Sementes da própria destruição

Martin Wolf
Texto da série "O Futuro do Capitalismo" do FT

Suposições que prevalecem desde a adoção do mercado nos anos 80 agora estão em pedaços. O papel do governo está novamente crescendo e a era das finanças irrestritas acabou. Mas a atual crise poderá ter consequências que vão muito além, como escreve Martin Wolf neste artigo inicial.

Outro deus ideológico sucumbiu. As suposições que regeram a política e as políticas ao longo de três décadas repentinamente parecem tão datadas quanto o socialismo revolucionário.

"As nove palavras mais assustadoras da língua inglesa são: 'Eu sou do governo e estou aqui para ajudar'." Assim gracejou Ronald Reagan, herói do conservadorismo americano. O comentário parece história antiga, agora que os governos estão despejando trilhões de dólares, euros e libras nos sistemas financeiros.

"Governos são ruins; mercados desregulamentados são bons": como esta fé pode estar ilesa após Alan Greenspan, pupilo de Ayn Rand e principal banqueiro central da era, ter descrito a si mesmo, em um depoimento no Congresso em outubro do ano passado, como estando em "um estado de choque descrente" com o fracasso do "interesse próprio das instituições emprestadoras em proteger a parte dos acionistas"?

No Ocidente, a ideologia pró-mercado das últimas três décadas foi uma reação à percepção de fracasso da economia mista, o modelo keynesiano do anos 50, 60 e 70. A adoção do mercado esteve associado à eleição de Reagan como presidente americano em 1980 e a ascensão de Margaret Thatcher ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido no ano anterior. Um pouco menos importante foi o papel de Paul Volcker, o então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), no combate à inflação.

Mas eventos maiores moldaram essa época: a adoção do mercado pela China sob Deng Xiaoping, o colapso do comunismo soviético entre 1989 e 1991 e o fim das políticas econômicas voltadas para si mesma da Índia após 1991. A morte do planejamento central, o fim da guerra fria e, acima de tudo, a entrada de bilhões de novos participantes na economia mundial que se globalizava rapidamente foram os pontos altos dessa era.

Hoje, com a imensa crise financeira global e uma desaceleração sincronizada na atividade econômica, o mundo está mudando de novo. O sistema financeiro é o cérebro da economia de mercado. Se ele precisa de um resgate tão caro, o que resta do desprezo de Reagan pelos governos? Se o sistema financeiro fracassou, o que resta da confiança nos mercados?

É impossível a esta altura saber para onde estamos indo? Nos caóticos anos 70, poucos imaginavam que a época seguinte veria a inflação ser domada, o avanço do capitalismo e a morte do comunismo. O que acontecerá agora dependerá das escolhas não feitas e de choques desconhecidos. Mas a combinação de colapso financeiro com imensa recessão, se não algo pior, certamente mudará o mundo. A legitimidade do mercado enfraquecerá. A credibilidade dos Estados Unidos será manchada. A autoridade da China aumentará. A própria globalização poderá sucumbir. Este é um momento de levante.

Como o mundo chegou aqui? Uma grande parte da resposta é de que a era da liberalização continha as sementes de sua própria queda: esse também foi um período de enorme crescimento na escala e lucratividade do setor financeiro, de inovação financeira frenética, de crescentes desequilíbrios macroeconômicos globais, de grande endividamento dos lares e de bolhas de preços de ativos.

Nos Estados Unidos, o coração da economia de mercado global e centro da atual tempestade, a dívida agregada do setor financeiro saltou de 22% do produto interno bruto, em 1981, para 117% no terceiro trimestre de 2008. No Reino Unidos, com sua alta dependência da atividade financeira, a dívida bruta do setor financeiro chegou a quase 250% do PIB.

Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e Kenneth Rogoff, de Harvard, argumentam que a era da liberalização também foi um momento de crises financeiras excepcionalmente frequentes, superada, desde 1900, apenas pelos anos 30. Também foi uma era de enormes bolhas de preços de ativos. Ao intervir para manter suas taxas cambiais baixas e acumular reservas de moeda estrangeira, os governos das economias emergentes geraram imensos superávits em conta corrente, que reciclaram, juntamente com os afluxos de capital privado, em fluxos de saída de capital oficial: entre o final dos anos 90 e o pico em julho de 2008, apenas suas reservas de moeda cresceram em US$ 5,3 trilhão.

Estes fluxos imensos de capital, somados aos superávits tradicionais de vários países ricos e os crescentes superávits dos exportadores de petróleo, foram parar em grande parte em um pequeno número de países ricos e particularmente nos Estados Unidos. No pico, os Estados Unidos absorveram cerca de 70% do superávit poupado do restante do mundo.

