Energia verde na Itália está emaranhada em uma rede de negócios duvidosos

Guy Dinmore

Como se fossem gigantescas sentinelas, dezenas de turbinas eólicas espalham-se pelas montanhas próximas a Corleone, o infame bastião da Máfia na Sicília. Mas, apesar da forte brisa que agita as folhas das oliveiras e figueiras, os enormes hélices das turbinas estão parados há mais de um ano.

A oeste dali, perto do porto de Trapani e da antiga cidade de Salemi, situada no topo de uma montanha, outras duas usinas eólicas também encontram-se paradas.

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Magistrados que combatem a Máfia na Sicília, e que estão procurando determinar qual foi a última iniciativa do crime organizado para ingressar em atividades empresariais comuns, investigam quem aprovou, construiu e vendeu esses projetos de energia renovável, que foram desenvolvidos com subsídios públicos.

Conforme diz uma autoridade: "A Sicília foi abençoada com o sol e o vento, mas ela foi também amaldiçoada com a Máfia".

As multinacionais estão começando a descobrir algo que é bem conhecido pelos investidores italianos: que por trás do mais generoso sistema de incentivos da Europa - apoiado pelos "créditos verdes" que as poluidoras industriais precisam comprar - há uma rede de corrupção e negócios duvidosos.

Rossana Interlandi, que foi recentemente nomeada diretora do Departamento do Meio Ambiente da Sicília, explica que os indivíduos responsáveis pelos projetos - indivíduos que ela chama de especuladores - foram também atraídos por uma lei que obriga a operadora nacional de energia elétrica da Itália a pagar os proprietários de usinas eólicas, mesmo quando estes não estejam produzindo eletricidade.

As autoridades afirmam que algumas usinas eólicas não estão fornecendo energia porque certas operadoras estão aguardando até que sejam conectadas à rede, além de esperarem a renovação do sistema de cabos elétricos que liga a Sicília ao continente.
Apesar da grande quantidade de projetos no sul da Itália, o país não ocupa uma posição elevada na lista dos produtores europeus de eletricidade a partir da energia eólica. Segundo a Agência Internacional de Energia a energia eólica na Itália gerou apenas 1,2% da eletricidade do país em 2007, comparado a quase 20% na Dinamarca e a 9,8% na Espanha.

Algumas usinas eólicas na Sicília foram mal construídas, como uma localizada na área de Corleone, e que um empresário afirma estar financiando.

Segundo Interlandi, há 30 usinas eólicas na Sicília (embora os empresários digam que o número seja maior), produzindo um total de 600 megawatts. Outras 60 usinas eólicas foram aprovadas para a produção de 1.800 megawatts adicionais, e houve pedidos de aprovação de 226 projetos, que, de acordo com Interlandi, não serão aceitos.

"Basta!", exclama Interlandi. "Muitos especuladores ganham dinheiro pelas costas do governo". Há também um movimento crescente de cidadãos e prefeitos locais que se opõem àquilo que veem como uma destruição das paisagens magníficas da Sicília.

Na verdade, o congelamento de novos projetos foi instituído no governo anterior de Salvatore Cuffaro, o ex-governador regional que deixou o cargo um ano atrás para concorrer a uma cadeira de senador no parlamento nacional.

Apenas duas semanas antes Cuffaro havia sido condenado por um tribunal de Palermo por ter ajudado a Máfia em um episódio que envolvia o setor de saúde pública. A pena foi de cinco anos de prisão. Cuffaro, atualmente senador, recorreu e o seu caso será avaliado neste mês.

O impacto imediato do congelamento foi o aumento drástico do valor dos projetos já aprovados.

Quando lhe perguntam quem conseguiu obter as tão cobiçadas licenças, Interlandi aponta para Vito Nicastri, um empreiteiro siciliano conhecido como "o senhor dos ventos" na mídia local, e afirma que ele foi o mais bem sucedido nesse esquema.

O "Financial Times" descobriu Nicastri trabalhando na sede da sua empresa, a Eoli Costruzioni, perto do cemitério na periferia de Alcamo, uma cidade pitoresca nas montanhas, fundada pelos conquistadores árabes no século nove.

Tomando um café, Nicastri confirma ter sido o responsável pela construção da "maioria" das usinas eólicas da Sicília, conseguindo terrenos, financiamentos e licenças. Depois disso ele vendeu os projetos de construção à IVPC, uma companhia administrada por Oreste Vigorito, que também é presidente da associação de energia eólica da Itália.

Nicastri conta que trabalhou em projetos que resultaram na construção de usinas eólicas para a International Power (IP), do Reino Unido; a Falck Renewables, a subsidiária londrina do Falck Group, com sede em Milão; a IVPC; e a Veronagest, uma outra companhia italiana.

"Não sou uma prostituta de todos. Há outras prostitutas para os outros", diz Nicastri rindo, ao mencionar outras multinacionais que possuem empresas do setor eólico na Sicília.

Nicastri foi citado, mas não denunciado, em um documento de tribunal, de 530 páginas, visto pelo "Financial Times", que resultou em fevereiro último na prisão de oito pessoas - autoridades locais, empresários e um suposto chefão da Máfia , todos acusados de corrupção em um projeto de usinas eólicas. Ao grampearem o telefone de uma autoridade local, os investigadores interceptaram ligações para Nicastri.

Nicastri reconhece que houve a investigação e que há a possibilidade de ser novamente investigado, mas nega ter feito algo de errado.

"Você acha que eles prenderiam um homem honesto? Bem, estou sentado aqui agora, conversando com você", diz ele. "Somos uma companhia saudável de cem funcionários", acrescenta ele.

A IP tornou-se a maior empresa de energia eólica da Itália, após ter comprado a maior parte das usinas eólicas italianas pertencentes à Maestrale, incluindo cinco na Sicília, por 1,8 bilhão de euros, da Trinergi, uma companha irlandesa, que as havia adquirido anteriormente da IVPC.

A IP diz estar ciente das investigações na Sicília, e acrescenta: "Mas não temos informações de que as atuais investigações realizadas pelos promotores que combatem a Máfia, estejam, em qualquer grau, vinculadas aos nossos projetos de usinas eólicas".

A IP informa que sabia que Nicastri era o empreiteiro encarregado do projeto, mas diz que não tinha qualquer relação com ele.

Para Nicastri e outros empreiteiros sicilianos a energia eólica está atualmente ultrapassada, já que o mercado está praticamente saturado de grandes projetos nesse setor. Segundo eles, o futuro está na energia solar. Nicastri está solicitando licenças para a construção de nove grandes usinas de energia solar.

Porém, o governo regional, sob Raffaele Lombardo, promove atualmente micro-projetos para os cinco milhões de habitantes da Sicília, de forma que domicílios individuais e companhias sejam capazes de gerar a sua própria eletricidade a partir da energia eólica e solar. Parte da lógica por trás dessa estratégia é minimizar o envolvimento da Máfia.


Tradução: UOL

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