Japão está pronto para assumir a liderança em plano de estímulo agressivo, diz premiê

Mure Dickie e Michiyo Nakamoto

Taro Aso não parece o capitão sitiado de um navio que está afundando enquanto entra na elegante sala de reunião exibindo seu característico sorriso torto.

Taro Aso, premiê japonês

  • EFE
O pessimismo envolveu a economia japonesa nos últimos meses e há muitas dúvidas em relação às chances de sobrevivência política do primeiro-ministro. Entretanto, ele não se deixa abalar enquanto apresenta seus planos para estimular a segunda maior economia do mundo e insiste que está pronto para exercer um papel proeminente no encontro de cúpula do Grupo das 20 principais economias na quinta-feira.

Apesar dos problemas econômicos domésticos - as exportações caíram quase pela metade em fevereiro, a produção industrial caiu 9,4% mês a mês e os dados de terça-feira mostraram a mais rápida piora da oferta de empregos desde 1974 - a mensagem de Aso é clara: o Japão continua sendo uma força no mundo.

"No geral, eu acredito que em comparação aos Estados Unidos ou aos países europeus, o Japão realmente não sofreu um dano financeiro tão severo", ele disse em uma entrevista ao "Financial Times". "Logo, ao tentar lidar com as questões que o G20 precisa tratar, eu acho que o Japão precisa assumir a liderança nas discussões de medidas proativas."

Entre as prioridades de Aso para o G20 está o fortalecimento do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma questão na qual tem liderado desde o ano passado ao oferecer unilateralmente uma linha de crédito de US$ 100 bilhões - descrita por Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do FMI, como "o maior empréstimo na história da humanidade".

Aso credita a esta medida a recente decisão da União Europeia de oferecer mais de US$ 100 bilhões em novos empréstimos ao FMI, e deixa claro que está pronto a empregar o dinheiro do Japão para contribuir para a estabilidade financeira global.

Ele espera usar o encontro de cúpula para pressionar por uma triplicação do capital disponível ao Banco de Desenvolvimento Asiático para tratar do "esgotamento" de sua capacidade de emprestar, e promete 500 bilhões de ienes (US$ 5 bilhões) em nova ajuda para o desenvolvimento no exterior ao longo dos próximos três anos para os países asiáticos que sofrem com a recessão mundial.

Enquanto pede para que a receita da venda das reservas de ouro do FMI seja usada para fornecer assistência aos países mais pobres do mundo, ele diz que também buscará uma expansão dos "Novos Arranjos de Empréstimo" do fundo para permitir que os atuais financiadores possam sacar mais dinheiro.

"Devido ao rápido agravamento da situação econômica mundial... a consideração pelas economias emergentes e pelas economias em desenvolvimento como as da África parecem ter sido virtualmente esquecidas", disse Aso.

Tóquio está particularmente preocupada em lubrificar as engrenagens emperradas do comércio internacional - o motor da economia japonesa - prometendo oferecer pelo menos US$ 22 bilhões adicionais em ajuda ao financiamento do comércio para as economias em desenvolvimento por meio do Seguro para Exportação e Investimento Japonês e do Banco de Cooperação Internacional do Japão.

"Nós precisamos assegurar que haja financiamento suficiente ao comércio, porque o comércio está encolhendo no momento", disse Aso, que também planeja acentuar em Londres a necessidade de uma extensão e expansão dos frágeis compromissos dos líderes do G20 de combate ao protecionismo.

O críticos sem dúvida notarão que a força de Aso em Londres não é ajudada pelos problemas políticos domésticos alimentados pela crítica da mídia a uma série de gafes.

Entretanto, enquanto funcionários atentos permaneciam ao lado de Aso durante a entrevista para corrigir deslizes orais e guiá-lo em meio às anotações, o primeiro-ministro não precisou de ajuda para apresentar o argumento por trás dos planos para um estímulo fiscal agressivo.

"Primeiro, eu acredito que precisamos impedir o colapso do piso da economia; a segunda é preservar os empregos o máximo possível visando aliviar a dor das pessoas", disse Aso. Sua terceira prioridade é aumentar o crescimento potencial do Japão.

O pacote, que na terça-feira Aso instruiu formalmente seus ministros a começarem a preparar, é o terceiro desde que ele se tornou primeiro-ministro, em setembro. Enquanto outros líderes, incluindo Angela Merkel, a chanceler alemã, se afligem com os riscos do gasto excessivo, Aso insiste que a experiência do Japão desde o início dos anos 90 demonstra o valor de um estímulo fiscal substancial.

Com uma eleição geral que ocorrerá no final do ano, o destino de Aso como primeiro-ministro depende em grande parte de seus compatriotas se convencerem ou não de que suas medidas serão suficientes.

Uma reunião urgente no Palácio Imperial de Tóquio deixou Aso sem tempo para um comentário detalhado sobre suas perspectivas políticas, mas ao partir às pressas da entrevista ele conseguiu dar uma resposta bem-humorada à questão sobre se pode ter confiança em uma vitória eleitoral.

"Eu vou cruzar meus dedos", ele disse.

As metas do primeiro-ministro:

-Promessa de pelo menos US$ 22 bilhões em assistência extra ao financiamento do comércio para as economias em desenvolvimento.

-Promessa de 500 bilhões de ienes (US$ 5,1 bi) em nova ajuda de desenvolvimento no exterior para os países asiáticos ao longo dos próximos três anos.

-Pressão para um maior fortalecimento do Fundo Monetário Internacional.

-Planos para um novo e grande pacote de estímulo fiscal japonês.

-Pedido para um compromisso mais forte do G20 para proteção do livre comércio.

-Apoio a uma supervisão mais forte dos mercados financeiros.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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