Atraso provoca perguntas sobre reação à gripe

Andrew Jack
Em Londres

Adam Thomson
Na Cidade do México

Autoridades de saúde latino-americanas e internacionais foram alertadas sobre o surto de gripe suína no México pelo menos duas semanas antes de terem dado o alarme publicamente, despertando perguntas sobre se poderiam ter feito mais para evitar a disseminação da infecção pelo mundo.

A Veratect, uma consultoria americana que monitora notícias, blogs e outras informações na Internet, confirmou ontem que a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) tinha acessado seus relatórios online de advertência sobre um surto no México em 10 de abril, mas nenhum alerta público foi emitido até 23 de abril.

As datas salientam aparentes fraquezas na coleta e divulgação de dados, apesar de um substancial aumento internacional dos esforços nos últimos anos para preparar-se para uma pandemia.

Os atrasos foram revelados enquanto cientistas tentam compreender a origem e a natureza do vírus H1N1 no México, com a atenção concentrada em granjas de porcos ao redor de La Gloria, uma pequena comunidade de 3 mil pessoas no estado de Veracruz, no leste do México, onde José Ángel Córdova, o ministro da Saúde do país, diz que ocorreu o primeiro caso conhecido.

Moradores da região, que também é uma área de alta migração para e dos EUA, há muito se queixam do ar poluído e de fezes no suprimento de água, e a mídia local relatou um grande surto de sintomas semelhantes aos da gripe ainda em fevereiro, sem uma reação das autoridades até a última semana de março.

No entanto, nenhuma infecção foi identificada nos porcos locais, e Edgar Hernández, de 5 anos, é até agora o único caso confirmado da gripe suína na comunidade.

Córdova disse na terça-feira: "Onde ela começou? Vai ser muito difícil descobrir. Quem a trouxe para cá? Quem sabe?"

As advertências da Veratect ocorreram muito antes da primeira admissão pública dos surtos de gripe suína no final da semana passada, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS), à qual a Opas é afiliada, a Organização de Alimentos e Agricultura (FAO) em Roma e outros órgãos internacionais começaram as operações de emergência.

Quando uma extensa operação internacional foi montada para identificar e analisar o vírus, já era tarde demais para tentar contê-lo, obrigando a abandonar antigos planos para tentar conter sua disseminação com tratamentos e apoio. Os atrasos deixaram muitos governos esforçando-se para lançar medidas de saúde pública mais agressivas.

Bob Hart, executivo chefe da Veratect, sediada em Seattle, disse ao "Financial Times" que sua empresa relatou em 30 de março para seus clientes - que incluem a OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), assim como governos, empresas e organizações sem fins lucrativos - o internamento hospitalar em 22 de março no Canadá de um advogado com uma doença respiratória depois de voltar do México. Em 10 e 11 de abril a Opas consultou suas reportagens da mídia mexicana sobre um surto em La Gloria.

Hart disse: "Nosso desafio é que as entidades de saúde pública são tradicionalmente subfinanciadas e ninguém se importa com isso até que alguma coisa acontece". Ele rejeitou críticas do ministro da Saúde do México de que a Veratect não notificou diretamente o governo, salientando que ele tinha fornecido a informação à Opas.

A OMS disse que a primeira notificação que recebeu sobre o surto foi em 16 de abril, através da Opas, que tinha sido informada pelo México. Dois dias depois, em 18 de abril, ela recebeu do CDC a confirmação de casos na Califórnia.

Dick Thomson, um porta-voz do CDC, disse: "Eu acho que ninguém na saúde pública quer qualquer tipo de emergência global, e o México foi rapidamente transparente e agiu como um membro responsável da comunidade internacional. Se houver críticas, vamos examinar bem para ver se se justificam".

Cronograma

Fevereiro. Um oficial de saúde local na cidade mexicana de La Gloria, no estado de Veracruz, pede assistência devido a um surto de uma doença respiratória aguda.

2 de abril
Um menino de 4 anos em Veracruz adoece - seu teste dá positivo para o H1N1, o vírus da gripe suína, segundo José Ángel Córdova, o secretário da Saúde mexicano.

6 de abril
Autoridades de saúde locais declaram alerta em La Gloria. As autoridades registram 400 casos de pessoas que buscaram tratamento médico.

10-11 de abril
A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) consulta sobre uma advertência da consultoria Veratect baseada em reportagens da mídia mexicana sobre um "estranho" surto de doença respiratória aguda em La Gloria.

16 de abril
A Veratect envia um alerta ao Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA. O México alerta a Opas sobre um possível surto.

17 de abril
O CDC confirma os primeiros casos da doença nos EUA, no sul da Califórnia.

22 de abril
O Departamento de Saúde de Oaxaca, no México, indica que 16 funcionários de hospital têm doença respiratória.

24 de abril
O ministro da Saúde do México confirma 20 mortes pela gripe suína. A doença se espalha por pelo menos oito países e a Organização Mundial de Saúde eleva seu alerta de pandemia para Fase 4.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos