e hedging fragmentaram-se. "Nos mercados de capital, nada mais funcionava", diz o principal analista de riscos de um grande banco ocidental. Conforme observou algumas semanas mais tarde Mervyn King, diretor do Banco da Inglaterra, "o sistema estava no precipício".

Atualmente, enquanto buscam novos pilares de confiança para as finanças, os governos estão intervindo para substituir muitas funções do mercado. O Tesouro dos Estados Unidos está realizando "testes de estresse" nos bancos, a fim de aumentar a confiança dos investidores. No Reino Unido o Estado está fornecendo aos bancos garantias contra os ativos "tóxicos". Os bancos e as agências de crédito estão - tardiamente - reformulando os seus modelos. As financeiras e os reguladores também prometeram tornar a indústria mais transparente e padronizada.

"Nem todas as inovações são igualmente úteis", observa Adair Turner, diretor da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, que observa: "Pouca gente ficará descontente se as instruções para a criação da CDO-squared (um produto de dívida ultra-complexo) forem perdidas".

Mas a verdade brutal é que até que os mercados financeiros façam jus ao seu nome - tornando-se mercados nos quais os ativos sejam comercializados e avaliados de uma maneira crível - será difícil recuperar a confiança do investidor. Não é a toa que a raiz da palavra "crédito" vem do latim credere, que significa "acreditar".

Os últimos 12 meses demonstraram que, sem fé, as finanças não valem nada. A reconstrução da sensação de confiança poderá demorar bem mais.

Tradução: UOL

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