Um exército marchando para escapar da China medieval

Tom Mitchell

Esta supostamente seria uma primavera de filas para sopa e pão nos centros manufatureiros da China, um precursor potencial de um longo e quente verão de inquietação industrial ameaçando a visão do governo de uma "sociedade harmoniosa". São tempos difíceis para o setor exportador da China, os mais difíceis de que se tem memória. As exportações da província sulista de Guangdong, que representam um terço do total do país, caíram 21% em janeiro e fevereiro, à medida que os varejistas ocidentais reduzem seus estoques. Mas em março, o declínio ano a ano foi um bem menor de 14%, e a ampla inquietação dos trabalhadores não se materializou no delta do Rio Pérola, o centro industrial de Guangdong.

O governo de Guangdong estima que 10 milhões dos 19 milhões de trabalhadores migrantes da província retornaram para seus lares nas províncias do interior para o feriado do ano novo lunar, que neste ano caiu no final de janeiro. Até o final de fevereiro, 9,5 milhões retornaram à província. Destes, cerca de 5% (ou 460 mil pessoas) não encontraram emprego. No contexto de uma província com uma população total de 110 milhões de habitantes, meio milhão de migrantes é um exército de desempregados considerável, mas ainda administrável.

Os profetas que previram que este exército rapidamente se rebelaria não perceberam a resistência e o entendimento político de seus soldados. O arquétipo da força de trabalho do delta do Rio Pérola - garotas de fábrica desinformadas que trabalham por alguns poucos anos antes de voltarem para suas aldeias natais - não mais se aplica. Os trabalhadores de hoje tendem a se vestir como querem, evitam o refeitório da fábrica e moram longe dela com seus amigos.

Também apresentam uma maior probabilidade de se apaixonarem, casarem e viverem em seu novo lar - como ficou evidente pelo fato de meio milhão dos migrantes de Guangdong não terem retornado para suas aldeias para o feriado do ano novo lunar. Confirmando esta nova realidade social, no ano passado o Escritório de Administração de Aluguel de Acomodações e Migrantes em Dongguan, um centro de exportação, mudou seu nome para Birô de Serviços aos Novos Residentes de Dongguan.

Os "novos residentes" de Dongguan são, sem causar surpresa, pessoas empreendedoras que correm riscos, semelhantes aos emigrantes europeus que embarcaram em navios para uma vida melhor do outro lado do Atlântico. Se não fossem, nunca teriam deixado suas aldeias para começar.

Não se deixe enganar por visões de Shangri-La e outros lugares pitorescos idílicos: a China rural não é um lugar feliz.

O "China Labour Bulletin" com sede em Hong Kong, fundado pelo ativista trabalhista Han Dongfang, traduziu as reflexões fascinantes de um trabalhador migrante a respeito da vida na aldeia. Após ter experimentado as luzes brilhantes de Xangai, Xiao Sanlang disse sobre voltar para casa: "Foi um salto do pós para o pré-modernismo, do século 21 de volta ao mundo medieval. Isso me deixou com uma mistura de sentimentos - raiva, tristeza, amargura, impotência e muito mais".*

Ai Xiaoming, uma professora da Universidade Zhongshan, registra uma visão igualmente desoladora do interior chinês em seu documentário revelador "O Trem para minha Cidade Natal". Ai detalha o caos na principal estação ferroviária de Guangzhou em janeiro de 2008, quando nevascas no interior da China retiveram centenas de milhares de trabalhadores que tentavam chegar em casa para os feriados. Ela viajou para as aldeias sujas, apáticas de uma jovem e um jovem que morreram na confusão, para entrevistar seus familiares enlutados. Os panoramas tristes apresentados por ela são uma ilustração suficiente do trabalho penoso do qual os dois migrantes sem sorte, Li Hongxia e Li Manjun (sem parentesco), estavam fugindo.

Determinados a se estabelecer no delta do Rio Pérola, os trabalhadores migrantes da China são mais conscientes de seus direitos, mas também cuidadosos no modo como os exigem. Aqueles que criaram organizações de autoajuda enfatizam que sua meta é simplesmente educar os migrantes a respeito de seus direitos legais, cujo reconhecimento do governo ocorreu em janeiro do ano passado, com a implantação de uma Lei de Contrato de Trabalho pró-trabalhador.

Pergunte a respeito do futuro aniversário do massacre da Praça Tiananmen, que completará 20 anos em junho, ou se são contrários ao sistema de partido único, e a conversa se torna incômoda. "Por favor, não escreva sobre política quando escrever a meu respeito", recentemente fez objeção um ativista de trabalho quando lhe foi feita estas perguntas.

Han, um veterano de Tiananmen que já foi preso por seus esforços para estabelecer uma alternativa independente à Federação dos Sindicatos de Toda a China aprovada pelo governo, notou que a última coisa que o movimento trabalhista do país precisa é de mais mártires apodrecendo nas prisões chinesas por contestarem a autoridade do Partido Comunista. É muito melhor, ele acrescentou, se concentrar em questões de piso de fábrica que afetam o cotidiano dos trabalhadores.

Como Han disse em um discurso no Clube dos Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong, no início deste ano: "Por que não deixar que trabalhadores e empregadores resolvam seus problemas de modo independente na esfera da fábrica? Esta é a melhor forma de promover uma sociedade harmoniosa".

*www.clb.org.hk/en/node/100435

O autor é o correspondente do FT no Sul da China

Tradução: George El Khouri Andolfato

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