Venda de banco de investimento brasileiro revela as oportunidades nas lacunas do mercado

Peter Thal Larsen e Jonathan Wheatley Em São Paulo

Há três anos, André Esteves saudou os benefícios de fazer parte de uma grande instituição financeira global, ao explicar a decisão de vender o Pactual, o banco de investimento brasileiro, para o UBS por US$ 2,5 bilhões.

Nesta semana, o ex-corretor de 41 anos argumentou que a parceria privada poderia expandir globalmente, ao revelar que o BTG, seu novo veículo de investimento, estava comprando de volta o Pactual do banco suíço pelo mesmo valor.

A mudança de ideia de Esteves ressalta a extensão com que a crise global de crédito transformou a paisagem financeira. Bancos como o UBS, que antes nutriam ambições globais, estão recuando após terem sido socorridos pelos contribuintes em casa, deixando lacunas no mercado que podem ser preenchidas por novos agentes como o BTG.

"O que é interessante nesta transação é que este é o melhor momento para criar uma nova instituição financeira", disse Esteves ao "Financial Times", argumentando que uma parceria era mais adequada para fazer apostas financeiras do que uma grande instituição burocrática. "Nós temos um alinhamento de interesses porque é o dinheiro do parceiro."

Ele não está sozinho. Nos últimos meses, vários banqueiros de investimento desiludidos deixaram grandes instituições para montar ou ingressar em bancos de investimento de butique de propriedade privada.

Entretanto, ainda está longe de certo se estas casas menores podem desafiar os gigantes feridos das finanças globais. O sucesso deles dependerá em parte de se os reguladores terão sucesso em limitar a capacidade dos grandes bancos de fazer apostas.

Todavia, a compra do Pactual demonstra a extensão da ambição de Esteves. Um matemático que ingressou no Pactual como técnico de informática, ele parecia destinado a uma rápida ascensão dentro do UBS após a venda.

Inicialmente colocado como chefe das operações do UBS na América Latina, ele foi promovido a chefe de renda fixa em julho de 2007, quando a extensão das apostas do banco em ativos de dívida complexos começou a ficar clara. Mas uma maior promoção foi atrapalhada pelos contínuos problemas do banco.

Ele é cuidadoso em não criticar ex-colegas no UBS, mas na conversa dá a impressão de ter ficado frustrado por não ter recebido a liberdade que sentia necessária para recuperar os negócios.

"André estava muito interessado em vender o banco ao UBS com a intenção de que acabaria dirigindo o UBS", disse um ex-colega. "Dado que o banco acabou nas mãos do Estado suíço, isso nunca aconteceria."

Ele deixou o UBS em julho de 2008 e criou o BTG com um punhado de ex-sócios do Pactual. O novo banco fechou seu primeiro negócio no mês passado, quando assumiu a Lentikia, uma gestora de fundo hedge que controla o Brocade, um macro fundo hedge bem-sucedido com US$ 800 milhões sob administração.

Com escritórios em Londres e Hong Kong, assim como em São Paulo e Rio de Janeiro, Esteves fala com empolgação sobre construir um banco com um pé em múltiplos mercados emergentes. "Há muita gente talentosa que deseja participar de um projeto como este. Nós podemos criar um tipo de Goldman Sachs dos mercados emergentes", ele disse.

O Pactual tem suas raízes no surgimento da pequena mas agressiva cultura de banco de investimento do Brasil, baseada em resultados, do início dos anos 70. Seu fundador, Luiz César Fernandes, foi o criador ao lado do sócio Jorge Paulo Lemann, do Garantia, uma corretora que se transformou em um banco de investimento pleno e acabou sendo vendido ao Credit Suisse.

Fernandes deixou o Garantia para fundar o Pactual em 1983, e os dois bancos em grande parte dividiram entre eles a nata do setor de banco de investimento brasileiro.

Esteves e outros sócios mais jovens tomaram o controle do Pactual em 1999, o conduzindo durante um dos períodos de expansão mais rápida nos mercados de capital do Brasil.

Após o negócio do Pactual, o BTG terá mais de US$ 20 bilhões sob gestão e ativos de cerca de cerca US$ 1,8 bilhão. O UBS manterá o controle sobre o negócio de banco privado no exterior do Pactual, com sede nas Bermudas.

Apesar do preço de US$ 2,5 bilhões, Esteves e seus sócios estão entregando cerca de US$ 615 milhões pelo Pactual. O restante equivale a US$ 1,6 bilhão em pagamentos a vencer -em 2011- e cerca de US$ 300 milhões em pagamentos retidos ainda devidos pelo UBS, que o BTG agora assumirá. Apesar da possível saída de um punhado de sócios, Esteves espera que o banco combinado inclua a maioria dos 60 sócios do Pactual na época do negócio em 2006. Desta vez, eles esperam que sua visão estratégica dure mais do que alguns poucos anos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos