Eleições na Índia darão poder de influência a líderes regionais

James Lamont

Políticos da maior democracia do mundo estão prontos para uma onda frenética de criação de coalizões, após uma eleição que provavelmente dará poder de influência a líderes regionais, à medida que diminuiu a influência do eixo tradicional de poder em Nova Déli


No Estado mais pobre da Índia, a doação de bicicletas a alunas das escolas primária e secundária rende votos. Prometer transformar subsídios em pagamentos com dinheiro vivo e criar empregos que não sejam do setor agrícola também é uma garantia de apoio do eleitor.

Em um comício no calor do meio da tarde, Nitish Kumar, ministro-chefe de Bihar, tem uma mensagem final para a plateia. Ele diz às mulheres da multidão que elas não devem alimentar os homens a não ser que eles tenham votado. Os homens riem; as mulheres permanecem estranhamente silenciosas, em uma região onde a desnutrição e a mortalidade infantil são altas.

Bihar, o subdesenvolvido "cinturão da vaca" da Índia, tem pouca semelhança com a "maravilha de rápido crescimento", conforme o secretário-geral do governista Partido do Congresso, Rahul Gandhi, chama o país. Muito pelo contrário, este Estado continua tendo uma economia agrária, fertilizada pelo Rio Ganges. Nesta região as vidas pouco mudaram no decorrer de gerações. No ano passado, quando o resto da Índia desfrutava dos últimos dias do boom econômico, Bihar sofria com enchentes devastadoras.

Os três anos de crescimento econômico de cerca de 9% obtido pela Índia sob o governo liderado pelo Partido do Congresso pouco beneficiaram Bihar. Centros de telemarketing, laboratórios e empresas terceirizadas de tecnologia da informação prosperaram em outros locais, obrigando os moradores de Bihar a trabalhar em cidades como Bombaim, Nova Déli ou Bangalore, caso quisessem participar da história de crescimento da Índia moderna.

"A minha única ambição é conseguir atender às aspirações do povo", diz Kumar, tendo ao fundo o barulho das hélices do seu helicóptero, a caminho do próximo comício. "Quero ver um Bihar próspero. Estou fazendo tudo o que está ao meu alcance. O trabalho já começou. Se eu tiver algum apoio do centro, isso poderá modificar Bihar".

A falta de vínculo com Nova Déli não é apenas econômica; ela é também política. Manmohan Singh, o primeiro-ministro, descreve a Índia como sendo "divisiva" e os líderes políticos do país, que exigem uma independência regional fortíssima, são exatamente isso. Esse fracionamento do cenário político na maior democracia do mundo, na qual o poder regional está se afirmando, será ressaltado neste final de semana, quando os resultados emergirem das eleições parlamentares que duraram um mês.

Ninguém espera que esta seja uma questão simples, Em um cenário que possui dezenas de partidos estabelecidos e incontáveis líderes carismáticos dotados de fortes bases locais de poder, os analistas políticos preveem um resultado confuso, que provavelmente resultará em uma instável coalizão governista em um momento de grande insegurança regional.

A atratividade e o alcance dos grandes partidos nacionais diminuíram muito nos últimos 30 anos. Quando Indira Gandhi foi primeira-ministra, nas décadas de 60 e 70, o Partido do Congresso, ao qual ela pertencia, era capaz de garantir a conquista de algo entre 300 a 400 das 543 cadeiras do parlamento. Mas hoje em dia, tanto o Partido do Congresso quanto o Partido Bharatiya Janata, a oposição nacionalista hindu, podem considerar-se fortes se conseguirem, cada um deles, mais de 150 cadeiras. Em nenhuma região o recuo do Partido do Congresso é mais pronunciado do que nos Estados de Bihar e Uttar Pradesh, ambos no norte do país. Das 120 cadeiras que esses Estados controlam, o Partido do Congresso obteve apenas 12 na eleição de 2004. No lugar dele surgiram novos partidos e políticos cuja ideologia é bem menos pan-indiana, e mais local, e muitas vezes comunal.

A ascensão desses partidos e políticos foi impulsionada por uma simpatia calcada no sistema de castas, na religião e nas questões locais referentes ao fornecimento de serviços em um país no qual a maior parte da população vive no campo. Atualmente é quase impossível pensar em um governo nacional sem esses novos focos de poder.

A formação do próximo governo nacional começará para valer na semana que vem, durante a barganha pós-eleitoral. Até o momento, a criação e o rompimento de alianças entre um punhado de personalidades dominaram a eleição, eclipsando o debate nacional a respeito do elevado preço dos alimentos, os empregos ou a segurança em um país que enfrenta o problema da diversidade étnica e que está entrando em uma fase econômica problemática.

