Projeto da Sicília tem como meta salvar o mundo, se a máfia permitir

Guy Dinmore

A Sicília, com sua máfia e um profundo sentido de fatalismo do povo, talvez pareça uma estranha escolha para um grande projeto para salvar o mundo da ruína financeira e da mudança climática.

Ainda assim, um guru americano, executivos e um governador local poderoso reuniram-se na ilha para lançar a "terceira revolução industrial".

Eles dizem que os cinco milhões de habitantes da Sicília podem traçar um caminho visionário baseado no uso de pequena escala e intensivo de energia de fontes renováveis, baseado no conceito de que consumidores individuais de eletricidade também podem se tornar produtores por meio de prédios super-eficientes e assim guiar o mundo para a saída do "crepúsculo" da era de combustíveis fósseis e de tecnologia nuclear da Guerra Fria.

"A Sicília pode ser um modelo para a nova revolução industrial", diz seu pioneiro, Jeremy Rifkin, professor americano e consultor de energia da Comissão Europeia e de chefes de governo, inclusive Angela Merkel, a chanceler alemã.

San Antonio, no Texas, e algumas cidades da Europa aparentemente estão prestes a adotar a visão de Rifkin, apesar de interesses estabelecidos, inclusive as grandes empresas de energia e defensores da iniciativa de recursos renováveis de Barack Obama, considerarem Rifkin um futurologista enganado.

O plano de energia da Sicília foi revelado no final de semana em Palermo, apresentado pela combinação incomum de acadêmico carismático e de Raffaele Lombardo, o poderoso, sagaz e nacionalista governador da ilha.

Rifkin, 64, manteve seu público hipnotizado por uma hora, explicando como a humanidade escorregará para a aniquilação climática se não mudar radicalmente de curso e adotar um futuro baseado no sol, vento, ondas e biomassa, além de tecnologia de hidrogênio para armazenar a eletricidade excedente.

"Se você pode criar uma Sicília sustentável, talvez possa criar um mundo sustentável", concluiu, enquanto a plateia aplaudia de pé.

Porque a Sicília?

Angelo Consoli, diretor da Fundação de Tendências Econômicas de Rifkin em Bruxelas, deu duas principais razões. Tem sol -"todos os produtores de energia solar veem a Sicília como um mercado inexplorado incrível, onde podem crescer rapidamente". Tem também Lombardo -um "governador visionário... que vê a terceira revolução industrial como uma forma de desenvolver sua região política e industrialmente".

Entretanto, pergunte a qualquer siciliano e a resposta será: "Nunca, nunca... palavras, palavras". Dando de ombros, acrescentam: "A máfia".

De fato, tentando se diversificar, a máfia está se tornando verde. Recentemente, a polícia prendeu oito empresários e autoridades locais suspeitos de conspirar para garantir o financiamento para uma fazenda eólica.

Lombardo admitiu que a máfia "verde" era um perigo que estava confrontando. A Sicília, disse ele, "precisa de uma revolução cultural".

O governador conhece o judiciário de perto. Em 1992, ele foi condenado por corrupção envolvendo contratos públicos, mas absolvido em recurso. Ele foi preso novamente em 1994, mas o caso similar foi em seguida abandonado.

Um porta-voz do governador disse que o início dos anos 90 foi a era das "mãos limpas", quando os magistrados estavam prendendo muitos suspeitos, inclusive inocentes. "O histórico criminal de Lombardo é imaculado", disse ele.

A estratégia de energia renovável de Lombardo prevê € 5 bilhões de financiamento em cinco anos, na maior parte da União Europeia. Ele prometeu que impedirá qualquer tentativa de seus aliados do governo de centro-direita de Silvio Berlusconi de instalar uma usina nuclear na ilha.

Com a crise financeira, Rifkin se preocupa que os governos gastem muito tentando resgatar indústrias "antigas", como a dos carros movidos a gasolina e indústrias nucleares, e que sobre pouco para o novo.

Ele elogia o presidente americano Barack Obama por ver o futuro na energia renovável, mas diz que Washington ainda está muito presa à ideia de usinas de energia eólica ou solar centralizadas e grandes em vez de adotar sua visão de "energia distribuída", ou de prédios eficientes que podem vender o excedente de volta para o sistema através de "redes inteligentes".

"Obama tem o programa, mas não o mapa. A União Europeia tem um mapa, mas não tem o dinheiro."

Trabalhando cidade por cidade -ele se recusa a dizer quais cidades na Europa por razões comerciais- Rifkin está reunindo o apoio de grandes empresas -inclusive IBM, Siemens, Philips Lighting, a imobiliária Cushman & Wakefield e outras- em seu grupo de planejamento.

Anton Milner, diretor da Q-Cells, da Alemanha, maior produtora de placas solares do mundo, diz que o sonho está começando a se tornar realidade. Os custos dos sistemas fotovoltaicos caíram 35% em quatro anos. "Redes inteligentes" experimentais estão sendo testadas nos EUA e na Europa.

Silke Krawietz, arquiteta alemã especialista em prédios de energia eficiente observa que já existem construções de energia zero. "Produzir excedente é muito mais difícil, mas acontecerá", acredita.

A Agência Internacional de Energia diz que os prédios no mundo inteiro são responsáveis por mais de 40% do uso de energia e 24% das emissões de gases de efeito estufa.

Tradução: Deborah Weinberg

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