Uma ordem mais ampla entra em foco

A cúpula do G20 demonstrou o caráter mais multipolar do mundo - mas a transferência de poder econômico para o Oriente aumentará as tensões, como escreve Quentin Peel. Em seguida, no box, David Pilling aponta para uma maior determinação chinesa em assegurar, por meio de sua posição financeira, que seus desejos sejam atendidos


Poderá levar meses para saber se as ações tomadas pelo encontro de cúpula do Grupo dos 20, na semana passada, bastarão para resgatar a economia mundial de uma recessão prolongada, se não de uma depressão. O conteúdo de suas conclusões terá que convencer os mercados de capital, as instituições financeiras globais, investidores e consumidores de que podem começar a gastar, tomar empréstimos e emprestar de novo.

Mas o simbolismo do evento pode ser mais importante do que o conteúdo. Pois apesar dos países do G20 serem uma seleção estranha para esta finalidade, inicialmente unidos pela crise financeira asiática em 1997, eles representam um elemento totalmente novo na ordem mundial. Eles não são o Grupo dos Sete -o clube das potências ocidentais e o Japão- nem o G8 (o G7 mais a Rússia). O uso do G20 neste momento de crise global é uma indicação clara de que a velha ordem já está ultrapassada.

Outro indicador ocorreu quatro meses atrás, quando o Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, parte do aparato de segurança de Washington, publicou uma previsão impressionante. O sistema internacional como elaborado após a Segunda Guerra Mundial estaria, como previsto, "irreconhecível" em 2025, graças à globalização, a ascensão dos poderes emergentes e "uma transferência histórica de riqueza relativa e poder econômico do Ocidente para o Oriente".

"Os próximos 20 anos de transição para um novo sistema serão repletos de riscos", declarou o documento. "As rivalidades estratégicas provavelmente girarão em torno do comércio, investimentos e inovação e aquisição tecnológica, mas não podemos descartar um cenário do século 19 de corrida armamentista, expansão territorial e rivalidades militares."

Este relatório foi escrito em grande parte antes da força plena da crise financeira e econômica se tornarem aparentes. Todavia, seus autores estavam convencidos de que o "momento unipolar" da hegemonia não desafiada americana pós-queda do Muro de Berlim já estava chegando ao fim. A futura ordem mundial seria "multipolar".

O extraordinário a respeito do presente momento é que vários ajustes fundamentais estão ocorrendo ao mesmo tempo. Isto é o que torna o resultado tão imprevisível.

O final da guerra fria, com a queda do Muro em 1989, abriu o caminho para a ascensão de novas potências - China e Índia em particular - e removeu os obstáculos ideológicos para a globalização. A imigração aumentou. A revolução tecnológica da Internet transformou as comunicações internacionais, o fluxo de informação, as finanças e a conscientização política.

O colapso do sistema financeiro global, causado não apenas pelo estouro da bolha do mercado de hipotecas de risco americano, mas também pela explosão da especulação financeira por todos os mercados do mundo, rapidamente se transformou em uma recessão na economia real. Ninguém foi poupado. O crédito congelou em mercados da África até o Leste Europeu.

Um imenso reequilíbrio está começando a ocorrer nos fluxos do comércio mundiais entre o déficit comercial americano insustentável e os superávits igualmente insustentáveis da China e outros grandes exportadores. Os consumidores americanos não serão mais o motor do crescimento chinês alimentado pela exportação, assim como os poupadores chineses não mais continuarão financiando o crédito americano.

Finalmente, há um ajuste - um que normalmente levaria décadas para se concretizar - que o relatório Conselho de Segurança Nacional identifica, de transferência de poder do Ocidente para o Oriente, especialmente a ascensão da China e da Índia para retomarem a proeminência que tinham quando a Europa estava na Idade das Trevas.

Há uma suposição em muitas partes do mundo de que a "crise do capitalismo", representada pelo congelamento do sistema financeiro, acelerará a mudança geopolítica de longo prazo, anunciando o declínio do poder americano e da influência europeia. A escolha do ano passado do G20 como fórum para tratar da crise foi um reconhecimento tardio de que a China, Índia e Brasil, no mínimo, precisam estar à mesa. Mas o G20 fornecerá uma liderança duradoura? Ele cheira a uma solução de emergência, não uma construção planejada.

Para começar, ele não possui um secretariado permanente. Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, na condição de atual presidente, lutou por meses com uma minúscula equipe de funcionários públicos britânicos para elaborar um consenso. Há divisões entre os Estados Unidos e a Europa. Mais importante, há prioridades diferentes para os países industrializados e economias emergentes. Foi notável terem conseguido concordar em uma declaração comum.

