Estados Unidos e Irã: chamas para apagar

Daniel Dombey

Enquanto tenta recomeçar do zero as relações, Washington enfrenta o problema do programa nuclear de Teerã ter avançado nesse meio tempo -e as potências regionais estão desconfiadas

O presidente Barack Obama está de olho no Irã. Por três décadas, Washington e Teerã têm atormentado um ao outro. Por dois anos, Obama tem construído sua identidade política com a ideia de um diálogo com os inimigos dos Estados Unidos, sendo o Irã seu interlocutor potencial mais controverso. Há meses, Israel vem alertando Washington de que sua paciência diante do progresso do programa nuclear de Teerã está se esgotando.

Agora, em uma ação de ambição de tirar o fôlego, Obama está buscando alterar o relacionamento dos Estados Unidos com a República Islâmica, em negociações que deverão começar nas próximas semanas.

Apesar do presidente ainda não ter feito nenhum anúncio formal a respeito da nova política, que ainda está passando por uma revisão da Casa Branca, funcionários, diplomatas e analistas apresentaram os pontos principais em uma série de conversas com o "Financial Times".

Os Estados Unidos estão determinados a ganhar tempo para as negociações, conter os pedidos israelenses de um ataque militar e cultivar relações com Teerã em várias frentes, bilaterais e multilaterais, formais e informais. O país também está preparado para fazer concessões ao diluir antigas exigências, notadamente em relação ao enriquecimento de urânio, a questão no coração da disputa nuclear. Mas mesmo assim as autoridades reconhecem que não há garantia de sucesso.

"Nós queremos engajar diretamente o Irã em uma série de questões", disse um porta-voz de Hillary Clinton, a secretária de Estado. "Nós deixaremos claro nos próximos dias os detalhes adicionais a respeito de nosso engajamento com o Irã (...) Mas eu acho que é importante lembrar a todos que estamos dispostos a dialogar com o Irã sem pré-condições e veremos se o Irã está disposto a aceitar esta oferta."

As apostas são altas. Ainda a ser decidido é se o Irã se tornará um Estado com capacidade de armas nucleares apesar dos protestos de que não está buscando a bomba; se a disputa nuclear se transformará em um conflito armado com Israel; e se o progresso de Teerã provocará uma proliferação nuclear em uma das regiões mais voláteis do mundo.

Em aparições recentes, Obama identificou a "persistência" como a palavra-chave de seu governo, rejeitando qualquer ideia de que os líderes de Teerã devem "dizer imediatamente que estão eliminando as armas nucleares e parando de financiar o terrorismo".

Na prática, dizem os diplomatas, isso significa que as negociações levarão meses para apresentar progresso, com o governo dificilmente impondo qualquer prazo arbitrário. Mas um ponto natural de revisão ocorrerá durante a Assembleia Geral da ONU em setembro, quando os líderes mundiais se reúnem. Apesar de quase ninguém esperar que a disputa esteja resolvida até lá, se as negociações não apresentarem nenhum resultado, aumentará a pressão por mais sanções.

O governo deixa particularmente claro em sua mensagem para Israel de que sua política precisa de tempo para funcionar. Na semana passada, em um dos alertas mais diretos feitos por um governo americano ao Estado em anos, Joe Biden, o vice-presidente, disse ao novo governo de Benjamin Netanyahu que seria "imprudente" atacar o Irã.

Estas palavras dificilmente provarão ser vazias. O governo de George W. Bush negou ao governo israelense anterior o direito de sobrevoar o espaço aéreo controlado pelos Estados Unidos no Iraque e rejeitou fornecer bombas arrasa-bunker para um possível ataque contra a instalação nuclear iraniana em Natanz. A medida, semelhante à recusa feita pelo pai de Bush quando ocupava a presidência, facilita para Obama rejeitar um pedido semelhante de Netanyahu e também acentua a importância do apoio americano para qualquer ataque israelense eficaz.

"Eu não posso ficar sentado aqui e prever se o governo Obama dirá: 'Ok, aqui estão as bombas arrasa-bunker e aqui estão os códigos (para permitir que as aeronaves israelenses sobrevoem o espaço aéreo de controle americano)'", disse James Baker, o ex-secretário de Estado americano, para a "CNN" neste mês. "Mas dois governos anteriores, um deles visto como extraordinariamente favorável a qualquer coisa que Israel queria, se recusaram a fazer isso."

Na semana passada, um novo elemento da nova política foi encaixado, quando o governo declarou sua prontidão para realizar negociações formais regulares com o Irã na questão nuclear, juntamente com diplomatas da China, Rússia, Alemanha, Reino Unido e França. Em meio às respostas positivas do Irã, incluindo uma promessa nesta semana de uma contra-oferta pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, os Estados Unidos e seus aliados expressaram esperança de um encontro dentro de três a cinco semanas. "Nós apreciamos o fato de estarem interessados em promover um diálogo", disse o porta-voz de Clinton.

Enquanto isso, em vez de repetir os pedidos de Bush de uma suspensão do enriquecimento, que pode produzir tanto combustível nuclear quanto material para armas, Obama se concentrou na exigência de que o Irã não desenvolva armas nucleares -uma escolha de palavras que permite uma maior amplitude de acordo.

