Suspense em Mumbai rivaliza com filmes de Bollywood

Joe Leahy e James Lamont

Os acontecimentos desta semana em Mumbai poderiam rivalizar com a trama do vencedor do Prêmio Booker "O Tigre Branco" ou o vencedor do Oscar "Quem Quer Ser um Milionário?".

Um sabotador supostamente não-identificado tenta tirar a vida de um dos mais conhecidos magnatas da Índia, Anil Ambani, despejando cascalho no tanque de combustível de seu helicóptero. Alguns dias depois, o homem que descobriu o crime, o mecânico do helicóptero, aparece morto nos trilhos de uma estrada de ferro.

Representações da Índia moderna ganharam prêmios no exterior por mostrar as entranhas das duas principais cidades do país e suas sociedades impiedosas, apesar de terem atraído animosidade na Índia por azedar a imagem do país como campeão econômico emergente.

"O Tigre Branco", de Aravind Adiga, revela as grandes desigualdades das pujantes cidades indianas, retratando Nova Déli como um lugar brutal e corrupto, dos que têm tudo ou não têm nada. Em seu centro está um assassinato: um motorista mata seu rico patrão e rouba seu dinheiro para iniciar uma empresa de táxis.

De maneira semelhante, "Quem Quer Ser um Milionário?" revela o ventre de Mumbai, a "Cidade Máxima" da Índia, onde as crianças que crescem nas favelas às vezes são presa de "donos de mendigos" e gângsteres. Como descobre seu protagonista, Jamal Malik - um adolescente pobre que participa do concurso "Quem Quer Ser um Milionário?" -, a prosperidade é uma chance em um milhão.

Mas o verdadeiro suspense de Mumbai esta semana vai arrepiar os pelos da nuca de muitos líderes empresariais em todo o mundo. Na véspera do dia em que Ambani deveria pegar um helicóptero Bell 412 de sua companhia, a Reliance ADA Group, até sua sede corporativa na periferia de Mumbai, o mecânico da aeronave, Bharat Bhorge, percebeu que a tampa do tanque estava aberta.

Quando examinou melhor, o atento Bhorge percebeu que alguém havia colocado cascalho em uma tubulação que vai até a transmissão, o que poderia ter causado a queda da aeronave.

O piloto de Ambani, um funcionário da Reliance ADA, fez então uma queixa na polícia com a surpreendente alegação de que empresários rivais poderiam querer matar o magnata.

A trama se adensou alguns dias depois, quando Bhorge, um funcionário da empresa de manutenção de aeronaves Air Works, foi encontrado morto por diversos ferimentos depois de ser atingido por um trem.

As autoridades rapidamente consideraram sua morte um suicídio. Mas parentes irados pediram um inquérito da polícia federal da Índia, o "Central Bureau of Investigation". A suposta tentativa de sabotagem capturou a imaginação dos tabloides indianos por causa da reputação do clã empresarial Ambani.

Amil e seu irmão mais velho, Mukesh, são filhos do falecido Dhirubhai Ambani, um dos mais bem-sucedidos industriais da Índia. Mukesh é hoje o indiano mais rico residente no país, com um valor líquido de US$ 20,8 bilhões, enquanto Anil é o segundo mais rico, com US$ 12,5 bilhões, segundo a revista "Forbes".

Enquanto Mumbai ficou transfixada pelo caso do helicóptero, poucos moradores estão surpresos com a natureza obscura do episódio. Mumbai é uma cidade onde a realidade é difícil de se definir. Metade de sua população de 18 milhões vive em favelas vizinhas dos bilionários e astros do cinema de Bollywood.

O irmão de Anil, Mukesh, está construindo a mais alta residência familiar do mundo - um arranha-céu de US$ 1 bilhão equivalente a 60 andares de altura, no lugar de um antigo orfanato no sul de Mumbai.

Em novembro, a cidade assistiu com horror quando dez terroristas paquistaneses conseguiram fazer a capital financeira da Índia parar durante quase três dias. Diversos fracassos do governo contribuíram para o desastre. Houve alguns protestos, mas não significaram muito.

A participação dos eleitores em Mumbai durante a eleição nacional esta semana foi de apenas 44%. Os jornais castigaram Mumbai por sua apatia. "Cidade máxima, votos mínimos", escreveu o "Times of India", enquanto o jornal "Hindustan Times" publicou o título: "Tudo conversa, nada de votos".

Mas a população de Mumbai conhece essa música. Muitos dos políticos que participam das eleições têm casos criminosos pendentes. Com a corrupção tão generalizada, continua sendo cada um por si.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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