Nos próximos dias, as cadeiras no gabinete serão trocadas pela lealdade desses barões regionais. Só uma coisa está clara em uma eleição em cinco etapas que desafia teimosamente qualquer previsão: qualquer partido nacional - seja ele o nacionalista Bharatiya Janata, o secular Congresso ou a Frente de Esquerda - dependerá de uma grande coalizão de líderes regionais e partidos menores para formar o próximo governo.

Da mesma forma que os britânicos dependiam de uma rede de reinos e dos seus líderes para governar a Índia no período imperial, são necessárias coalizões de até 20 partidos para formar um governo nacional.

Esses atuais nababos e nizams - os príncipes regionais na época do domínio britânico - incluem um defensor dos dalits (casta de indivíduos discriminados, conhecidos como "intocáveis"), um ex-astro cinematográfico e o homem afamado por ter trazido Bill Gates à Índia. Em menos de um mês, eles terão uma grande influência na escolha do primeiro-ministro. Um deles poderá até mesmo ser escolhido para o cargo.

Faltando apenas alguns dias para a contagem dos votos, o Partido do Congresso vê-se em uma busca desesperada por aliados para ajudar a construir uma coalizão para governar mais uma vez o país. Embora aliado ao Bharatiya Janata, Kumar é um dos indivíduos cujo apoio é procurado pelo Partido do Congresso.

"Muitos indivíduos que pensam de forma semelhante, como Nitish Kumar e J. Jayalalitha... que já integraram a NDA (Aliança Democrática Nacional, liderada pelo Bharatiya Janata)... sentem que a aliança não vencerá. A NDA existe apenas na cabeça do Bharatiya Janata e, portanto, as opções pós-eleições estão abertas para essas pessoas", disse Ghandi, em uma exibição ostensiva de adulação política.

"Que pensam de forma semelhante" não é uma descrição que passa facilmente pela cabeça de quem analisa a questão dos líderes regionais da Índia. O termo "distintivos" seria mais apropriado.

A mais temida é Kumari Mayawati, ministra-chefe de Uttar Pradesh. Presidindo o Estado que tem a maior população da Índia - 190 milhões de habitantes - , a líder do Partido Bahujan Samaj representa os dalits que encontram-se no nível mais baixo do sistema indiano de castas. Ela poderá obter até 35 das 80 cadeiras reservadas ao seu Estado, e acredita-se que cobrará um preço alto para integrar uma aliança.

Ao leste, Mamata Banerjee é a chefe do Congresso Trinamool, e, em Bengala Ocidental, deverá infligir uma derrota fragorosa ao Partido Comunista, que está há muito tempo no poder. Ela rompeu com o Partido do Congresso em 1997, e aliou-se ao Bharatiya Janata, mas atualmente está fazendo a sua campanha em uma aliança contra o seu ex-partido. Banerjee concentrou-se em romper a hegemonia comunista no seu Estado, mas ela reduziu as perspectivas de desenvolvimento industrial na sua região ao posicionar-se contra o projeto do carro Nano, da Tata Motors, no ano passado.

No extremo sul, em Tamil Nadu, onde os sentimentos secessionistas são profundos, a maioria das 39 cadeiras irá para J. Jayalalitha, um ex-ator de cinema que foi também ministro-chefe do Estado na década de noventa.

Outro político que retorna ao cenário é Cjandrababu Naidu, do Partido Telugu Desam, em Andhra Pradesh, um Estado cuja base produtiva deixou de ser a agricultura e tornou-se o setor de alta tecnologia, graças ao fato de ter sido o pioneiro da tecnologia da informação na Índia. Exibindo qualidades de diretor-executivo, ele foi elogiado por desenvolver Hyderabad, a capital do Estado, transformando-a em um centro da indústria de tecnologia da informação. Com isso, no entanto, ele perdeu os votos rurais.

Finalmente, Naveen Patnaik, ministro-chefe do Estado de Orissa, que é rico em recursos, e líder do Partido Biju Janata Dal, está adotando o espírito da época ao atuar sozinho. Anteriormente ele era aliado do Bharatiya Janata.

Alguns analistas preveem que quando a aritmética da eleição for fechada nos próximos dias, um governo fraco e instável assumirá o poder por um período breve, de 18 meses a dois anos, e a seguir cairá. Depois disso, outra eleição resultaria em um governo mais consolidado e focado, tendo à frente o Partido do Congresso ou o Bharatiya Janata.

Há quem ainda aposte que um governo liderado pelo Partido do Congresso retornará com apoio do Partido da Esquerda, tendo Singh como líder. Mas, naquele que seria o pior cenário possível para muitos empresários, os políticos regionais poderiam assumir o poder com o apoio do Partido da Esquerda. As agendas políticas diversas da chamada Terceira Frente e dos seus líderes ameaça paralisar, no que diz respeito às questões nacionais da estabilidade financeira e da segurança em um momento de desaquecimento econômico e convulsão no vizinho Paquistão. Alguns economistas preveem uma balbúrdia fiscal.