A possibilidade de chegar a um acordo depende de três avaliações, com cada uma delas contribuindo para a revisão americana: se Teerã quer realmente a bomba; quais atividades nucleares do Irã representam a maior ameaça; e se a disputa pode ser melhor tratada se concentrada exclusivamente na questão nuclear ou também lidando com um conjunto mais amplo de preocupações.

Indicando uma possível amplitude para as negociações, Dennis Blair, o diretor nacional de inteligência de Obama, disse no mês passado que acredita que o Irã ainda não tomou a decisão de produzir urânio altamente enriquecido suficiente para uma bomba. Ele acrescentou: "O Irã está no mínimo mantendo aberta a opção de desenvolver armas nucleares".

Isto repete a Avaliação Nacional de Inteligência de 2007, que apontou que o Irã tinha suspendido seu esforço de converter o material nuclear em útil para armas, contrastando com a declaração repetida de Bush de que o Irã buscava a bomba para "destruir pessoas".

O governo Obama é mais cuidadoso sobre se considera o que sabe a respeito do programa nuclear do Irã ou o que não sabe como sendo a maior ameaça. Mas de modo privado, tanto os diplomatas americanos quanto os israelenses reconhecem que as instalações amplamente documentadas de enriquecimento em Natanz representam um risco menos iminente do que costuma ser retratado, enquanto informações a respeito do restante do país se tornam cada vez mais difíceis de obter.

As atividades do Irã em Natanz estão acelerando, mas estão sujeitas a inspeções por parte da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) pelo menos uma vez por mês. Esta deveria ser uma frequência suficiente para alertar qualquer tentativa de desviar urânio enriquecido do local ou produzir material para armas na própria Natanz.

Por sua vez, Teerã cada vez mais retém informação sobre suas outras atividades -manufatura de centrífugas para enriquecimento de urânio; as possíveis dimensões militares do programa; e um reator nuclear de água pesada. Como resultado, crescem os temores de que o país esteja desenvolvendo instalações nucleares clandestinas.

"Natanz é uma área de teste muito importante para os iranianos aprenderem a respeito do enriquecimento", disse David Albright, presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington. "Mas a maior preocupação é fora de Natanz: nós não sabemos nada a respeito do que estão fazendo, quantas centrífugas eles fabricaram, ou se estão prontos para dar continuidade em uma instalação duplicada que os permita produzir material físsil."

Estas preocupações alimentam os pedidos entre diplomatas e analistas, também presentes na revisão interna de política do governo, para que os Estados Unidos se concentrem menos no pedido para a suspensão do enriquecimento em Natanz e mais em descobrir toda a amplitude das atividades nucleares de Teerã.

"Agora que o governo Obama sinalizou um interesse claro em dialogar com o Irã, isto pode ampliar os termos do debate, de questões técnicas estreitas como o número de centrífugas, para incluir objetivos políticos", disse um diplomata ocidental.

Em julho passado, o governo Bush relaxou sua condição de que o Irã tinha que suspender todo o enriquecimento antes que as negociações pudessem começar; o governo Obama não apenas abandonou a exigência como pré-condição para as negociações como também discutiu internamente se no final terá que conviver com certa atividade de enriquecimento dentro do Irã.

Diplomatas americanos acrescentaram que seu maior perfil na região -variando de seus laços com os grupos militantes Hamas e Hizbollah até sua aliança com a Síria- fornece motivos adicionais para adoção de uma abordagem mais abrangente.

Os contatos estão proliferando. Diplomatas iranianos e americanos trocaram palavras em uma reunião no Afeganistão, com a perspectiva de conversas informais semelhantes em encontros multilaterais.

Um encontro bilateral também é provável, porque é o formato que pode lidar mais facilmente com o grande número de questões entre os dois lados -como Obama prometeu quando se dirigiu ao Irã por vídeo no mês passado, para marcar a celebração do ano novo iraniano. Uma abordagem de comunicação indireta com o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo, também é possível.

Em uma medida adicional para tranquilizar Teerã, Obama afastou qualquer ideia de uma mudança de regime -assinalada quando ele usou o nome formal da República Islâmica do Irã em seu discurso por vídeo.

Mas as autoridades americanas reconhecem que a tarefa à frente é terrivelmente difícil. Em uma viagem ao Oriente Médio no mês passado, Clinton disse às autoridades árabes que "duvida" que o Irã responderá positivamente à abertura americana. Mesmo que o faça, a velocidade do programa nuclear do Irã provavelmente superará a velocidade das negociações. De fato, a abordagem de Obama em relação ao Irã é apenas a mais recente de uma série de tentativas desde 2003 para convencer Teerã a suspender seu programa nuclear, mas nenhuma delas teve sucesso.

E, diferente de outros problemas no Oriente Médio e outros lugares, a arquitetura de um acordo final é esquiva. Por exemplo, um dos problemas mais difíceis é assegurar o que Obama considera o "local de direito (do Irã) na comunidade das nações". Os países árabes recuam diante da ideia do Irã ter um maior peso de decisão nos assuntos regionais ou de ingressar em grupos como o Conselho de Cooperação do Golfo.

