Gripe suína submete à prova os sistemas mundiais de enfrentamento de crises

Andrew Jack

O surto de gripe suína, assim como a crise econômica, está colocando à prova a fé de muitas pessoas em alguns poucos indivíduos. E, como o colapso do crédito, ele coloca os sistemas de crises globais no limite.

"Um acontecimento externo causa um impacto. O medo toma conta do sistema, que, como consequência, fica paralisado. O dano colateral resultante é amplo e profundo".

Uma descrição da pandemia de gripe suína que está por vir, ou os acontecimentos dos últimos 18 meses no mundo financeiro? Quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) elevou na noite da última quarta-feira o seu nível de alerta e instruiu os países de todo o mundo a "ativar imediatamente os seus planos de preparação para uma pandemia", após a disseminação de um agressivo vírus da gripe originário do México, paralelos intrigantes entre as maneiras de enfrentar a crise de saúde pública e o choque sofrido pelo sistema financeiro tornaram-se mais evidentes para autoridades e elaboradores de políticas.

As lições tiradas a partir dessas experiências poderão se mostrar críticas para o sucesso das medidas para minimizar o impacto da infecção pelo H1N1. As decisões tomadas nos próximos meses por agências internacionais, autoridades regionais, empregadores e indivíduos serão o primeiro "teste de estresse" real de uma, sem precedentes e ainda frágil, estrutura de preparação para o enfrentamento de pandemias que vem sendo montada desde o início desta década.

  • Thomas Lohnes/AFP

    Enfermeiro de hospital alemão usa proteção para atender possíveis infectados com gripe suína

Grande parte da arquitetura do sistema atual foi criada durante o surto de Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars), em 2003. Após aquele surto, surgiram rapidamente temores quanto à uma epidemia generalizada do vírus H5N1, da "gripe aviária". Os dois fatos contribuíram para um aumento drástico do financiamento em nível mundial dos preparativos para o enfrentamento de pandemias. Mas, a ausência de um surto imediato provocou na sociedade uma "fadiga da gripe". As preocupações públicas deram lugar a uma sensação de que havia preparativos suficientes e a impressão de que os alarmistas estavam apontando para um risco inexistente.

De forma similar, no mundo financeiro, a expansão econômica contínua gerou uma sensação de orgulho e autoconfiança que conspirou contra regulações mais rígidas.

E, em um outro vínculo, a própria crise financeira - e as tentativas de conter os gastos públicos antes mesmo do início do colapso do crédito no verão de 2007 - pode ter contribuído para reduzir os preparativos para fazer frente a uma pandemia e diminuir a capacidade de resposta dos sistemas de saúde. No Reino Unido, o ceticismo do Tesouro nos últimos dois anos resultou no adiamento da aquisição de reservas extras de drogas antivirais e antibióticos, fazendo com que nesta semana o governo se empenhasse freneticamente em encomendar novos suprimentos.

Olhando para o futuro, a pandemia poderá desacelerar ainda mais os fracos sinais de uma recuperação econômica global, à medida que a redução das viagens, a queda da produtividade no trabalho e o aumento dos custos da saúde agregam-se às pressões sobre as companhias, os consumidores e os mercados que já estão em dificuldades e que são profundamente sensíveis a impactos psicológicos.

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), advertiu na quinta-feira (30/04) que o impacto da pandemia poderá ser "bastante drástico" em alguns países.

Os funcionários e os sistemas internos do setor de serviços financeiros que encontra-se em crise serão diretamente afetados, proporcionando um teste para determinar se os preparativos para uma pandemia serão melhores do que a antecipação extremamente inadequada da crise econômica que eclodiu no outono passado.

O aumento da globalização que provocou nos últimos anos a expansão das finanças internacionais também ajudou a criar as condições para a pandemia. Por exemplo, o aumento das viagens aéreas contribuiu para disseminar amplamente a infecção para locais distantes, conforme se constatou com as primeiras eclosões do H1N1 fora do México: de um casal escocês em lua-de-mel a estudantes que retornavam para suas residências em Nova York e na Nova Zelândia.

A diferença entre a crise financeira e a pandemia de gripe suína é que, no caso da primeira - na ausência de uma organização internacional com poder de influir no mundo todo -, houve pouco planejamento para enfrentar uma grave recessão e as advertências mais alarmistas de uns poucos críticos foram desprezadas pela maioria.