Enquanto isso, dentro dos Estados Unidos, a razão de endividamento dos lares em relação ao PIB saltou de 66%, em 1997, para 100% uma década depois. Saltos ainda maiores no endividamento dos lares ocorreram no Reino Unido. Estes aumentos nas dívidas dos lares foram apoiados, por sua vez, por sistemas financeiros altamente elásticos e inovadores e, nos Estados Unidos, por programas do governo.

Por toda parte, o setor financeiro inovou incessantemente. Warren Buffett, o lendário investidor, descreveu os derivativos como "armas financeiras de destruição massa". Foi provado que ele estava parcialmente certo. Nos anos 2000, surgiu o "sistema bancário paralelo" e sistema bancário tradicional foi em grande parte substituído pelo modelo "originate-and-distribute" (criação e distribuição) de securitização por meio de artifícios como obrigações de dívida colateralizadas (CDOs). Este modelo ruiu em 2007.

Nós estamos testemunhando a crise financeira mais profunda, ampla e perigosa desde os anos 30. Como os professores Reinhart e Rogoff argumentam em outro trabalho, "as crises bancárias estão associadas a profundos declínios na produção e emprego". Isto se deve em parte aos balancetes estendidos além do limite: nos Estados Unidos, a dívida geral atingiu o pico recorde de pouco menos de 350% do PIB - 85% dela privada. Isto em comparação a pouco mais de 160% em 1980.

Entre os resultados possíveis deste choque estão: déficits fiscais imensos e prolongados nos países com grandes déficits externos, à medida que tentam manter a demanda; uma recessão mundial prolongada; um ajuste brutal da balança global de pagamentos; um colapso do dólar; alta da inflação; recorrer ao protecionismo. A transformação certamente será mais profunda no próprio setor financeiro. A teoria de que as finanças modernas sofisticadas foram capazes de transferir o risco para aqueles mais capazes de administrá-lo fracassou. O paradigma, em vez disso, é de que o risco foi transferido para aqueles menos capazes de entendê-lo. Como Volcker comentou durante um discurso em abril passado: "De forma simples, o brilhante novo sistema financeiro - apesar de todos seus participantes talentosos, apesar de todas as suas ricas recompensas - fracassou no teste de mercado".

Em um recente trabalho, Andrew Haldane, o diretor executivo de estabilidade financeira do Banco da Inglaterra, mostra quão pouco os bancos entendiam os riscos que supostamente deveriam administrar. Ele atribui estes fracassos a uma "miopia de desastre" (a tendência de subestimar os riscos), uma falta de consciência da "rede de externalidades" (contaminações de uma instituição para outras) e "incentivos desalinhados" (o lado positivo para os empregados e o lado negativo para os acionistas e contribuintes).

Após a crise, nós certamente "veremos um setor financeiro menos orgulhoso", como Winston Churchill desejava em 1925. Os mercados imporão uma disciplina brutal, mesmo que temporária. A regulamentação também endurecerá.

Menos claro é se os autores de políticas contemplarão soluções estruturais: uma separação do sistema bancário comerciais do sistema bancário de investimento; ou uma redução forçada do tamanho e complexidade das instituições consideradas grandes demais ou interconectadas demais para falirem. Também é possível imaginar um retorno de grande parte da atividade bancária ao mercado doméstico, à medida que os governos cada vez mais dêem as cartas. Neste caso, seria uma "desglobalização".

Churchill também pediu para a indústria ficar "mais satisfeita". A curto prazo, entretanto, o colapso financeiro está provocando o oposto: uma desaceleração industrial mundial. Ela também está se espalhando por todo setor significativo da economia real, grande parte da qual está clamando por assistência.

Mas se o sistema financeiro provou ser disfuncional, quanto podemos confiar na maximização do valor do acionista como forma de guiar os negócios? Grande parte das participações acionárias é, afinal, controlada por instituições financeiras. Os eventos dos últimos 18 meses devem confirmar a insensatez dessa idéia. É melhor, muitos concluirão, deixar os administradores determinarem a direção de suas empresas do que deixar os agentes financeiros ou mercados os atropelarem.

Um resultado provável será uma maior disposição dos governos em proteger as empresas dos acionistas ativos - fundos hedge, private equity e outros investidores. Enquanto um setor financeiro defeituoso perde sua credibilidade, a legitimidade do próprio processo de mercado é danificada. Isto é particularmente verdadeiro em relação à abordagem "anglo-saxã" sem restrições.

Não menos provável são grandes mudanças na política monetária. O consenso macroeconômico é a favor de separação da responsabilidade pelas políticas monetária e fiscal, a colocação da política fiscal no piloto automático, a independência dos bancos centrais e a orientação das decisões monetárias voltadas ao controle da inflação. Mas com as taxas de juros próximas de zero, a distinção entre política monetária e fiscal desaparece. Mais fundamental é o desafio à decisão de ignorar os preços dos ativos no estabelecimento da política monetária.