Amit Mitra, secretário-geral da Federação de Câmeras de Comércio e Indústrias Indianas, adverte que o papel do Partido da Esquerda em qualquer novo governo é bem mais perigoso do que qualquer líder regional. Segundo ele, a Terceira Frente seria particularmente susceptível à política econômica esquerdista promovida por aliados neo-marxistas bem organizados. "A Terceira Frente terá uma natureza muito complicada. Não existe absolutamente nenhuma coerência ideológica. Assim, o Partido da Esquerda, pode ser o astro principal, como parte da aliança".

Mas Mitra está certo de que os políticos regionais adaptar-se-ão ao cenário nacional. "Creio que esses líderes regionais tornar-se-ão líderes nacionais. Todos eles querem tornar-se primeiro-ministro", afirma Mitra. "Todos os líderes regionais têm uma grande ambição".

Por ora, o empresariado está adotando uma visão otimista em relação ao cenário político. Gautam Thapar, um jovem empresário industrial e diretor do conglomerado Avantha, diz que o alinhamento cada vez mais acentuado do poder minoritário com o poder econômico é a força da constituição "iluminada" da Índia, e parte da jornada política do país. "Não temos uma maioria dominante. Temos minorias dominantes", afirma ele. "Temos mandatos fraturados. À medida que cada minoria cresce, ela fratura um pouco mais o mandato".

Este clima também se reflete na estrutura política. São poucos os que afirmam compreender o padrão de votação. E poucos também desejam uma reforma política que substituiria o atual sistema parlamentar de estilo Westminster pelo presidencialismo. Ao contrário, o modelo parlamentar acomoda uma multitude de minorias, e muitos temem uma autocracia.

"O atual sistema está trazendo instabilidade, mas ele pelo menos garante que toda a diversidade seja representada no parlamento indiano", afirma Arun Jaitley, secretário-geral do Bharatiya Janata. "O mais próximo que chegamos do sistema presidencial foi quando Indira Ghandi era primeira-ministra e tornou-se uma ditadora".

Conforme afirma um dos seus principais assessores: "A política de coalizão funciona na Itália, na Suíça, na Alemanha e na Coreia do Sul. Por que não funcionaria na Índia?".

Nababos sob o Raj: Ecos daqueles que governaram os "Estados principescos"
Farhan Bokhari
O poder dos políticos regionais, que fica cada vez mais evidente na atual eleição geral da Índia, está longe de ser um fenômeno pouco conhecido em um país que, durante a era colonial, teve não apenas um vice-rei britânico como governador nacional, mas também os nababos locais, que governaram os "Estados principescos" do Raj (a Índia Britânica).

Os nababos sobreviveram ao colapso do império Mughal durante a guerra de independência de 1857 ao oferecerem rapidamente lealdade e serviços administrativos ao Reino Unido. Sob o reinado do Reino Unido, em certas ocasiões o título de nababo foi também dado a outros indivíduos e famílias que ampliaram a sua lealdade. Tais recompensas à base de títulos honorários garantiram o apoio de extratos influentes da sociedade indiana.

Os nababos que possuíam territórios conseguiam com frequência obter renda suficiente para administrar um sistema de previdência social. Embora alguns fossem déspotas, muitos se esforçaram para conquistar o apoio da população.

Após a divisão da Índia e a criação do Paquistão em 1947, os nababos perderam a sua autoridade: os Estados principescos foram fundidos em províncias administradas pela Índia ou pelo Paquistão. O choque decorrente dessa alteração obrigou muitos nababos a se retirarem de cena, procurando uma vida discreta. A partir da década de 1950, circularam relatos de que alguns dos nababos estavam vivendo de forma bem mais modesta no que nos seus antigos dias de glória.

A ausência de um moderno sistema bancário que permitiria a eles transferir riquezas para o exterior significou que os nababos ficaram com ativos que, em sua maioria, não tinham liquidez.

Uma das notáveis exceções à redução de importância de vários desses aristocratas é Mansoor Ali Khan, o ex-nababo do Estado indiano de Pataudi. Famoso por ter se tornado capitão da seleção indiana de críquete - uma honra que coube anteriormente ao pai dele -, Khan casou-se com a atriz de cinema Sharmila Tagore. Um dos três filhos dele é Saif Ali Khan, um ator muito conhecido. Um general paquistanês recém-promovido é primo de Khan por parte de um ramo da família que migrou após a partição territorial.

Tradução: UOL

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