"Todos nós queremos fazer com que a economia mundial volte à normalidade", diz Merkel

Bertrand Benoit, Quentin Peel e Chris Bryant

Quando se ouve Angela Merkel expor as suas expectativas em relação à reunião de cúpula do G20, que ocorrerá na semana que vem em Londres, é difícil lembrar que há apenas três semanas os líderes europeus e dos Estados Unidos encontravam-se envolvidos em uma briga acirrada para decidir qual seria a melhor forma de enfrentar a crise financeira e econômica mundial.

"Estamos nos reunindo para tomar decisões conjuntas, e não para competirmos entre nós", diz ela. "Todos queremos a mesma coisa: fazer com que a economia volte ao normal o mais rapidamente possível e impedir que uma crise dessas ocorra novamente".

LUTA PELA REELEIÇÃO

Em 27 de setembro, ela concorrerá à reeleição quando, segundo previsões da maioria dos economistas, a crise estará na sua fase mais brutal. O Commerzbank calcula que a economia alemã encolherá 7% neste ano. Os especialistas estão advertindo para a chegada de uma onda de demissões, há muito adiada, que poderia começar a se fazer sentir no verão.

As pesquisas de opinião revelam que a população ainda não acordou para a sombria realidade econômica, mas a União Democrática Cristã, o partido de Angela Merkel, já conta com menos intenções de votos do que recebeu em 2005, que foi considerado um fracasso eleitoral. Os seus rivais social-democratas, com os quais ela foi obrigada a trabalhar em uma "grande coalizão", têm feito críticas ao seu estilo de liderança, enquanto o seu próprio partido confia cada vez menos no estilo consensual da chanceler.

A crise financeira significa que ela terá pouco espaço para se dedicar à campanha eleitoral. Embora Merkel, ao contrário do seu partido, continue popular, o seu retorno à chancelaria está muito longe de ser um fato assegurado.



"Creio que podemos obter bons resultados... e estou muito contente por ouvir o presidente dos Estados Unidos deixar claro que não deseja atingir apenas um desses objetivos, e sim ambos", acrescenta Merkel, que acabara de conversar com Barack Obama em uma conferência de vídeo antes da entrevista.

A tensão entre os dois lados do Oceano Atlântico que precede a reunião de cúpula sem dúvida diminuiu - a insistência dos Estados Unidos em que a Europa deve gastar mais para combater a crise tornou-se menos estridente, enquanto os europeus reconheceram o valor das medidas duras anunciadas por Washington nesta semana no sentido de fortalecer o aparato regulador do seu sistema financeiro.

No entanto, conforme Merkel deixou claro, ela acredita que a Europa não cedeu, e sim que venceu a briga. "Existe em andamento um processo global de pensamento e um reconhecimento de que certas coisas que não deveriam ter acontecido, aconteceram", diz ela.

Ele tem pouco tempo para ouvir conselhos de política econômica vindos do outro lado do oceano, como aquela ideia de que a Alemanha, como a China, precisa aumentar drasticamente a sua demanda interna para ajudar a reequilibrar uma economia mundial cambaleante.

Ela afirma que a Alemanha é uma economia extremamente endividada, voltada para a exportação e com uma população que envelhece e diminui de tamanho. O país não tem como, e não deve, transformar-se em uma fortaleza consumista. Em vez disso, ela tentará enfrentar a turbulência enquanto toma cuidado para não perder muita força industrial, de forma que possa ter um bom desempenho quando a crise acabar.

"A China não precisaria sequer elevar a dívida para estimular a demanda", diz ela, referindo-se às vastas reservas monetárias daquele país. "O potencial de crescimento chinês é muito maior do que o alemão"

Nitidamente confiante em que está intelectualmente certa, Merkel demonstra poucos sinais de tensão após sete meses de combate a uma grave crise financeira doméstica e àquilo que está se transformando na mais brutal recessão do país desde a década de 1930. Ela não faz rodeios ao discutir a origem do colapso financeiro global. Segundo Merkel, a culpa reside nas tentativas equivocadas dos Estados Unidos, tanto pelo governo quanto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), de reativar a economia após os ataques de 11 de setembro de 2001 com a injeção de dinheiro ainda mais barato no sistema financeiro.

"Devemos examinar as causas... Isso aconteceu também porque estamos gastando mais do que podemos. Após a crise asiática (de 1997) e depois do 11 de setembro, os governos encorajaram o risco a fim de estimular o crescimento. Não podemos repetir esse erro. Temos que ancorar o crescimento em um solo mais firme.

Ela é cética quanto às solicitações de maiores déficits públicos e políticas monetárias mais brandas - exatamente os fatores que no princípio jogaram a economia mundial no abismo - como um caminho para se sair da crise.

"A crise não ocorreu porque estávamos gastando muito pouco, mas sim porque estávamos gastando demais para criar um crescimento que não era sustentável. O problema não foi simplesmente o fato de os bancos assumirem riscos demais. Os governos permitiram que eles agissem dessa forma ao deixarem de estabelecer as regras necessárias (para o mercado financeiro) e, por exemplo, nos Estados Unidos, ao aumentarem exageradamente o fornecimento de dinheiro".

Por isso a insistência de Merkel em que os governos precisam também começar a pensar em suas "estratégias de saída" - um retorno à disciplina fiscal, uma eliminação de medidas protecionistas e o enxugamento da liquidez excessiva.

"O debate a respeito dos possíveis efeitos colaterais de medidas tomadas para enfrentar a crise é algo que eu levo muito a sério", afirma Merkel. "Ouvi com grande interesse o presidente dos Estados Unidos afirmar que o seu objetivo é reduzir o déficit pela metade até o final do seu mandato".

"Os mercados esperam um retorno às políticas fiscais sustentáveis após a crise", diz ela. Quando a reportagem pergunta a respeito do fracasso de um leilão de títulos nesta semana no Reino Unido, ela para, faz uma longa pausa, e acrescenta: "Isso demonstra que os Estados não podem tomar dinheiro emprestado para sempre".

As estimativas sobre o quanto a economia alemã deverá encolher neste ano pioraram drasticamente desde que o governo de Merkel adotou em janeiro um pacote de estímulo fiscal de € 50 bilhões. Também ficaram mais sombrias as expectativas a respeito da duração da crise. O governo está cogitando revisar a sua previsão anterior de uma contração de 2,25%. O número atualmente previsto é de 4,5%.

Mas, mesmo assim, Merkel diz que não chegou a hora de cogitar novas medidas de estímulo ao crescimento. Ela afirma que a criação de um mecanismo para ajudar os bancos do país a livrarem-se dos ativos tóxicos é uma prioridade muito maior, que precisa ser enfrentada antes da eleição de 27 de setembro.

E mais crucial para o futuro da economia do que estimular o consumo é a necessidade de garantir que as empresas alemãs não percam a sua liderança tecnológica e que elas, assim como o governo, continuem investindo em pesquisa e desenvolvimento.

Merkel afirma: "A China também fará isso. E os Estados Unidos também. Quando a crise terminar, as cartas serão reembaralhadas, e a seguir nós veremos quem emergirá mais forte e quem sairá mais fraco".

Tradução: UOL

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