Como crescer num futuro de baixas emissões de carbono

Richard Milne

A colaboração entre as companhias e indústrias incentiva o desenvolvimento de novos negócios sustentáveis

Quando a Wilh. Wilhelmsen, uma das maiores companhias de transporte marítimo do mundo, começou a desenvolver um sistema de propulsão com baixo uso de combustível, iniciou uma jornada de descobertas que a levaram a uma série de mudanças ecologicamente corretas.

Ingar Skaug, diretor executivo, diz que o grupo pensava muito num futuro de "poucas emissões de carbono" - um mundo em que a companhia ainda poderia crescer, mas no qual as emissões teriam de ser menores. Em cooperação com a Royal Dutch Shell e a Det Norske Veritas, uma companhia de gerenciamento de riscos, ela examinou formas de reduzir o consumo de combustíveis e retirar o máximo de enxofre e dióxido de nitrogênio possível de seus motores.

No processo, a Wilh. Wilhelmsen descobriu oportunidades para outras inovações: um conversor catalítico desenvolvido com a Yara, uma companhia de fertilizantes, que injeta amônia para neutralizar o dióxido de nitrogênio; uma tecnologia de limpeza com enxofre para cortar as emissões; uma troca por produtos de limpeza à base de água em vez de outros químicos; um melhor sistema de ar condicionado; um sistema de limpeza para a água de lastro dos navios que reduz a disseminação de bactérias pelo mundo.

"Conseguimos provar que é um ótimo negócio colocar o ambiente como prioridade", diz Skaug.

Com o aumento do custo da energia e as multas para os poluentes ficando mais rigorosas, muitas companhias estão pensando na mesma linha de raciocínio. "Estamos entrando numa nova época em que as companhias privilegiam um crescimento sem muitas emissões, o que beneficia sua própria base... Isso não é uma abordagem ambiental, é uma estratégia de negócios", diz Osvald Bjelland. O empresário norueguês montou a Global Leadership and Technology Exchange (GLTE), uma rede que permite que companhias como a Wilh. Wilhelmsen, Tata, Gazprom e Deutsche Bank troquem informações e iniciem projetos ecologicamente corretos.

O empresário que se recusou a varrer as preocupações com o clima para debaixo do tapete

A fabricante de carpetes Interface é com frequência tida como exemplo de como as empresas podem crescer de forma sustentável. Mas quando começou na década de 70, o meio ambiente era a última das preocupações de seu fundador, Ray Anderson - a fabricação de carpetes na época dependia muito do petróleo.

Sua epifania veio em meados dos anos 90 quando se tornou consciente da importância cada vez maior da mudança climática. Ele passou rapidamente pelos três pontos propostos pelo empresário norueguês Osvald Bjelland para a etapa do crescimento numa economia de baixas emissões.

Anderson mudou a estratégia da Interface, reduzindo os resíduos, emissões e o consumo de água. Numa entrevista para a Corporate Design Foundation no ano passado, ele disse que a Interface havia cortado seus resíduos pela metade, sua emissão de gás de efeito estufa em 88% e o uso de água em 79% em relação a 1988. Metade de suas fábricas funciona com energia renovável.

Anderson se tornou um defensor de redução de resíduos e emissões em toda a companhia. Por fim, ele se pôs a pensar em mudanças de longo prazo no modelo de negócios da Interface. Além de experimentar o uso de novos materiais, a Interface pediu aos consumidores que arrendassem os carpetes, em vez de comprá-los, e então substituíssem apenas as partes gastas em vez de trocar o piso inteiro.

Apesar disso, as ações da Interface são uma gota no oceano, levando em conta o tamanho do setor; os resíduos da indústria como um todo continuam crescendo.



Essa consciência não é apenas para companhias que têm mentalidade avançada quanto ao corte de emissões. A colaboração também pode ajudar companhias que estão apenas começando a lidar com esses temas e até mesmo as indústrias relativamente "sujas".

"Não temos vergonha de aprender. Estamos muito atrás no que diz respeito à redução de emissões", diz J.J. Irani, diretor do conglomerado indiano Tata Sons.

Entre as mais de cem companhias que possui, o grupo Tata concentra sua atenção nas cinco que mais poluem; atividades como produção de aço, geração de energia e fabricação de carros respondem por mais de 80% das emissões do grupo. "O truque é encontrar uma solução de negócios ao mesmo tempo que se protege o meio ambiente", diz Irani, que esteve na Europa na semana passada discutindo o assunto com companhias como a Ikea, Siemens e Standard Chartered.

