Nossa meta é ter um sistema "robusto e estável", diz secretário do Tesouro dos EUA

Krishna Guha

Os EUA estão tão ansiosos quanto as nações europeias por uma ampla reforma regulatória que reforce o sistema financeiro global, afirmou o secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, entrevistado pelo "Financial Times".

Geithner disse, às vésperas da reunião do G20, que os "EUA têm enorme interesse em agir de modo rápido e amplo para aproveitar esta oportunidade de conseguir um consenso internacional para tornar o sistema mais robusto e estável".

Ele rejeitou a noção que os EUA só estão interessados em estímulos fiscais, enquanto os europeus querem uma reforma regulatória. Ele disse que todas as nações do G20 concordavam com a necessidade de forte resposta regulatória para a crise e com o formato amplo que esta resposta deve assumir.

"Em relação ao que vivemos em 1998, durante a crise asiática, há um grau de consenso muito maior", disse ele. "A distância entre a posição dos franceses, dos alemães, dos americanos e dos chineses é muito pequena."

Na semana passada, Geithner revelou planos para um reforma da regulação financeira dos EUA e um esquema para limpar os títulos tóxicos do sistema bancário - medidas com as quais as autoridades americanas esperam conseguir maior credibilidade nas discussões internacionais.

O secretário do Tesouro disse que a regulação deve permanecer uma questão soberana. "Não vamos dar a ninguém a responsabilidade de decidir qual equilíbrio entre estabilidade e eficiência é correto para os nossos mercados". Ao mesmo tempo, ele disse que as reformas nacionais "não vão funcionar se não formos capazes de trazer os outros conosco".

Geithner disse que a "filosofia é tornar tanto as instituições principais quanto os mercados mais robustos". Os EUA estão concentrados, acima de tudo, em reforçar as exigências sobre o capital e a infraestrutura do mercado.

"Eu começo com o capital", disse ele. "Temos um claro imperativo de reformar as regulações do capital. Acho que os colchões básicos no sistema - capital, liquidez e reservas - estavam muito frouxos e muito cíclicos em seus efeitos".

Geithner defende o que alguns chamam de "sobretaxa de risco sistêmico" -exigências mais duras para as empresas mais sistemicamente importantes. Ele disse que o "teste crucial de um sistema financeiro" é sua capacidade de agüentar a falência. "Isso exige que as instituições principais detenham mais capital contra risco. Também significa que a infraestrutura em todos esses mercados - nos mercados de derivativos, no empréstimo de securities, nas operações compromissadas de "repo" (venda de títulos com compromisso de recompra) - tem que ser capaz de absorver o fracasso e o contágio".

Entretanto, os EUA não apoiam medidas para criar uma nova infraestrutura para o mercado de derivativos da Europa apenas. "Esses mercados são globais e queremos que as soluções sejam globais, não nacionais nem regionais", disse Geithner.

Os EUA e a Europa querem atacar a arbitragem regulatória. Há atualmente um acordo em torno da necessidade de grandes fundos hedge registrarem e revelarem informações, para que os fiscais possam impedir a manipulação de mercado e impor exigências de capital a qualquer fundo que apresente riscos sistêmicos.

"Nós queremos que o sistema seja capaz de evoluir", disse ele. "Mas, se uma entidade quiser desempenhar funções de banco, deve ser regulada como um banco."

Geithner disse que o Fórum de Estabilidade Financeira daria a infraestrutura básica para a cooperação regulatória futura. Ele disse que, quando tiver passado a crise, o mundo deve manter uma capacidade melhorada de resposta à crise por meio de instituições multilaterais.

Para os Lehmans deste mundo - instituições financeiras globais - "precisamos melhorar a forma que os regimes de insolvência operam em diferentes jurisdições", disse ele. "Em princípio, você quer poder administrar a falência controlada de uma instituição global. Mas isso é muito difícil de implementar em uma crise. Essa vai ser uma peça crítica do quebra-cabeça, mas estamos apenas no início desse estudo".

Geithner disse que não haverá um regulador de risco sistêmico global. "A autoridade de cada país tem que ser responsável pela supervisão consolidada de suas instituições."

Ele disse que era bom os reguladores pensarem mais sobre o sistema em vez dos riscos específicos de uma instituição. Entretanto, ele disse: "Tenho dúvidas quanto à capacidade dos bancos centrais e dos reguladores de anteverem e anunciarem as crises logo cedo. Precisamos construir um sistema seguro contra a incerteza, contra a ignorância e contra o fracasso em identificar a futura fonte de crise."

Tradução: Deborah Weinberg

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