O despótico Querido Líder

Christian Oliver

Tentando o quebrar o gelo durante um jantar com uma atriz sul-coreana sequestrada em 1978, Kim Jong-il revelou que não tinha ilusões sobre como era visto pelo mundo. "O que acha de mim? Mais baixo que a bunda de um anão, não é?"

O ditador da Coréia do Norte, que desafiou o mundo mais uma vez no último fim de semana ao disparar um foguete de longo alcance sobre o Japão, sempre foi um alvo fácil para ridicularização, com seus óculos escuros, sapatos de plataforma e cabelo eriçado. Mas ele também tem autocrítica.

Coréia do Norte

  • O diminuto ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-il (centro), foi impiedoso para manter o poder

George W. Bush zombou dele como um "pigmeu" e jovens do Ocidente muitas vezes o visualizam como o boneco histérico do filme de 2004 "Team America: World Police", que joga o ex-inspetor de armas da ONU Hans Blix em seu tanque de tubarões.

Essas caricaturas cômicas podem ser desconfortáveis ao lado das duras realidades conhecidas sobre o Querido Líder, que preside terríveis campos de concentração e come lagostas com palitos de prata enquanto seu povo passa fome.

A Coréia do Sul o acusa de coordenar pessoalmente o atentado a bomba contra um jato civil com 115 pessoas a bordo em 1987. Seul também diz que Kim foi responsável pelo ataque de 1983 a autoridades do governo sul-coreano na Birmânia, que matou 21 pessoas, incluindo o ministro das Relações Exteriores.

Enquanto historiadores e biógrafos geralmente têm pouca simpatia por Kim Jong-il, muitos ainda apreciam o absurdo de sua posição, preso desde que nasceu em uma guerra fria que ele sabe que perdeu, enquanto a maioria dos 23 milhões de habitantes de seu país continua inconsciente de que o jogo terminou.

De alguns diplomatas, membros da família e até seu cozinheiro japonês surgiram pedaços de informação sobre o universo paralelo surreal de Kim, embora muito pouco possa ser comprovado.

Em casa, o diminuto fã de cinema aprecia filmes de ação de Hollywood e ouve histórias sobre a vida no Ocidente de seus filhos educados na Suíça, mas em público defende a linha do partido. Enquanto sua população só pode comprar rádios fixos na frequência oficial, Kim navega pela web e se considera um especialista em Internet. Ele até deu orgulhosamente seu e-mail para a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright.

"O que ele pode estar pensando?", escreve o historiador americano Bruce Cumings. "Está pensando: tirem-me daqui."

Os filhos de Kim nem sequer fingem viver o sonho socialista. Seu mais velho, Kim Jong-nam, frequenta os cassinos de Macau e o segundo, Kim Jong-chol, convidou Eric Clapton para dar um concerto na Coréia do Norte.

Seu pai chegou a fazer algumas tentativas de injetar um pouco de capitalismo na economia, permitindo a revalorização da moeda e balançando a estrutura do mercado em 2002. Visitantes recentes a Pyongyang viram evidências de dinheiro plástico e lojas competindo por negócios através de liquidações, algo inédito no modelo socialista.

Origens
As mentiras começaram no nascimento de Kim Jong-il. Ele quase certamente chegou ao mundo em 1941 em um de campo de guerrilheiros coreanos na Rússia que combatiam os japoneses na Manchúria. Mas para o filho de Kim Il-sung, o futuro Grande Líder, isso simplesmente não bastava.

Nas narrativas oficiais, ele nasceu das encostas do monte Paektusan, o berço da civilização coreana. Uma nova estrela apareceu no firmamento depois de seu nascimento, um sinal crucial da aprovação celeste. Embora a Coréia do Norte seja oficialmente ateia, a noção confuciana de "mandado celestial" permanece forte e as reportagens oficiais ainda incluem fenômenos celestes que mostram o contentamento do universo pelos atos de Kim.

Psicanalistas adoram vasculhar a infância de Kim em busca de sinais de onde foi que as coisas deram errado. Ser um menino fisicamente pequeno à sombra do prepotente Kim Il-sung não deve ter sido fácil. Para ampliar seus problemas, sua mãe e seu irmão mais moço morreram quando ele era criança.

Ao galgar as fileiras, as habilidades de Kim Jong-il foram usadas principalmente como propagandista, um campo em que ele pôde aplicar seu amor pelo cinema. Ele também fundou a companhia de ópera Pibada (mar de sangue) em 1971, dedicada principalmente a manter vivas as histórias das batalhas de guerrilha de seu pai contra os japoneses, com muito sangue entre as árias.

Kim recebeu responsabilidades que levaram a maioria dos observadores a supor que seria o herdeiro aparente por quase 20 anos antes da morte de seu pai, em 1994, garantindo uma sucessão tranquila.

Além das supostas reformas econômicas, sua ditadura foi marcada por uma política de dividir para mandar, colocando o Partido Comunista contra o alto escalão do exército para garantir que nenhum dos dois se tornasse poderoso demais. A Coréia do Norte detonou uma ogiva nuclear em 2006.

Essa necessidade de dividir para governar ilustra uma dimensão subvalorizada da ditadura norte-coreana: Kim precisa sempre manter um olho no trono, especialmente agora que está doente. Antes um "bon vivant", ele parecia frágil quando surgiu no Parlamento na quinta-feira. Ninguém está acima de suspeitas e a maioria das altas autoridades, incluindo seu influente cunhado, Chang Sung-taek, passou por períodos de "reeducação".

Presente
O lançamento do míssil na semana passada fez parte do reforço de poder. "É um sinal para as pessoas que importam: os grandes atores e desafiadores de Kim", diz Daniel Pinkston, vice-diretor de projeto do nordeste asiático do Grupo Internacional de Crises.

Uma grande explosão de trem em 2004 foi vista comumente como um atentado à vida de Kim, depois que um telefone celular foi encontrado perto do local da explosão. Kim nunca viaja de avião.

Seu poder é exercido principalmente através de seu papel como presidente da Comissão Nacional de Defesa, o principal cargo do país. Como se esperava, esta semana o Parlamento aprovou um terceiro mandato para ele nessa função.

Mas existem muitas possibilidades de que seus anos de boa-vida possam se mostrar uma ameaça mais iminente ao regime do que os golpes e atentados internos. Os serviços de inteligência afirmam que ele sofreu um infarto e passou por uma pequena cirurgia cardíaca nos últimos anos.

Kim tem a antiga fama de gourmet e de ser um fumante e bebedor inveterado. Em 1980, seu cozinheiro comentou que ele subia e descia as escadas para perder peso. Ele afirmou ter parado de fumar, mas foi apanhado dando baforadas em uma fábrica de cigarros este ano.

Quanto ainda bebe é outra pergunta irrespondível, apesar de consumir vinho em funções oficiais. Ele foi famoso como um apreciador de bebidas fortes, encomendando caixas de conhaque de luxo, embora haja certa discussão quanto a se eram para consumo próprio ou para presentear súditos leais. Quando se tem 100% de apoio nas eleições, haja conhaque!

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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