Max Mosley confia que teto orçamentário da F1 veio para ficar

James Allen e Roger Blitz

Max Mosley, o controverso presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), descreveu na sexta-feira (1) seu anúncio de um teto orçamentário de 40 milhões de libras para a Fórmula 1, a partir da próxima temporada, como sendo "de longe, o maior desenvolvimento no esporte no meu tempo".

Primeiro como construtor desde 1969, depois como presidente da FIA desde 1991, ele argumenta há algum tempo que a F1 tinha chegado a um momento crítico, dizendo que os custos das equipes - algumas gastando mais de 200 milhões de libras por temporada - eram insustentáveis.

O arrocho do crédito e a saída da Honda, a fabricante de carros japonesa, em dezembro provocaram o temor de que mais equipes poderiam fazer o mesmo.

Para Mosley, as ideias para redução de custos apresentadas pelas próprias equipes nem iam longe o bastante e nem encorajavam a engenharia inovadora para benefício a longo prazo da indústria automobilística.

A proposta de teto orçamentário, anunciada na quinta-feira, agrada as cinco equipes independentes, incluindo a Williams e a atual líder do campeonato, a BrawnGP, e aumenta a probabilidade da entrada de novas equipes.

Entretanto, ela ultrajou as cinco equipes de fabricantes, nenhuma mais do que a Ferrari, cujo envolvimento de 60 anos no esporte pode estar ameaçado.

Em um almoço com o "FT" em Londres, Mosley, que sobreviveu aos esforços para tirá-lo do cargo devido a revelações sobre sua vida privada, reconheceu que a Ferrari poderia liderar algumas das equipes em uma guerra plena contra a FIA, ameaçando perturbar o calendário de provas da F1.

Mas muitos no esporte sabem que Mosley não teria anunciado o que representa uma revolução na F1 se não estivesse extremamente confiante de que será adotada.

"Nós temos muito pouco espaço para negociar", ele disse, "mas a mensagem que estou recebendo do conselho diretor de dois ou três fabricantes é: "Se você conseguir que o cheque que preencheremos não passe de mais de 25 milhões de euros (22,3 milhões de libras), você pode considerar permanente este arranjo".

Nos últimos anos, as equipes apoiadas por fabricantes, como a Honda, BMW, Toyota, Mercedes e Renault, alimentaram uma corrida armamentista de custos para ganhar vantagem competitiva nas pistas. Mas segundo Mosley, a recessão econômica está levando os conselhos diretores a adotarem uma visão diferente.

"Nós temos contatos nos conselhos diretores, não apenas com as equipes. As equipes manipulam os conselhos. O presidente-executivo não tem tempo, conhecimento ou perícia para questioná-las. Mas agora, como estão todos com falta de dinheiro, despejar dezenas de milhões na F1 é inaceitável."

A F1 se beneficia da quantia de dinheiro que atrai, mas de certa forma ela sofre, como reconheceu Mosley, e isso em parte é responsabilidade da FIA.

"É nossa culpa ter permitido que o esporte se desenvolvesse de forma que o progresso passou a se dar por meio do refinamento em vez da inovação", ele disse. A F1 deve continuar atraindo dinheiro, ele disse, "mas devemos planejar para a possibilidade de que não atraia".

Ele também concordou que o teto orçamentário, restrito apenas ao desenvolvimento dos carros, pode levar a mais dinheiro para as mãos dos pilotos já bem pagos. O carro é "provavelmente mais importante do que o piloto", ele alegou, de forma que se as equipes têm uma maior liberdade técnica, "talvez o piloto deixe de ser tão vital".

O teto orçamentário poderá ser introduzido em um momento de crise na indústria automobilística e no setor financeiro, os grandes financiadores do esporte, mas Mosley diz com firmeza de que esta não é uma solução rápida temporária.

"Eu acredito que o teto de custo veio para ficar", ele disse.

"Há espaço para discussão, ele pode subir ou descer em 2011, e se a economia se recuperar, digamos em 2014, então poderá subir. Você pode ajustar o teto de acordo com os interesses do esporte, mas teremos todos em um campo nivelado."

"O arrocho do crédito ainda não atingiu a F1. Obviamente nós perdemos a Honda, mas o verdadeiro arrocho virá quando os atuais contratos (de patrocínio) precisarem ser renovados."

"No momento, você vê grandes patrocinadores como ING, RBS, Allianz, mas eles não estariam aqui neste ano se não estivessem presos a contratos."

"Esses contratos foram assinados antes dos preços de suas ações despencarem. Eu acredito que a FOM (Formula One Management, a detentora dos direitos comerciais da F1) não conseguirá dar às equipes tanto dinheiro quanto têm agora."

Uma das principais objeções da Ferrari ao teto orçamentário é o fato da FIA ser incapaz de policiá-lo com sua equipe de peritos.

A Ferrari acredita que as equipes encontrarão modos de trapacear o sistema e duvida da capacidade da FIA de assegurar um campo nivelado.

Mosley reconheceu que o teto orçamentário pode não ser perfeito, que "haverá áreas cinzentas". Mas a FIA fará o melhor que puder para policiar o teto orçamentário tanto quanto a Receita fiscaliza a sonegação fiscal, ele disse.

"A Receita não tem como colocar um fiscal em cada empresa de forma permanente. Nós podemos, nós podemos colocar vários. A dificuldade e o risco de trapacear serão enormes. Se tivermos a menor suspeita de que alguém está trapaceando, nós enviaremos uma equipe para checar. Isso faz parte do acordo."

Mosley continua dizendo que ainda não sabe se disputará a reeleição para presidente da FIA neste ano, apesar de, ao mesmo tempo, dar a impressão de que irá.

Ele não tem dúvida de que a CVC, a empresa de capital de risco que é dona da FOM e dirige a F1 com o diretor comercial Bernie Ecclestone, continuará a fazê-lo.

"Eu acho que provavelmente permanecerá por longo prazo. As pessoas ficam especulando que ela venderá, mas não acho que o farão."

Uma questão de legado
Roger Blitz
Ao ser perguntado sobre qual acha que será seu legado, Max Mosley, 69 anos, deu de ombros. "Temo saber pelo que serei lembrado - o 'News of the World'", ele brincou. "Mas não é verdade", ele acrescentou rapidamente.

As pessoas conhecem Max Mosley por três motivos. Por ser filho de Oswald Mosley, o líder da União Britânica de Fascistas nos anos 30. Por ter dominado a política do esporte a motor e da F1 por quase 20 anos. E por sua vida privada ter se tornado o centro das atenções no ano passado, quando o jornal dominical publicou alegações de que ele tinha participado de uma orgia com temática nazista.

Mosley recebeu 60 mil libras em indenização pela Justiça em um caso de privacidade. Mais importante foi ter conseguido salvar sua reputação, cujo dano ameaçava sua continuidade como presidente da FIA.

As alegações lhe renderam amigos e inimigos. "Isso afastou muitas pessoas. Quando algo assim acontece, você descobre quem são seus amigos. O que me surpreendeu foi quanto as pessoas me apoiaram. As pessoas me abordavam na rua. Sem dúvida havia um sentimento de que não podiam ter feito aquilo comigo. Mas na comunidade do esporte a motor, a maioria tratou aquilo como piada."

Ele disse que gostaria de ser lembrado por sua contribuição para a segurança nas estradas. Mas ele disse: "O foco é todo na F1".


Tradução: George El Khouri Andolfato

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