Wolf: nós podemos arcar com o custo do salvamento da economia mundial?

Martin Wolf Colunista do Financial Times

Nós podemos arcar com o custo desta crise? Os governos destruirão sua solvência, à medida que sacrificam seus balancetes para resgatar os setores privados excessivamente endividados?

O debate, como tem ocorrido com frequência, é entre os Estados Unidos e a Alemanha. Assim, em um discurso na semana passada, Tim Geithner, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, notou que "o FMI pediu para os países implantarem um estímulo fiscal de 2% do PIB agregado por ano em 2009 e 2010. Este é um marco referencial razoável para guiar nossos esforços individuais. Nós achamos que o G20 deve pedir ao FMI que informe os esforços de estímulo dos países em comparação à queda relativa das taxas de crescimento". Não é preciso dizer, nenhum compromisso foi firmado, com a Alemanha se mostrando particularmente resistente.

Todavia, um grande estímulo fiscal foi implantado. É o que esperariam os leitores da recente pesquisa sobre o pós-crise financeira, de autoria de Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e Kenneth Rogoff, de Harvard. Estes autores concluíram, a partir do estudo de 13 grandes crises financeiras, que o aumento médio da dívida pública real nos três anos que se seguiram a uma crise bancária foi de 86%. Em alguns desses casos, o aumento foi de mais de 150%*.

Logo, há um bom motivo para esperar aumentos imensos do endividamento do setor público por todo o mundo, mesmo entre tomadores de empréstimo soberanos com classificação triplo A? A resposta é: sim. Se for assim, isto garante algum tipo de calote? A resposta é: não. Em um recente estudo, a equipe do Fundo Monetário Internacional sugere por que estas são as respostas corretas**.

Em 2012, como sugere o FMI, a relação entre dívida pública bruta e produto interno bruto poderá ser de 117% na Itália; 97% nos Estados Unidos; 80% na França; 79% na Alemanha; e 75% no Reino Unido. No Japão, que ainda exibe as cicatrizes do legado da uma bolha imensa, a relação poderia chegar a 224%. As atuais previsões são evidentemente muito maiores do que as feitas antes da crise.

Mas os saltos em endividamento não são particularmente onerosos, desde que a disposição dos governos para evitar o calote não seja questionada. Presuma, por exemplo, que a taxa de juro real destes países bem classificados seja de 1 ponto percentual acima da taxa de crescimento de longo prazo de suas economias. Então a exigência para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB em 100% é um superávit orçamentário primário (superávit menos o juro) de apenas 1% do PIB.

Todavia, três contra-argumentos podem ser apresentados.

Primeiro, em alguns casos, os déficits fiscais primários são muito grandes. Entre os maiores países avançados, isto é particularmente verdadeiro neste ano -nos Estados Unidos, a previsão é de -9,9% do PIB; no Japão e Reino Unido, a previsão para ambos é de -5,6%; na Espanha, a previsão é de -4,9%. Os déficits primários na França, Alemanha e Itália são bem menores, de -3,6%; menos 1,1% e mais 1,1%, respectivamente. Logo, estabilizar a dívida exige um grande ajuste fiscal em alguns países.

Segundo, a disposição política de coibir os déficits, elevando impostos e cortando gastos, pode ser questionada. Isto poderia se tornar uma profecia que cumpre a si mesma, com fuga das taxas de juros que aumentam a dívida, necessitando um arrocho fiscal cada vez mais oneroso (e portanto menos plausível).

Terceiro, o aumento final do endividamento poderia ser ainda maior do que o previsto pelo FMI. Isto seria consistente com a experiência. A explicação inicial seria a de que a economia mundial entrou em uma deflação prolongada no balancete, comparável à do Japão nos anos 90.

Eu responderia contra estes argumentos.

Primeiro, os mercados estão otimistas em relação às perspectivas fiscais: a inflação esperada permanece contida nos Estados Unidos e no Reino Unido e as taxas de juros dos títulos convencionais de 10 anos do governo americano e britânico permanecem abaixo de 3%.

Segundo, o custo de tratar do fardo adicional dos idosos é muito superior do que qualquer custo plausível da crise. Nas previsões do FMI, o atual valor dos custos fiscais dos idosos nos Estados Unidos é 15 vezes o custo da crise.

Terceiro, não faz sentido evitar uma ação que reduziria enormemente os custos econômicos reais da crise agora para eliminar uma crise fiscal hipotética e evitável posterior. Isto seria como cometer suicídio para parar de se preocupar com a morte.

Todavia, é sábio limitar os riscos fiscais de longo prazo. As ações mais importantes são coibir gastos de longo prazo relacionados à velhice. Mas também há uma agenda atual: reequilibrar a demanda mundial.

Os países com superávit terceirizam para seus parceiros comerciais o trabalho de gastarem até falirem, enquanto os repreendem por serem perdulários. Portanto, o motivo para os Estados Unidos, Reino Unido e Espanha terem déficits fiscais imensos é por estarem compensando o colapso dos gastos privados em casa e da exportação no exterior. Isto é insustentável a longo prazo.

O risco agora é de que os países com superávit esperem que a recuperação venha de uma expansão fiscal enorme e sustentável nos países deficitários. Alguns analistas argumentam que os Estados Unidos deveriam ter se recusado a adotar qualquer ação fiscal, deixando isto para os países com superávit. Infelizmente, isso significaria uma depressão global. Todavia, sem um reequilíbrio não haverá uma recuperação saudável. Neste sentido, os Estados Unidos estão certos e a Alemanha está errada.

*O Pós-Crise Financeira, janeiro de 2009, www.nber.org

**O Estado das Finanças Públicas, março de 2009, www.imf.org

Tradução: George El Khouri Andolfato

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