Bjelland acredita que há quatro coisas que os líderes empresariais precisam considerar para conseguir a redução de emissões. A primeira é simplesmente compreender a mudança da ciência e políticas da mudança climática e comunicar isso à companhia. Em segundo lugar, e talvez mais importante, as companhias devem incorporar a mudança climática em suas estratégias e possivelmente até adaptar modelos de negócios como consequência.

Um exemplo é a Interface, uma companhia de tapetes dos EUA, que em meados dos anos 90 repensou seu modelo de negócios completamente e nesse processo cortou em muito os custos com material, além de resíduos e emissões e aumentou o lucro. Em vez de vender carpetes, ela os arrenda, remendando apenas as partes que estão gastas.

As companhias também estão vendo a vantagem de marketing que vem do fato de se concentrarem em produtos ecologicamente corretos. O projeto Ecomagination da General Electric foi muito bem sucedido. Mas a Siemens, rival da GE, ficou surpresa ao descobrir que seus produtos "verdes" - desenvolvidos sem nenhuma iniciativa ampla - somaram no ano passado quase o dobro dos da GE em dólares.

"Os grupos alemães falharam no marketing", admite o diretor executivo Peter Löscher, apontando que os fabricantes de carros alemães foram ultrapassadas pelos japoneses nos carros híbridos. A Siemens espera atingir € 25 bilhões em vendas verdes até 2011, a GE espera US$
25 bilhões até o ano que vem, e a menor concorrente holandesa Philips almeja chegar aos € 10 bilhões em 2012.

Para alguns, parte da resposta está na cooperação, quer informal ou através de um grupo como o GLTE, para melhorar a sustentabilidade na cadeia de fornecimento. A Tata está discutindo com a Wilh. Wilhelmsen como ambos podem reduzir as emissões - e também os custos - no transporte de carros ao redor do mundo.

Skaug aponta para possibilidades simples, como usar mais rotas eficientes, diminuir a frequência das entregas e simplesmente navegar mais devagar. "É um tema que está varrendo o mundo dos negócios: o negócio cooperativo. Duas pessoas pensam melhor do que uma", diz ele.

Irani concorda: "É uma questão de não tentar reiventar a roda. Se outros já percorreram o caminho, podemos aprender com eles".

A colaboração levou a algumas transferências de conhecimento improváveis. A Wilh. Wilhelmsen falou com a GE a respeito de um desenho de motor para ver se algumas de suas inovações poderiam ser usadas nos navios, enquanto seu sistema de limpeza da água de lastro foi desenvolvido por um grupo de engenheiros da África do Sul depois que eles descobriram o interesse da companhia norueguesa pelo assunto.

A terceira sugestão feita por Bjelland é para que os líderes abracem as mudanças e as usem não apenas internamente mas também em seus negócios com agências reguladoras, clientes e fornecedores. Decisões que parecem mundanas - como a reforma da sede do Deutsche Bank em Frankfurt - podem se transformar numa oportunidade de melhorar a eficiência energética ou cortar gastos. Na Siemens, Löscher diz que parte de seu papel é apenas fazer com que o conglomerado veja o quanto já estava fazendo sem saber, e então tentar incentivar isso mais ainda.

Irani diz que os líderes deveriam ter um senso de urgência. A Tata criou um grupo central de seis pessoas para trabalhar na redução de emissões para coordenar cerca de 100 funcionários dedicados exclusivamente ao assunto em todas as suas companhias. "80% da geração de energia na Índia vem do carvão - que tio de soluções existem para isso? É um desafio muito importante para nós", diz ele.

A quarta área é criar projetos concretos. Muitos deles são de longo prazo, como um estudo da General Motors e da Gazprom para pesquisar qual seria a infraestrutura necessária para os carros que funcionam com combustíveis alternativos. Da mesma forma, as companhias de transporte marítimo estão pesquisando ideias como células de combustível, energia solar ou eólica para propulsionar os navios, apesar de muitos continuarem céticos.

Outras ideias parecem mais tangíveis, como as negociações entre a Wilh. Wilhelmen e a Mitsubishi Heavy Industries sobre o futuro desenho de navios de acordo com o alargamento do Canal do Panamá. "Poderemos desenvolver navios completamente diferentes: mais largos e menos profundos, o que significa uma maior eficiência e menos queima de combustível", diz Skaug.

Bjelland soa definitivamente catequizador: "É um momento de renovação com novas tecnologias e modelos de negócios. Pode ser uma época de pioneirismo".

Tradução: Eloise De Vylder

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