Contrastando com isso, nos últimos anos vinha havendo um consenso geral na comunidade de saúde pública, coordenada pela OMS, de que uma pandemia era uma questão de "quando, e não de se", e foram implementados planos - embora de qualidade variável - para fazer frente a um evento tido como inevitável.

Teste triplo da OMS é o mais recente desafio para o sistema global de saúde

A resposta ao surto de gripe H1N1 que atualmente dissemina-se pelo globo a partir do México é um teste triplo ostensivo para uma diretora recém-empossada, um novo código de regras e uma instituição solidamente estabelecida.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), fundada há apenas pouco mais de 60 anos, esta é apenas a mais recente de uma série de contribuições importantes à saúde pública, que incluíram a erradicação da varíola, a criação da Convenção do Tabaco para impor medidas anti-fumo mais rígidas, e medidas para acelerar o tratamento de vítimas do HIV em todo o mundo em desenvolvimento.

Entre os desafios enfrentados pela instituição estão a política, a burocracia e várias campanhas fracassadas de saúde pública, incluindo uma tentativa de erradicar a malária e um esforço prolongado para combater a poliomielite, que continua incompleto.

Os seus preparativos para uma pandemia foram reforçados pela adoção das Regulamentações Internacionais de Saúde, em 2007, que teoricamente conferem a ela grandes poderes, incluindo certos direitos de interferir na soberania nacional para combater doenças.

Mas o maior teste talvez seja de caráter pessoal para Margaret Chan, a discreta funcionária pública criada em Hong Kong que assumiu o cargo de diretora-geral da OMS em 2006, após uma dura campanha eleitoral provocada pela morte súbita do seu predecessor. Ela precisa mobilizar a sua própria equipe e engajar-se em negociações delicadas com políticos importantes de todo o mundo a fim de trabalhar para o bem comum.

Por Gillian Tett
Agora, quando esses planos são ativados pela primeira vez em todo o mundo, a questão é saber até que ponto eles mostrar-se-ão eficientes, já que as respostas dos indivíduos e instituições, à medida que a ameaça da infecção começar a afetar a vida diária, são imprevisíveis.

Assim como o vírus da gripe encontra-se em processo constante de evolução genética, o setor de serviços financeiros também está inventando continuamente novos instrumentos. No setor de saúde também houve uma inovação frenética e complexa nos últimos anos, uma inovação pouco compreendida pela grande maioria da população, criando um abismo que separa o povo daquela pequena minoria que entende o que se passa. Isso exige uma fé considerável. Uma confiança que pode desmoronar rapidamente e gerar pânico quando a fé nesses poucos indivíduos entrar em colapso.

Conforme diz um especialista em finanças: "A maioria das pessoas não sabe como funciona a medicina moderna - toda essa história sobre DNA e o conteúdo das pílulas. Elas têm que confiar no seus médicos. Existem paralelos com o setor financeiro. Uma grande parcela deste setor baseia-se na confiança".

Os perigos dessa lacuna após a divulgação generalizada de informações não oficiais e antes de qualquer resposta oficial foram claramente demonstrados pela saga do banco Northern Rock, do Reino Unido. Um vazamento das notícias sobre os seus problemas, na BBC, em meados de setembro de 2007, pegou as autoridades desprevenidas. Elas não apresentaram nenhuma explicação convincente sobre a magnitude dos problemas, o que gerou uma corrida aos depósitos em conta.

Quando Sir Callum McCarthy, ex-diretor da agência de regulação financeira do Reino Unido, tentou dizer aos consumidores que todo pânico é "irracional", isso simplesmente gerou um medo maior. Quando o governo finalmente interveio, quatro dias depois, para oferecer garantias referentes aos depósitos, os clientes já haviam deixado de acreditar em quase tudo o que governo dizia, o que provocou um profundo cinismo em relação à saúde dos outros bancos, incluindo várias pequenas instituições britânicas.

Entre as lições aprendidas está a necessidade de reconhecer e responder ao fato de que a informação viaja à velocidade da luz em torno do mundo; e, na era da internet, garantias vagas de que as autoridades têm a situação sob controle não funcionam mais. "Cem anos atrás, a população ficaria tranquila após uma declaração solene do Banco da Inglaterra", afirma um regulador europeu. "Mas isso não surte mais resultados - as pessoas desejam provas. A mensagem precisa ser curta e clara. Os indivíduos desejam um website que possam acessar, bem como fatos concretos".

