É necessário rever expectativas de longo prazo no mercado de ações?

John Authers

Blogueiros têm poder atualmente. Foi o que descobri nesta semana, quando o "Marginal Revolution", um blog de economia muito bom, decidiu republicar minha coluna de fevereiro do ano passado.

O assunto era se havia sentido em tentar prever o mercado e se ações eram confiáveis a longo prazo - assuntos que sempre interessam aos investidores. Mas ele chamou mais atenção do que há um ano, porque terminou com um gancho de que o senhor Nouriel Roubini havia colocado todo seu dinheiro em ações.

Roubini, um economista da Universidade de Nova York, agora é conhecido como dr. Apocalipse. Ele está mais famoso do que há um ano porque suas previsões pessimistas para a economia mundial se concretizaram. No início deste mês, ele passou a comentar o mercado, prevendo que o S&P 500 poderia cair para 600 pontos. Ele posteriormente caiu até 666 antes de se recuperar.

Muitos blogueiros notaram que minha coluna era de um ano atrás, elaborando teorias de conspiração gloriosas para explicar suas ações aparentemente contraditórias. Alguns veículos de Internet até mesmo transformaram em notícia a ideia de que o dr. Apocalipse tinha mudado de ideia e começado a comprar ações.

Eu fui bombardeado por e-mails. Onde estava o dinheiro de Roubini agora?

Assim, eu me curvei à Internet e perguntei de novo a Roubini a respeito de seus investimentos. Ele de fato continua a alocar todo o dinheiro de sua aposentadoria para ações. Como atualmente ele tem mais de 50 anos, esta é uma postura incomumente agressiva.

Mas "100% em ações" não significa que todo seu patrimônio está em ações. Ele não compra ações fora de sua conta de aposentadoria. Toda sua renda de consultoria vai para contas bancárias, e ele tem participação acionária em seu próprio negócio. Logo, ele está longe de totalmente dependente do mercado de ações.

Mas um ponto chave permanece. Ele não vendeu todas as suas ações enquanto o mercado estava próximo do topo, em fevereiro de 2008, quando minha coluna foi originalmente publicada, apesar de acreditar acertadamente que as ações cairiam fortemente. Por que não?

Minha coluna original, eu reconheço, concordou com ele a respeito disso. A psicologia mostra que os seres humanos sofrem de "predisposição a agir". Nós sentimos que precisamos "fazer algo" em uma situação extrema. Em investimento, cada negociação custa dinheiro e aumenta a chance de você ter um retorno ruim. Logo, eu aconselhei contra uma grande fuga das ações, apesar do panorama a curto prazo parecer muito ruim.

Agora nós sabemos que fevereiro de 2008 foi uma das poucas vezes em que uma transferência drásticas das ações para títulos teria dado um retorno imenso - os títulos se valorizaram enormemente de lá para cá, enquanto as ações caíram pela metade.

Mas também precisamos lidar com a evidência (analisada por esta coluna neste mês) de que, mesmo após 2008, as ações se saíram melhor a longo prazo, mas podem ter um desempenho abaixo do esperado por décadas.

Finalmente, as evidências da teoria clássica dos mercados e da psicologia concordam em um ponto crítico. É quase impossível prever o momento das grandes mudanças do mercado. Isso torna ainda mais importante amordaçar nossa predisposição em agir.

À medida que a aposentadoria se aproxima, Roubini deixou claro que deixar todos seus fundos em ações não é uma boa ideia: "Mesmo se você tiver apenas 50% em ações na aposentadoria, você ainda poderia perder 25% de seu fundo de aposentadoria, o que é muita coisa". Logo, ele diz, nós temos que repensar completamente a alocação do portfólio.

Sua solução pessoal, apesar de muito debatida na blogosfera, é bastante sensível. Ele evita as tentativas de aplicar dinheiro em ações todo mês, acumulando dinheiro de lado.

Para aqueles que não ganham tanto dinheiro quanto ele, o problema é muito mais difícil e não é justo esperar que lidem com isso por conta própria. Cabe ao setor de gestão de fundos encontrar novos produtos sensíveis para eles. Eu suspeito que Roubini está certo que os fornecedores de previdência privada terão que garantir pelo menos parte dos benefícios, mesmo que um retorno ao velho modelo, onde as empresas assumiam todos os riscos e garantiam uma pensão final, não ocorrerá.

Por ora, a melhor forma daqueles sem dinheiro sobrando lidarem com a questão poderia ser separar dinheiro regularmente todo mês e realizar um reequilíbrio anual entre classes de ativos. Esta é uma forma de market-timing (tentativa de prever as altas e baixas do mercado), já que envolve a venda de ativos que tiveram bom desempenho e comprar aqueles que caíram. Mas é um market-timing controlado, que mantém refreada nossa predisposição de agir.

Neste esquema, nós devemos reequilibrar para uma proporção cada vez maior de títulos a cada ano, à medida que a aposentadoria se aproximar. Esta abordagem ainda assim deixaria muitas pessoas com um ano ruim no ano passado, mas ele não seria um ano catastrófico.

E este é o verdadeiro benefício do investimento a longo prazo. Nós não podemos esperar que as ações estarão em boa situação para nós no momento de nossa aposentadoria, mas um verdadeiro investimento de longo prazo significa que podemos suportar alguns anos ruins ao longo do caminho. O sentido é evitar o tipo de catástrofe que teria atingido qualquer um prestes a se aposentar no ano passado, caso tivesse 100% em ações.

Se essa abordagem parecer ruim daqui um ano, sem dúvida algum blogueiro vai republicá-la.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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