"É um arranjo que funciona para ministros das finanças e presidentes de bancos centrais que se reúnem uma vez por ano", disse Trevor Manuel, o ministro das finanças sul-africano. "Quando se trata de chefes de Estado e governos, os desequilíbrios são acentuados."

Mas pelo menos houve poucos sinais de alegria com a desgraça alheia em Londres. As expectativas em 2007 e 2008 de um "descolamento" entre as economias atingidas pela crise do Ocidente e os mercados emergentes menos expostos, desapareceram. A dor é global e a solução também precisa ser.

O efeito da crise financeira sobre a economia real atingiu os mercados emergentes mais duramente do que as economias desenvolvidas, com o colapso dos fluxos de comércio e uma queda dramática nos preços dos commodities. Está claro que aqueles mais duramente atingidos serão os mais pobres -especialmente na África- que possuem menos com que contar.

Depois desses, os mais duramente atingidos serão os produtores de commodities que sempre enfrentaram grandes problemas sociais e demográficos, como os ricos em energia Rússia, Irã, Nigéria e Venezuela. Até mesmo os produtores de petróleo do Golfo foram afetados. Todos se acostumaram à exportação e receitas inchadas e estão enfrentando ajustes.

Finalmente, as economias emergentes ainda em transição da pobreza para a prosperidade - ou do comunismo para a democracia- foram pegas pelo arrocho econômico antes que pudessem desenvolver sistemas estáveis de governança e eliminar a corrupção endêmica. Eles incluem muitos países do Centro e Leste Europeu que vieram do império soviético.

Alguns observadores estão céticos em relação às consequências geopolíticas de qualquer crise financeira. "Eventos geopolíticos como o desaparecimento de Mao na China, ou a queda do Muro de Berlim, têm um impacto muito maior do que choques financeiros", disse Robert Cooper, diretor geral de assuntos externos do Conselho da União Europeia e autor de "The Breaking of Nations: Order and Chaos in the 21st Century". "Veja a bolha tecnológica nos anos 90. Não houve consequências óbvias. Ou a crise do petróleo dos anos 70. Quaisquer consequências geopolíticas desapareceram rapidamente."

Mas ele admite que as duas crises financeiras do século 20 - a Depressão dos anos 30 e o colapso econômico na Europa após a Segunda Guerra Mundial - tiveram resultados importantes. A primeira levou à ascensão da Alemanha Nazista, o isolamento dos Estados Unidos e ao estouro da guerra. A segunda, mais positiva, resultou no Plano Marshall que financiou o "Wirtschafts­wunder" alemão e a recuperação econômica do restante do continente, que levaria à futura criação da União Europeia.

As lições dos anos 30 também levaram à criação das instituições de Bretton Woods -o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional- para levar ordem monetária aos principais Estados industrializados e um sistema de gestão de crise que sobreviveu por mais de 60 anos. Mas hoje sua legitimidade e representatividade estão sendo questionadas.

O país central na transformação política em andamento é a China. É também o país mais difícil de ler. "Eles querem tudo e nada", disse um alto funcionário do FMI. "O que eles realmente querem é apenas estar entre os grandes agentes. Os próximos 20 a 30 anos serão a era dos Estados Unidos e da China. Eles estão se preparando para este jogo."

Pequim quer uma maior participação dos votos no FMI, para refletir sua economia que cresce rapidamente. Mas antes do G20, o país não queria retirar dinheiro de suas imensas reservas de moeda estrangeira para contribuir com recursos para o Fundo porque a China ainda é, per capita, um país pobre. No final, Brown anunciou que Pequim contribuiria com US$ 40 bilhões, juntamente com US$ 100 bilhões cada da UE e do Japão, como parte de um total de US$ 500 bilhões. "A crise enfatiza o fato de a China ser um agente mundial chave", disse Bobo Lo, do Centro para Reforma Europeia, em Londres, e autor de "Axis of Convenience". "Ela pode ainda não ser uma superpotência mundial, mas acelerou esta tendência."

Se a China é uma vencedora cautelosa, a Rússia é a perdedora mais óbvia nesta sublevação. A escolha do G20 como fórum da crise em vez do G8 aboliu a posição privilegiada da Rússia como única forasteira à mesma mesa dos países ricos. No G20, ela é apenas uma das muitas economias de médio porte, como a Coréia do Sul e a Turquia.

Mas a fraqueza da Rússia é mais fundamental. O preço do petróleo pode ter subido e caído, mas a crise expôs seu fracasso em se diversificar além do setor de energia. Suas instituições financeiras são ineficientes, seu sistema judicial é corrupto. A longo prazo, ela enfrenta uma crise demográfica crônica que provavelmente resultará problemas sérios no mercado de trabalho nas próximas duas décadas.

