A elite do rap da Nigéria imita seus ídolos americanos

Matthew Green Em Lagos

É sábado à noite no Jade Palace em Lagos, e Killz, um dos artistas de hip hop mais badalados da Nigéria, sai de uma nuvem de gelo seco e luzes de discoteca para lançar sua nova música, "Shoobeedoo".

Com a cabeça raspada, usando um terno de corte francês feito sob medida com lapelas de cashmere e muita atitude, o aspirante a empresário poderia ser perdoado por pensar que ele já está levando o estilo de vida de uma estrela do rap americano.

No bar, homens preferem o visual clássico do gangsta-rapper americano: óculos escuros de marca, grandes demais, usados à noite. Baldes de gelo que chacoalham com garrafas de champanhe Veuve Clicquot, tão adoradas pela elite de Lagos, garantem que o show preserve pelo menos uma pitada de sabor nigeriano.

Organizada para lançar seu novo álbum, "Life & Times of Killz: Volume I", a festa foi uma amostra da tendência que varre a África subsaariana: uma fome crescente por uma versão local do hip hop e da música R&B que define a cultura jovem no Ocidente.

Esse fenômeno é de longe mais aparente na nação mais populosa do continente, onde o poder de estrelato de artistas como D'Banj, 2Face e P-Square cresceu paralelamente ao gradual ressurgimento da outrora vibrante classe média nigeriana.

Esse núcleo de jovens profissionais já é visto como um mercado lucrativo para produtos que vão desde serviços financeiros até bens de consumo e telecomunicações. A mania por hip hop nacional sugere que será uma boa ideia para investidores rotularem seus produtos de forma que reconheçam a força da nova cultura pop em "Naija" - gíria jovem para Nigeria.

"Estamos vivendo um renascimento da identidade nigeriana", diz Obi Asika, presidente da Storm 360, um provedor de conteúdo de mídia que promove Killz.

"Qualquer investidor que queira vir para a Nigéria deve entender isso, se eles quiserem vender produtos e se comunicar com os nigerianos".

Uma queda nos preços do petróleo nigeriano seguindo a retração econômica global e uma prolongada baixa do mercado na bolsa de valores do país, juntamente com o ritmo lento da reforma econômica sob o governo do presidente Umaru Yar'Adua, sugere que o novo grupo de lagosianos mais ricos pode enfrentar tempos difíceis. Em um país onde a maioria das pessoas vive na pobreza, os ganhos de uns poucos podem perder importância diante da pobreza sofrida por muitos.

A longo prazo, no entanto, indícios casuais sugerem que mais nigerianos começarão a adotar o tipo de cultura de consumo globalizada dominante nos EUA e na Europa.

Como Killz coloca em "Shoobeedoo": "Sei que dizem que as melhores coisas da vida são de graça. Mas o dinheiro te leva a lugares que eu sei que você quer ver".

Cadeias de fast-food proliferaram por aqui. UAC Nigeria, um conglomerado de alimentos, imóveis e logística, diz que o número de balcões de atendimento, incluindo a franquia do Chicken Inn, subiu de 150, em 2004, para cerca de 230. Promasidor, o grupo alimentício, diz que a proporção de suas vendas compostas pelas grandes latas de leite em pó preferido pelas famílias ricas aumentou consideravelmente. A pequena classe média também está aumentando a demanda por conteúdo de mídia nigeriana. HiTV, uma empresa de televisão por satélite nigeriana, invadiu um mercado dominado pela DSTV da África do Sul, em parte com a ajuda de seu canal de música nigeriana, "Nigezie". A Screen Digest diz que um período de rápido crescimento assistiu subirem para 430 mil, no final de 2008, o número de lares nigerianos que adquirem conteúdo pago de televisão. Algumas das maiores empresas da Nigéria estão descobrindo que a nova cultura hip-hop é um canal especialmente eficiente para visar as telecomunicações e setores de bebidas, que crescem rapidamente. Em um país onde cerca de 45% da população tem menos de 15 anos de idade, os adolescentes de hoje serão os compradores de amanhã. Asika estima em até US$ 100 milhões o gasto anual potencial das empresas da Nigéria com patrocínios, eventos e programas de televisão relacionados à música.

Talvez o exemplo mais notável seja um acordo assinado por D'Banj, uma das celebridades musicais mais conhecidas da Nigéria, para promover a Globacom, uma operadora de telefonia celular ansiosa para enfatizar suas raízes nigerianas, em contraste com sua principal concorrente, a MTN da África do Sul.

O apelo de D'Banji e outros artistas reside, em parte, nas suas habilidades em casar o som de uma cena do rap que se originou em Nova York e Los Angeles com uma linguagem que repercute em Lagos. "Deixe eu ser seu semovita", Killz implora para uma mulher em "Shoobeedoo", comparando-se com o alimento básico nigeriano feito de farinha de trigo e milho.

A ironia é que, apesar de todo esse clima nigeriano, muitos dos artistas veem sua terra natal como um trampolim para a fama nos EUA. Killz, cujo nome verdadeiro é Ikechukwu Onunaku, atravessa a cidade em um Range Rover preto com KILLZ escrito na placa.

"Se você não é grande nos Estados Unidos, você não é grande", ele diz, passando por um buraco ou outro na rua. "O que estou fazendo é promover a Nigéria".

Tradução: Lana Lim

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