Após campanha raivosa, McCain se recusa a atacar a política externa do rival

Edward Luce e Demetri Sevastopulo Em Washington

Foi quase como se a eleição presidencial amargamente disputada no semestre passado nunca tivesse acontecido. A caminho de Bruxelas, onde fará um discurso no sábado em uma conferência de segurança, John McCain demonstrou apoio ao homem que o derrotou.

Ao ser perguntado se Barack Obama voltará no próximo mês de mãos vazias de Estrasburgo, onde pedirá mais apoio no Afeganistão a seus pares da Otan, McCain disse: "Há uma enorme quantidade de boa-vontade na Europa em relação ao novo presidente".

Em uma entrevista ao "Financial Times", McCain, que manteve sua cadeira no Senado quando se tornou o candidato presidencial de seu partido, recusou repetidas vezes criticar as posições de política externa de Obama, incluindo a decisão de explorar a possibilidade de negociações com o Irã. "Eu não sou contrário a um diálogo com os iranianos", ele disse. "Eu fui contrário na campanha a um diálogo individual com pessoas dedicadas ao extermínio de Israel [em referência ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad]."

McCain foi igualmente brando em relação à abordagem mais leve de Obama em relação à Rússia, apesar dos surtos de retórica quase de guerra fria durante a campanha ("Nós todos somos georgianos").

Neste mês, Hillary Clinton deu a Sergei Lavrov, seu par russo, uma caixa com um botão com a inscrição "reiniciar" em inglês, de um lado, e "sobrecarregar" em russo do outro, um erro que causou certo embaraço.

"Se eu lhe desse um botão de reiniciar, eu encontraria alguém no Departamento de Estado que entendesse russo", disse McCain. Mas ele acrescentou: "Eu reiteraria que queremos dialogar com a Rússia. (...) Nós não veremos um reinício da guerra fria. Os russos não contam com poderio militar e econômico para isso".

Em menos de duas semanas, Obama se encontrará com Dmitri Medvedev, o presidente russo, e Hu Jintao, o presidente chinês, para reuniões bilaterais separadas paralelas ao encontro do G20, em Londres. McCain disse que a China e a Rússia estão exercendo seu poder ao redor do mundo.

Mas ele sugeriu que apesar de haver pontos de atrito, nenhuma dessas potências quer um confronto com os Estados Unidos. "Em ambos os casos, é claramente do interesse deles cooperar em certas áreas e há outras manifestações da velha raiva e força... com as quais temos que lidar com sensibilidade."

Falando enquanto Obama finaliza uma nova política para o Afeganistão, o senador do Arizona, que apoia uma maior presença de tropas americanas, disse que ocorreu um debate dentro do governo Obama sobre a adoção de uma abordagem "minimalista" ou o lançamento de um esforço de contrainsurreição mais abrangente.

McCain pediu ao seu ex-rival que fale sem rodeios ao povo americano sobre a natureza difícil do conflito. "O presidente não deve esperar um dia sequer para dizer 'isso será difícil'. Daqui um ano, ao avançarmos no sul do Afeganistão, o número de baixas aumentará e o sentimento antiguerra crescerá."

O senador, contrariando todas as expectativas da campanha, se vê de modo geral de acordo com a política de Obama de retirada gradual das tropas de combate do Iraque.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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