E quanto ao restante da Europa na nova ordem mundial? Como a Rússia, o continente enfrenta uma população que está envelhecendo e encolhendo. O baixo crescimento é inevitável, apesar da maioria das economias europeias contar com reservas e uma rede de seguro social para lidar com a recessão. Mas isso não vale para o Leste Europeu.

Para a UE, o risco é de que a solidariedade dentro da União rache, à medida que o protecionismo se infiltre e mine o mercado único e os países membros mais velhos exibam relutância em socorrer os mais novos que enfrentem crises sociais agudas, com um congelamento de crédito bancário e investimento.

O resultado do G20 - reforço das instituições financeiras e uma maior ênfase na regulamentação- é o que a Europa queria. Mas pode ser uma bênção duvidosa. Por um lado, os europeus têm uma voz forte nas instituições, especialmente no FMI. Mas terão que ceder parte dessa influência em troca da contribuição da China e da representação de outros países em desenvolvimento.

Quanto ao próprio G20, a química do grupo é instável. Mas o que parece claro é que sem a linha firme do novo governo americano de Barack Obama, o resultado seria mais fraco. Foi Washington que quis triplicar os recursos do FMI. A UE estava satisfeita em apenas dobrá-los. Obama exerceu o papel de mediador.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, foi o único que insistiu na semana passada que a crise representava o fim do "capitalismo anglo-saxão". Mas a experiência sugere que de todos os países afetados, os Estados Unidos são os mais resistentes e com maior capacidade de se recuperarem rapidamente. A UE e o Japão parecem atolados em um fraco crescimento e declínio demográfico.

Quanto à China, a exigência para que se adapte de um crescimento liderado pelas exportações para uma expansão radical da demanda doméstica poderia ser um desafio político imenso. O Partido Comunista terá que estimular um crescimento muito mais rápido da classe média do que está preparado.

Uma nova ordem mundial pode estar substituindo a velha - mas será um trajeto turbulento.

A China assertiva

Quando o Grupo dos 20 líderes se reuniu em novembro passado, havia grandes expectativas de que a China, a única grande economia mundial ainda funcionando a pleno vapor, faria uma forte contribuição ao debate.

Naquele evento, a China se esquivou de assumir um papel maior, dizendo que seu principal papel era manter sua própria economia, no valor de um décimo do produto bruto mundial, funcionando a um crescimento real de 8% graças a um estímulo fiscal de US$ 570 bilhões.

No G20 da semana passada foi diferente. Tanto nos preparativos quanto no próprio encontro de cúpula, havia sinais claros de que a crise econômica acelerou a ascensão da China a grande poder. Talvez a reunião bilateral acompanhada mais atentamente em Londres foi o primeiro encontro entre os presidentes Hu Jintao e Barack Obama. O líder da China veio com uma posição mais cooperativa do que antes no reforço do Fundo Monetário Internacional. Ele também mostrou que Pequim não pode ser forçada a posições que não gosta, como quando fez objeções a uma tentativa de Nicolas Sarkozy, da França, em rotular Hong Kong e Macau como paraísos fiscais.

Antes da cúpula, também, Pequim foi bem mais ativa. Ele deixou claro que os Estados Unidos não poderiam esperar que a China ajudasse a financiar seu enorme déficit sem algo em troca. Ela admoestou o novo governo de Obama sobre a necessidade de um novo esforço de consolidação fiscal após os gastos em estímulo.

Ainda mais surpreendente, poucos dias antes do encontro de cúpula, Zhou Xiaochuan, presidente do Banco Central da China, sugeriu que o FMI ampliasse seus direitos especiais de saque, a "moeda" do FMI, para que pudessem substituir o dólar como moeda global de reserva.

Ben Simpfendorfer, economista do Banco Real da Escócia, disse que apesar da proposta não ser realista, "ela demonstra uma liderança global e ressalta a ascensão do Oriente". A China, ele disse, está buscando estabelecer seu yuan como moeda de fato da Ásia, o que ajudaria a consolidar sua ascensão como líder regional.

Shi Yinhong, um professor de políticas da universidade Renmin de Pequim, disse que a China sabe que por ora tem pouca escolha a não ser continuar financiando os Estados Unidos. Mas em troca de comprar uma moeda que o país suspeita que um dia sofrerá um colapso, ela buscará mais respeito por suas posições em questões que incluem as vendas de armas para Taiwan, a independência do Tibete e suas atividades em países como o Sudão.

De fato, já há sinais de que a forte posição financeira de Pequim já está rendendo dividendos políticos. Quando Hillary Clinton, a secretária de Estado americana, visitou a China em fevereiro, ela disse que os direitos humanos "não podem interferir" nas prioridades econômicas e diplomáticas maiores.

O fato de Hillary Clinton, entre todas as pessoas, adotar tamanho tom contido demonstra o quanto as coisas agora pendem a favor de Pequim.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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