Wolf: por que um resgate bem-sucedido aos bancos americanos ainda está distante?

Martin Wolf Colunista do Financial Times

Eu estou cada vez mais preocupado. Eu nunca esperei muito dos europeus ou japoneses. Mas eu esperava que os Estados Unidos, sob um novo presidente popular, seria mais decisivo do que tem se mostrado. Em vez disso, o Congresso está se deixando levar pelo frenesi populista e o governo está torcendo pelo melhor.

Se alguém duvida dos riscos, basta apenas ler a mais recente análise do Fundo Monetário Internacional.* Ela espera que a produção mundial encolha entre 0,5% e 1% neste ano e as economias dos países avançados sofram uma retração entre 3% e 3,5%. Esta é sem dúvida a pior crise econômica global desde os anos 30.

É preciso julgar os planos para estimular a demanda e resgatar os sistemas bancários contra este cenário sombrio. Inevitavelmente, o foco está nos Estados Unidos, o epicentro da crise e a maior economia do mundo. Mas aqui surgiu uma hostilidade explosiva contra o setor financeiro. O Congresso está discutindo uma taxação punitiva retroativa aos bônus não apenas da seguradora gigante em dificuldades, a AIG, mas para todos os recebedores de dinheiro do governo sob o Programa para Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), e Andrew Cuomo, o procurador-geral de Nova York, quer divulgar os nomes dos recebedores de bônus das empresas socorridas. Isto, é claro, é um convite ao linchamento.

Mas está claro por que isto está acontecendo: a crise quebrou o contrato social americano. Antes, as pessoas estavam livres para terem sucesso ou fracassarem, sem assistência. Agora, em nome do risco ao sistema, os resgates injetaram somas imensas em instituições falidas que derrubaram a economia. A resposta do Congresso é um desastre. Se aprovadas, estas idéias levariam a um êxodo de funcionários qualificados dos bancos americanos, minaria a disposição de expandir o crédito, destruiria a confiança nos acordos fechados com o governo e ameaçaria a regra da lei. Eu presumo que os legisladores esperam que o presidente os salve de sua tolice. O simples fato dessas ideias serem consideradas é um sinal claro da raiva que existe.

Isto também é o pano de fundo para o "programa de parceria de investimento público/privado", anunciado na segunda-feira pelo secretário do Tesouro americano, Tim Geithner. Nas palavras do Tesouro, "usando entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões de capital do Tarp e capital de investidores privados, o programa de investimento público/privado gerará US$ 500 bilhões em poder aquisitivo para compra de ativos sem liquidez -com o potencial de expansão para US$ 1 trilhão com o tempo". Segundo o plano, o governo fornece virtualmente todos os recursos e arca com quase todo o risco, mas usa o setor privado para estabelecer o preço dos ativos. Em troca, os investidores privados obtêm recompensas -talvez recompensas generosas- com base no seu desempenho, via participação acionária, ao lado do Tesouro.

Eu considero este um "plano abutre de resgate de fundos". Mas funcionará? Depende do que alguém entende por "funcionar". Este não é um verdadeiro mecanismo de mercado, porque o governo está subsidiando o risco. Os preços poderão não ser baixos o suficiente para atrair compradores ou altos o bastante para agradar os vendedores. Mas o plano pode melhorar o péssimo estado dos livros financeiros dos bancos. Isso não pode ser ruim, não é? Bem, sim, pode, se ficar no caminho de soluções mais fundamentais, porque quase ninguém -certamente não o Tesouro- acha que o plano colocará um fim à subcapitalização crônica do setor financeiro americano. De fato, ele pode deixar mais claro quantos ativos presentes nos livros contábeis dos bancos ainda precisarão ser eliminados.

Por que este esquema poderia atrapalhar a recapitalização necessária? Há dois motivos: primeiro, o Congresso pode decidir que este esquema torna a recapitalização menos importante; segundo e mais importante, este esquema provavelmente tornará uma recapitalização pelo governo ainda mais impopular.

Se este esquema funcionar, vários administradores de fundos obterão vastos retornos. Eu temo que isto convencerá os americanos comuns de que seu governo está promovendo um esquema para beneficiar Wall Street. Agora, imagine o que acontecerá se, após o término dos "testes de estresse" dos maiores bancos do país, o governo concluir -surpresa, surpresa!- que precisa fornecer mais capital. Como persuadir o Congresso a pagar?

O risco é que este esquema irá, na melhor das hipóteses, obter algo não particularmente importante -aumentar a liquidez de empréstimos antigos- ao custo de tornar mais difícil algo essencial- a recapitalização dos bancos.

Isso importa porque o governo descartou qualquer forma de reestruturar as finanças dos bancos sem custar qualquer dinheiro extra para o governo: trocas de dívida por ações, ou uma verdadeira falência. Os economistas que eu respeito -Willem Buiter, por exemplo- condena esta relutância impensada. Não há dúvida de que a decisão de preservar os credores de todas as instituições financeiras importantes para o sistema cria preocupações para o futuro: algo terá que ser feito a respeito do problema do "importante demais para falir" que isto cria. Contra isso, o Tesouro insiste que uma onda de falências agora minaria a confiança nas promessas do governo e geraria novas incertezas imensas. A propósito, esta visão não é loucura.

Eu temo, entretanto, que a alternativa -uma recapitalização adequada do setor público- também provará ser impossível. O fornecimento de dinheiro público para os bancos é inaceitável para um público cada vez mais enfurecido, enquanto a propriedade pelo governo dos bancos recapitalizados é inaceitável para os banqueiros ainda influentes. Este parece ser um impasse. A saída, pela qual o sucesso do plano de segunda-feira será julgado, é se a maior transparência oferecida pelos novos fundos permitir aos grandes bancos levantar mais capital junto aos mercados privados. Se isto for conseguido na escala necessária -e estamos falando de muitas centenas de bilhões de dólares, se não trilhões- o novo plano seria um imenso sucesso. Mas eu não acredito que o estabelecimento do preço dos ativos e empréstimos sem liquidez, mesmo se conseguido, será suficiente para assegurar esta meta. No contexto da recessão global, os investidores estarão dispostos a aplicar as vastas somas necessárias por instituições financeiras imensas e complexas, com um histórico provado de má administração?

A confiança, uma vez destruída, não pode ser restaurada rapidamente.

A conclusão, portanto, é deprimente. Ninguém pode ter confiança de que os Estados Unidos possuem uma solução certa para seu desastre bancário. Pelo contrário, com o público enfurecido, o Congresso a caminho da guerra, o presidente tímido e uma política que depende da habilidade do governo de injetar dinheiro público em instituições subcapitalizadas, os Estados Unidos estão em um impasse.

Cabe a Barack Obama encontrar uma saída. Quando ele se reunir com o grupo de 20 de seus pares em Londres na próxima semana, ele não poderá declarar que já a encontrou. Se isto não é assustador, eu não sei o que é.

*'Políticas Econômicas Globais e Perspectivas', 13-14 de março de 2009, www.fmi.org

Tradução: George El Khouri Andolfato

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