Estes são os desafios diante dos Estados Unidos ao buscar elaborar uma nova política para o Irã com base em negociação, torcendo e lutando para ganharem um pouco mais de tempo. A hora da verdade pode não ser tão iminente quanto alguns preveem. Mas, no que se refere à abordagem do governo Obama de diálogo com o restante do mundo, o Irã certamente será seu maior e mais difícil teste.

Alta tensão apesar da 'baixa' ambição
Em janeiro de 2006, o Irã rompeu os lacres da ONU no equipamento de sua instalação de enriquecimento de urânio em Natanz. A medida intensificou a disputa em torno do programa nuclear do Irã, já que urânio altamente enriquecido pode ser usado para produzir armas nucleares (a rota alternativa é usar plutônio).

Mas o Irã insiste que está interessado em enriquecer urânio apenas em níveis baixos, para servir como combustível para um reator de energia nuclear próximo da cidade de Bushehr.

De lá para cá, o Irã obteve um progresso acentuado. Em 1º de fevereiro, Teerã instalou cerca de 5.500 centrífugas para enriquecer urânio em Natanz e produzir 1.010 quilos de hexafluoreto de urânio -o suficiente, se enriquecido ainda mais, para produzir material físsil para uma bomba. Mas muitos analistas disseram que esses cálculos são teóricos, acrescentando que faz pouco sentido produzir estoque para apenas uma bomba.

A visão oficial do governo americano continua sendo a de que o Irã não será capaz de produzir material físsil suficiente antes de 2010-2011, no mínimo, em parte por causa dos problemas técnicos na tecnologia de domínio do enriquecimento. Israel diz que Teerã conseguirá um avanço antes disso.

Ações 'inteligentes' que tiveram um maior impacto
Dentro do Tesouro americano, um nomeado de George W. Bush continua sua campanha contra o programa nuclear do Irã durante o governo Obama.

Stuart Levy, o subsecretário do Tesouro para terrorismo e inteligência financeira, provou ser singularmente eficaz no acúmulo de sanções financeiras contra o Irã. Este é um dos motivos para ter mantido seu posto no novo governo.

A abordagem de Levey é baseada em parte nas resoluções do Conselho de Segurança da ONU de agosto de 2006, que impõem sanções por causa da recusa de Teerã em suspender o enriquecimento de urânio. Estas medidas foram criticadas nos Estados Unidos por falta de força. Elas se concentram em empresas, bancos e indivíduos específicos associados aos programas nuclear e de mísseis do Irã, em vez de buscar atingir a economia do Irã como um todo.

Mas Levey percorreu o mundo para dizer aos parceiros dos Estados Unidos que as sanções da ONU são motivo para manter distância de todos os contatos com Teerã, já que nenhuma empresa de fora pode saber ao certo com quem dentro do Irã está realmente negociando.

A campanha de dissuasão rendeu frutos. Bancos internacionais se retiraram do Irã, assim como grupos de energia, mais notadamente a Total da França no ano passado. Como resultado, o que originalmente visava ser sanções direcionadas, ou "inteligentes", teve efeitos muito maiores sobre o sistema financeiro e a economia do Irã como um todo, efeitos acentuados pela recente queda nos preços do petróleo.

Levey tem outras armas em seu arsenal, notadamente poderes para proibir americanos de negociar com grupos específicos, apontados segundo as regras antiterrorismo e antiproliferação nuclear. Ele agiu contra vários bancos iranianos, empresas industriais e a linha de transporte marítimo do país.

"Em setembro de 2006, eu podia contar em uma mão os grandes bancos que cortaram ou reduziram enormemente seus negócios com o Irã", ele disse no final do ano passado. "Agora há apenas poucos que não o fizeram."

Um efeito foi impedir o Irã de obter financiamento em dólares, ao proibir bancos terceiros de acessar o sistema financeiro americano em prol das instituições iranianas. Também ficou mais difícil para o Irã obter material para seus programas nuclear e de mísseis.

Na semana passada, em coordenação com um processo preparado por Robert Morgenthau, o promotor público de Manhattan, Levey tornou ilegal grupos americanos realizarem negócios com oito supostas empresas de fachada para um fornecedor chinês de partes de mísseis para o Irã -empresas cujas transações foram desavisadamente financiadas por instituições como o Citibank e o Bank of America.

Mas apesar de todas as atividades de Levey, os esforços nucleares do Irã prosseguem e ganharam velocidade. Alguns funcionários americanos argumentam que para o Irã mudar de ideia, sanções mais duras terão que ser aplicadas. Durante a campanha presidencial do ano passado, o próprio Obama pediu por uma proibição da venda de petróleo refinado para o Irã, que carece de capacidade para refinar todo o petróleo que produz.

Mas muitos países da União Europeia relutam em impor mais sanções no presente. A China e a Rússia são ainda mais contrárias à medida. Não é de se estranhar que Obama tenha acentuado o positivo quando estendeu a mão ao Irã em uma mensagem de vídeo no mês passado. Sanções mais duras provaram ser mais fáceis de serem discutidas do que obtidas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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