EUA podem ceder à ambição nuclear do Irã

Daniel Dombey Em Washington (EUA)

As autoridades americanas estão considerando aceitar a busca pelo Irã de enriquecimento de urânio, que foi proibida pela ONU e continua no centro dos temores de que o Irã está buscando capacidade de armas nucleares.

Como parte de uma revisão de política encomendada pelo presidente Barack Obama, diplomatas estão discutindo se os Estados Unidos poderiam vir a aceitar a insistência do Irã em executar o processo, que pode produzir tanto combustível nuclear quanto material para armas.

"Há um impasse fundamental entre a exigência do Ocidente de não enriquecimento e a exigência iraniana de prosseguir com o enriquecimento", diz Mark Fitzpatrick, um ex-especialista do Departamento de Estado e que agora está no Instituto Internacional para Estudos Estratégicos. "Não há um meio-termo óbvio entre as duas posições."

Os Estados Unidos insistem que o Irã suspenda o enriquecimento, apesar de Fitzpatrick notar que as ofertas internacionais feitas a Teerã durante o segundo mandato de George W. Bush como presidente deixavam aberta a porta para a possível retomada do enriquecimento.

"Há um crescente reconhecimento (em Washington) de que a solução (de enriquecimento) zero, apesar de ainda a preferida, é simplesmente inviável", disse Trita Parsi, presidente do Conselho Nacional Iraniano-Americano. "Os Estados Unidos podem ainda ter zero como sua posição inicial, apesar de reconhecerem que não será onde as coisas estarão ao final de um acordo potencial."

Na sexta-feira, Obama resumiu a mensagem americana ao Irã como: "Não desenvolvam uma arma nuclear" - uma escolha de palavras que não descarta um acordo aceitando o enriquecimento iraniano. Bush foi muito mais específico ao exigir que o Irã suspendesse o enriquecimento.

Uma série de resoluções do Conselho de Segurança da ONU desde 2006 proíbe o Irã de enriquecer urânio, com a União Europeia, Rússia e China apoiando os pedidos americanos para que Teerã interrompesse o processo.

Mas o Irã acelerou seu programa nesse período e instalou mais de 5.500 centrífugas para enriquecer urânio, acumulando um estoque de mais de 1.000 quilos de urânio pouco enriquecido - o suficiente, caso fosse enriquecido a níveis mais altos, para produzir material físsil para uma bomba. "Por todo o espectro político no Irã, o enriquecimento como um direito se tornou uma posição não negociável", disse Parsi.

Ao ser perguntado no mês passado se o governo estava considerando permitir ao Irã manter uma capacidade limitada de enriquecimento, Robert Wood, um porta-voz do Departamento de Estado, disse: "Eu não sei... Vamos deixar a revisão ser concluída e então apresentaremos nossas políticas".

Alguns analistas dizem que a prioridade deve ser dada à obtenção de maior acesso aos inspetores da ONU, para aquisição de mais informação sobre a instalação de enriquecimento do Irã em Natanz e preencher as lacunas no conhecimento sobre as atividades nucleares do Irã por todo o país.

Isso poderia fornecer um alerta a respeito de qualquer ação visando enriquecer urânio para o grau de arma em Natanz e reduzir os temores de instalações clandestinas.

Privativamente, tanto autoridades americanas quanto israelenses dizem que mesmo o atual regime de inspeção mais limitado em Natanz forneceria alerta suficiente de qualquer "escapada" na direção de uma bomba nuclear. Fora de Natanz, entretanto, a informação sobre o programa do Irã está diminuindo.

A posição americana de que o Irã está buscando capacidade para desenvolver armas nucleares - mas não necessariamente as armas em si - contrasta da insistência de Bush, enquanto estava no poder, de que o país buscava armas nucleares.

Pessoas de dentro do regime iraniano disseram esperar que haverá reciprocidade diante de um concessão por parte dos Estados Unidos na questão do enriquecimento.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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