Muitos argumentam que Greenspan, que sucedeu Volcker, criou as condições para ambas as bolhas e seus subsequentes estouros. Ele costumava argumentar que seria mais fácil a limpeza após o estouro de uma bolha do que identificar uma bolha em tempo real e então estourá-la. Em uma reavaliação da doutrina em novembro passado, Donald Kohn, o vice-presidente do Fed, reafirmou a posição ortodoxa, mas com um grau de desconforto.

Kohn agora declara que "diante da importância demonstrada dos booms e colapsos (que podem se desenrolar ao longo de anos) para a economia real, os bancos centrais provavelmente deveriam analisar um horizonte mais longo ao avaliar a política de taxas". Os bancos centrais terão que ir mais longe, seja por meio da política monetária ou de instrumentos reguladores.

Mas a imensa crise financeira, juntamente com o aprofundamento da recessão global, caso não algo muito pior, terá efeitos muito mais amplos do que apenas estes.

Lembra o que aconteceu na Grande Depressão dos anos 30. O desemprego aumentou para um quarto da força de trabalho em países importantes, incluindo os Estados Unidos. Isso transformou o capitalismo e o papel do governo por meio século, até mesmo nas democracias liberais. Levou ao colapso do comércio liberal, fortificou a credibilidade do socialismo e do comunismo e conduziu muitos autores de políticas para a substituição de importações com estratégia de desenvolvimento.

A Depressão também levou à xenofobia e ao autoritarismo. Pessoas assustadas se tornam tribais: linhas divisórias abertas dentro e entre sociedades. Em 1930, os nazistas conquistaram 18% do voto alemão; em 1932, no auge da Depressão, a participação deles saltou para 37%.

Uma transformação que já pode ser vista é nas posturas de pagamento. Mesmo os Estados Unidos e no Reino Unido estão exercendo controle direto sobre os níveis e estruturas das instituições auxiliadas. Levou um ano para passar de inconcebível a habitual. Igualmente óbvia é a mudança mais ampla das posturas em relação à desigualdade: vastas recompensas eram aceitáveis em troca de competência excepcional; como compensação por incompetência cara, elas são intoleráveis. As taxas de impostos sobre os mais riscos estão a caminho de voltar a subir.

Mas outro impacto será sobre o senso de insegurança. A credibilidade da transferência dos fundos previdenciários dos sistemas públicos de recolhimento na fonte para sistemas baseados no mercado será bem menor do que antes, apesar de, ironicamente, a oportunidade para investimento lucrativo a longo prazo ter aumentado. As políticas, como os mercados, se arriscaram demais.

A busca por segurança fortalecerá o controle político sobre os mercados. Uma mudança das políticas significa uma mudança para o nacional e longe do global. Isto já está evidente nas finanças. Também é visto na determinação de resgatar os produtores nacionais. Mas a intervenção protecionista provavelmente se estenderá muito além dos casos vistos até agora: isto é só o começo.

O impacto da crise será particularmente duro sobre os países emergentes: o número de pessoas em pobreza extrema aumentará, o tamanho da nova classe média encolherá e os governos de alguns países emergentes endividados certamente darão calote. A confiança nas elites locais e globais, no mercado e até mesmo na possibilidade de progresso material enfraquecerá, com consequências sociais e políticas potencialmente devastadoras. Ajudar as economias emergentes durante uma crise pela qual a maioria não tem nenhuma responsabilidade é uma necessidade.

A capacidade do Ocidente em geral e dos Estados Unidos em particular de influenciar o curso dos eventos também será lesada. O colapso do sistema financeiro ocidental, enquanto a China floresce, marca um fim humilhante para o "momento unipolar". Enquanto os autores de políticas ocidentais enfrentam dificuldades, a credibilidade deles está arruinada. Quem ainda confia nos professores?

Estas mudanças colocarão em risco a capacidade do mundo não apenas de administrar a economia global, mas também de lidar com os desafios estratégicos: Estados frágeis, terrorismo, mudança climática e a ascensão de novas grandes potências. No extremo, a integração da economia global da qual quase todos agora dependem pode ser revertida. A globalização é uma escolha. A economia integrada das décadas antes da Primeira Guerra Mundial sofreu um colapso. Poderá ocorrer de novo.

Em 19 de junho de 2007, eu concluí um artigo sobre o "novo capitalismo" com a observação de que ele permanecia "não testado". O teste ocorreu: ele fracassou. A era da liberalização financeira acabou. Mas, diferente dos anos 30, não existe nenhuma alternativa crível à economia de mercado e os hábitos de cooperação internacional são profundos.

"Eu tenho a sensação de que não estamos mais no Kansas", disse Dorothy após um tornado jogá-la, sua casa e seu cachorro na terra de Oz. O mundo das últimas três décadas desapareceu. Onde iremos parar, após este tornado financeiro, cabe a nós determinar.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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