Na França, a ideia de "participação" do trabalhador continua fazendo parte da busca pela produtividade

Ben Hall

Embora Nicolas Sarkozy tenha descartado a herança de Charles de Gaulle na área de política externa, ele retomou parte do pensamento de meio século de idade do general nos setores econômico e social.

A crise global fez com que o programa de reformas econômicas estritamente liberal de Sarkozy saísse dos trilhos, e restaurou a legitimidade do Estado intervencionista. A última iniciativa do presidente é nada menos do que uma distribuição mais justa dos frutos do crescimento econômico entre capital e trabalho.

A princípio Sarkozy defendeu uma simples - e alguns diriam simplista - divisão em três partes dos lucros corporativos em dividendos, investimentos e recompensas aos funcionários. Mas depois ele voltou atrás, determinando que fosse feita uma análise apropriada da forma como o valor econômico agregado na França é distribuído.

Mas, enfrentando o descontentamento crescente com a maneira como administra a crise e uma indignação generalizada com os salários dos executivos, Sarkozy está determinado a "moralizar" o capitalismo e ameaçou os líderes empresariais com a criação de legislações que não lhes interessam, a menos que eles deem início a negociações sobre essa questão ainda mal definida.

A ideia de divisão dos lucros enfureceu líderes empresariais como Maurice Lévy, diretor do grupo de publicidadede Publicis, que disse ao "Financial Times" que tal ideia foi retirada diretamente da cartilha gaullista.

Para o general, a chave para a harmonia social e o progresso seria a ideia de "participação", segundo a qual os funcionários deveriam ter mais poder na administração das companhias, bem como uma parcela maior dos lucros. De Gaulle via nisso uma maneira de conter os excessos do capitalismo sem implantar os métodos rígidos do socialismo, em uma espécie de sistema precursor de uma "terceira via" entre a esquerda e a direita.

Embora o gaullismo seja frequentemente entendido como uma doutrina da direita, ele é hostil para com o liberalismo de livre mercado por acreditar que os deslocamentos sociais provocados pelo capitalismo enfraquecem a unidade nacional e que o laisser faire vai de encontro ao Estado intervencionista. O arauto atual desta linha de raciocínio é Henri Guaino, redator dos discursos e estrategista político de Sarkozy. Os gaullistas dizem que a genialidade do general - e a chave para o boom econômico de 30 anos ocorrido no pós-guerra - residiu em aliar a livre iniciativa a um Estado forte e intervencionista. Esta é uma receita que Sarkozy tenta arduamente imitar.

De Gaulle foi um grande defensor da política industrial gerenciada pelo Estado e ajudou a criar o programa nuclear civil da França, a sua indústria aeroespacial (incluindo o nascimento do Concorde) e as bases da eficiente infraestrutura de transportes do país. Sarkozy promoveu o domínio da energia nuclear pela França, criou gigantes da indústria nacional como a GDF Suez no setor de energia, e estabeleceu um fundo de riqueza soberana para proteger as companhias francesas das "predadoras" estrangeiras.

A ironia é que Sarkozy ganhou a eleição prometendo reduzir o tamanho do Estado burocrata, cortar impostos e melhorar a competitividade das empresas francesas. O seu plano de divisão de lucros indica que as empresas poderão deparar-se com custos trabalhistas ainda mais altos. Sarkozy nunca foi conhecido pela consistência intelectual. Mas o Palácio Elisée espera que os novos planos no sentido de dar aos trabalhadores uma parcela maior do fruto do seu trabalho possa ter como contrapartida a liberalização das práticas trabalhistas e o aumento da produtividade.

Em um país no qual as relações entre funcionários e patrões continuam sendo de confronto, Sarkozy - da mesma forma que o seu ilustre predecessor - acredita que o Estado precisa intervir para modernizar a economia.

Tradução: UOL

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