Refletindo a explosão das informações, um aspecto crítico dos preparativos para o enfrentamento de pandemias que se seguiram à Sars foi a adoção das Regulamentações Internacionais de Saúde. Isso, pela primeira vez, deu à OMS o poder de usar dados de fontes não oficiais que advertiam para uma potencial infecção em vez de confiarem nos seus Estados membros.

Indicações iniciais sugerem que a agência, bem como afiliadas regionais e autoridades nacionais de saúde, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, foram relativamente lentas para reagir, tendo coletado alertas sobre o surto, publicados pela mídia mexicana, alguns dias depois que o problema foi identificado por companhias especializadas em análises que soaram o alarme.

"A minha maior dúvida quanto à forma como as coisas se passaram diz respeito a vigilância e alerta", diz uma autoridade graduada do sistema britânico de resposta a pandemias, que acrescenta que a resposta no Reino Unido foi desencadeada pelo fato de o próprio país ter observado a atividade do Centro de Controle de Doenças, e não por qualquer notificação formal da OMS. "Se tivéssemos à nossa disposição pelo menos duas semanas de alerta antecipado, poderíamos ter implementado medidas melhores no sentido de conter a infecção, e contaríamos com mais tempo para distribuir medicamentos".

Ao escrever nesta semana sobre as similaridades "impressionantes" entre o surto de Sars em 2003 e o colapso do Lehman Brothers, Andrew Halden, do Banco da Inglaterra, e autor do cenário apresentado no início deste artigo, observa que um "evento desencadeador" modesto é amplificado por um frenesi da mídia que transcende fronteiras. As similaridades entre a crise da saúde pública e a do setor financeiro "não são coincidências", já que ambas são "manifestações do comportamento sob estresse de uma rede complexa de adaptação".

Até o momento, enquanto procura atender à enorme demanda por parte da mídia, a OMS tem fornecido atualizações periódicas, embora os dados no website da organização pareçam ser frequentemente modestos e desatualizados.

Nestes momentos iniciais do problema, a reação popular ao H1N1 em todo o mundo parece ser tranquila, apesar de relatos, sem fundamento, da aquisição em massa de máscaras movida pelo pânico e de tentativas de obtenção de drogas antivirais. Existe o perigo de que tais padrões intensifiquem-se à medida que o vírus se dissemine.

O mais preocupante são as rachaduras que surgem nos frágeis mecanismos de solidariedade entre governos. Assim como houve discórdia quanto aos estímulos fiscais e medidas para a regulação financeira internacional após o início da crise, também há divergência quanto à maneira de responder à pandemia.

Antes mesmo de a OMS ter avisado nesta semana que é inútil restringir as viagens, muitos países estão impondo uma série de medidas que consistem precisamente nisso. Alguns países, como o Egito, afastaram-se ainda mais da ciência, ordenando a eliminação de suínos, apesar de não haver evidências de que estes representem um risco de disseminação da doença.

À medida que a pandemia avança, haverá um potencial bem maior para discórdias quanto a políticas nacionais diferentes para a produção de vacinas, armazenagem e distribuição de medicamentos, fornecimento de tratamento médico, e assim por diante.

Por ora, a resposta à gripe suína tem saído basicamente conforme o planejado, e parece ser mais tranquila do que a resposta à crise financeira. Mas isso é apenas o início. Conforme Angus Nicoll, do Centro Europeu para a Prevenção e o Controle de Doenças, afirma: "No caso da gripe, é necessário fazer planos para o pior, preparar-se para o pior e torcer pelo melhor". Os planos mais elaborados e mais racionais para o enfrentamento da pandemia - assim como também ocorre no setor financeiro - baseiam-se em uma boa dose de confiança.

Entre os principais componentes do papel da OMS no combate à epidemia de gripe suína estão:

Acompanhar a propagação do vírus e avaliar o seu risco.

Mobilizar os países para que façam planos e reajam.

Elaborar medidas de saúde pública como resposta.

Coordenar o desenvolvimento de vacinas contra a gripe.

Formular diretrizes de tratamento médico.

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