Tempos difíceis obrigam indústrias japonesas a reestruturarem-se

Robin Harding

As companhias eletrônicas japonesas, bastante atingidas pela crise econômica, estão demitindo milhares de empregados contratados temporários e funcionários de suas filiais no exterior neste momento em que a última onda de reestruturação empresarial prejudica as vítimas mais vulneráveis.

Mas, agora, nervosos funcionários permanentes no Japão estão temendo que esta recessão seja tão intensa que alguns deles também tenham que ser demitidos.

É provável que isso vá depender tanto da motivação dos patrões - alguns grupos como a Sony estão aproveitando a crise para promover mudanças - quanto do grau das dificuldades financeiras enfrentadas pela companhia.

A dimensão do sofrimento da indústria eletrônica do Japão, provocado pela queda da demanda e pelo aumento simultâneo do iene, ficou evidente ontem (24/03) com o segundo alerta de 2009 para a queda de lucros da Sanyo Electric. A Sanyo, que está sendo adquirida pela Panasonic, acredita agora que terá crescimento zero do seu nível operacional no período de 12 meses encerrado em março de 2009, mas que amargará um prejuízo líquido de 90 bilhões de ienes (US$ 919 milhões) devido aos altos custos da sua reestruturação.

A maior prioridade das companhias japonesas de produtos eletrônicos é conter os prejuízos operacionais - a Toshiba deverá perder 280 bilhões de ienes, contra 200 bilhões da Sony e 100 bilhões da Hitachi.

Os prejuízos líquidos, que incluem baixas cambiais de ativos, são ainda piores. A Hitachi prevê que perderá um total de 700 bilhões de ienes.

Companhias como a Panasonic, que já se reestruturou intensamente nos últimos anos, estão reduzindo a capacidade das linhas de produção para acompanhar a redução de demanda. Outras, no entanto, estão tentando ir além.

Masaharu Sato, analista do Instituto de Pesquisas Daiwa, diz que algumas companhias estão aproveitando os tempos difíceis para promover reestruturações que, em outra conjuntura, não seriam aceitas.

A Sony é o exemplo mais óbvio disso. O seu setor de televisores já vinha registrando prejuízos antes mesmo da crise atual, e Sir Howard Stringer, presidente e diretor-executivo da empresa, tem falado francamente sobre a necessidade de mudanças.

"Nós estamos como uma rede de fornecimentos fraca, não temos um sistema compartilhado de aquisição de material, e precisamos mudar isto. A organização das nossas fábricas precisa ser racionalizada", disse Sir Howard recentemente em uma entrevista ao "Financial Times".

Os analistas afirmam que se a promessa da Sony de promover mais de US$ 3 bilhões em reduções de custos fixos até o ano que vem for de fato implementada com a racionalização das operações da companhia, isso terá um efeito de longo prazo sobre a sua rentabilidade.

"A reestruturação não diz respeito apenas à redução do quadro de pessoal, mas também à modificação da estrutura da companhia", afirma Kazuharu Miura, um analista da Daiwa.

Entretanto, nem todas as companhias estão enfrentando de forma tão efetiva os seus problemas estruturais.

"A Hitachi tem um problema de produção, já que, quando vende o mesmo produto pelo mesmo preço que o de outras companhias, é incapaz de obter lucros", diz um analista.

O conglomerado, que faz desde televisores a trens, teve prejuízos líquidos mesmo quando a economia estava forte em 2006 e 2007, e o seu compromisso de reduzir os custos fixos em 200 bilhões de ienes até o ano que vem é pequeno se comparado às suas vendas totais que chegam a 10 trilhões de ienes.

"Creio que a Hitachi ainda necessita acelerar a redução de custos na área automotiva porque no passado, quando o mercado estava bom, eles não fizeram o suficiente", afirma Yoshiharu Izumi, analista do JPMorgan.

A Hitachi beneficia-se dos seus vários setores estáveis - como por exemplo a unidade de construção de geradores de usinas de energia elétrica - cujos lucros resistem bem à crise. Companhias que dependem de aparelhos eletrônicos domésticos, como a Sony e a Sharp, têm menos capacidade de enfrentar os problemas econômicos. A Toshiba também pode voltar-se para setores responsáveis pela fabricação de material de infraestrutura, como geradores para usinas nucleares. Mas o balanço anêmico da companhia significa que ela não conta com muita capacidade para absorver mais prejuízos.

Isto pode ter tido o efeito perverso de, até o momento, limitar a reestruturação da Toshiba, já que os custos excepcionais do fechamento de fábricas ou do oferecimento de aposentadoria precoce a funcionários atingiria ainda mais as equities dos acionistas, que provavelmente cairão para um patamar inferior a 10% do capital total da companhia até o final de março.

Embora a Toshiba tenha se comprometido a reduzir os seus custos fixos em 300 bilhões de ienes até o ano que vem, quase toda essa quantia refere-se à redução de gastos de capital e de custos com pesquisas, e não à demissão de funcionários permanentes.

"Após obterem mais equities, eles poderão precisar de mais reestruturação", diz Sato, do Instituto de Pesquisas Daiwa.

Porém, além das pressões imediatas há a questão de qual será a situação do mundo após emergir da recessão.

Se a indústria de produtos eletrônicos do Japão vir-se diante de um iene mais caro e de mercados estrangeiros menores, a restruturação atual será apenas o começo de um processo.

Tradução: UOL

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