Brasil retrai 3,6% e encerra questão de imunidade à crise

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

A economia do Brasil teve seu pior desempenho em mais de uma década no último trimestre de 2008, aumentando a pressão sobre o banco central para cortar taxas de juros agressivamente, prevenindo uma baixa econômica ainda mais acentuada.

O PIB retraiu em 3,6% no trimestre anterior, de acordo com o instituto de estatísticas do governo, muito mais do que o esperado e o pior número desde que a atual série começou em 1996. O consenso do mercado havia sido de uma queda em torno de 2,3%.

Isso coloca um fim a três anos de crescimento estável no Brasil, e coloca mais pressão sobre a ideia de que o Brasil está relativamente imune à crise econômica mundial.

O Brasil é relativamente fechado ao mundo externo - as exportações equivalem a somente 14% do PIB e, antes da crise, o crédito total na economia equivalia a cerca de 30% do PIB, muito menos do que muitos de seus vizinhos. Isso levou muitos a acreditar que o país poderia passar pela crise mundial em relativo conforto.

Mas uma virada nos números foi divulgada recentemente, mostrando que o Brasil foi atingido mais duramente do que o esperado. Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, disse ontem aos repórteres que o crescimento não atingiria os 4% intencionados pelo governo este ano - foi a primeira admissão do tipo de um ministro do governo, apesar de quedas frequentes nas previsões feitas por analistas de mercado.

"Esse números são muito ruins, de fato", disse Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco, em São Paulo. "Estamos revisando nossa previsão de crescimento este ano para baixo, agora".

O Unibanco havia previsto um crescimento de 0,3% este ano antes que os números de ontem fossem divulgados, abaixo do último consenso de mercado de 1,2%.
O crescimento para 2008 era de 5,1%, pouco menos do que o consenso do mercado em torno de 5,3%.

O banco central teve uma reunião ontem e hoje para decidir sua próxima jogada nas taxas de juros. O banco elevou as taxas e as manteve altas durante a maior parte do ano passado para segurar a inflação. Mas ele cortou sua taxa de juros planejada de 13,75% para 12,75% ao ano em janeiro, à medida que sua atenção ia para a ameaça de recessão.

Salomon disse que esperava que o banco anunciasse um corte entre 1,5 e 2 pontos percentuais esta tarde. Ele disse que só o efeito cumulativo dos números do quarto trimestre já seriam suficientes para reduzir a previsão do Unibanco para -0,3%, mas que também levaria em conta dados surpreendentemente ruins para o início deste ano.

Os números lançados na sexta-feira mostraram uma queda de 17,2% ao ano da produção industrial, muito pior do que os economistas haviam previsto.

"Se você olhar para o lado da demanda, poderá ver que houve uma interrupção repentina nos gastos do consumidor no final do ano passado", disse Salomon. A demanda de consumo, que havia aumentado 2,1% entre o segundo e o terceiro trimestres, caiu 2% no quarto trimestre.

Mas Salomon disse que a grande surpresa estava na queda abrupta de investimentos durante o quarto trimestre. A formação de capital fixo havia subido em 8,4% entre o segundo e o terceiro trimestres, para cair 9,8% no quarto trimestre.

Tradução: Lana Lim

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