Wolf - por que o conservadorismo de Obama pode não ser bom o suficiente

Martin Wolf Colunista do Financial Times

"Se quisermos que as coisas permaneçam como estão, as coisas terão que mudar." Assim escreveu o escritor siciliano Giuseppe di Lampedusa em "O Leopardo". Este me parece ser o princípio que guia a presidência de Obama. Para muitos americanos, ele parece um radical incendiário. Para mim, ele é um conservador pragmático, apesar de um respondendo a tempos extraordinários. Ao seu próprio modo, Obama está seguindo o caminho trilhado por Franklin Delano Roosevelt.

Em nenhum outro lugar seu conservadorismo é mais óbvio do que na forma como está lidando com a crise econômica. O que vimos até o momento, da escolha pelo presidente de Lawrence Summers e Tim Geithner como seus principais conselheiros econômicos, até os "testes de estresse" da semana passada, é uma política conservadora. A meta é simplesmente recolocar no show na estrada. Como Obama disse ao "The New York Times": "Estou absolutamente empenhado em assegurar a estabilidade do nosso sistema financeiro". Estabilidade é a meta conservadora quintessencial. Muitos radicais na direita e esquerda insistem que os bancos subcapitalizados devem ser recapitalizados já. Mas Obama considera isso arriscado demais.

Os resultados do teste de estresse foram um grande passo no caminho que o governo está trilhando. Eles impõem dor suficiente para parecerem críveis, mas não o bastante para causarem perturbação. Os 10 bancos afetados facilmente levantarão o dinheiro necessário: um total de US$ 75 bilhões. O valor de mercado deles aumentou imediatamente.

Douglas Elliott, da Instituição Brookings, forneceu uma análise comparativa de como os reguladores americanos chegaram às suas conclusões.* Ele compara os números deles com os do Fundo Monetário Internacional (FMI), em seu mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global, e de Nouriel Roubini, do RGE Monitor e da Universidade de Nova York. Ele também leva em consideração que o FMI e Roubini analisaram todas as perdas no sistema bancário americano, enquanto os testes foram aplicados a 19 instituições que detêm cerca de 70% dos ativos do setor nos Estados Unidos.

As perdas estimadas para 2009 e 2010 pelos reguladores americanos, pelo FMI e Roubini são de US$ 535 bilhões, US$ 321 bilhões e US$ 811 bilhões, respectivamente. Logo, os reguladores estavam mais sensíveis ao risco do que o FMI, apesar de bem menos do que Roubini. Contra estas perdas estão os ganhos esperados (após os dividendos) ao longo desses anos, mais uma provisão para as perdas de 2011. Aqui os reguladores estimam ganhos de US$ 363 bilhões, contra uma estimativa de US$ 210 bilhões do FMI e de Roubini. Isso significa que a redução no capital é estimada como sendo de US$ 172 bilhões pelos reguladores, US$ 111 bilhões pelo FMI e US$ 601 bilhões por Roubini. Mas, após levar em consideração o levantamento de capital planejado e os ganhos excedentes no primeiro trimestre de 2009, a redução final de capital é apenas de US$ 62 bilhões pelos reguladores, mero US$ 1 bilhão pelo FMI, mas muito maiores US$ 491 bilhões por Roubini.

Há dois números importantes na análise acima: os prejuízos possíveis e a força dos ganhos. Mas há um número final de igual importância: quanto capital um banco necessita? A resposta é: quão longa é a corda? Como muitos desses bancos são considerados grandes demais para falir, os contribuintes são assumidores de risco de último recurso. A exigência de capital depende em parte de quão bem o governo quiser se proteger contra possíveis prejuízos e, em parte, em quão bem os detentores de títulos quiserem estar segurados contra a possibilidade do governo recusar um resgate.

No final de 2008, a relação entre o total de papéis comuns e os ativos dos bancos americanos era de 3,7%. Sem a garantia explícita ou implícita fornecida pelo governo, ela simplesmente seria maior. Como nota o FMI, em meados dos anos 90, antes do boom da alavancagem, a relação era de 6%. No século 19, antes do seguro de depósito, era muito maior.

As conclusões são três: primeiro, o exercício do governo é muito mais conservador em relação às perdas do que o do FMI, apesar de menos do que o de Roubini; segundo, grande parte do capital que terá que ser levantado virá dos ganhos de um sistema bancário capaz de tomar empréstimos em termos favoráveis arranjados pelo banco central e então emprestar mais amplamente aos seus clientes; e terceiro, as relações das metas de capital -capital ponderado por risco de 6% dos ativos e capital dos papéis comuns de 4%- não são especialmente onerosas.

O propósito do exercício foi de fato conservador: tornar crível, apesar de não certo, que o sistema bancário existente e os ativos poderão sobreviver ao provável castigo. Isso foi feito bem o suficiente para satisfazer os mercados. Mas os bancos também serão incapazes de expandir seus balancetes significativamente no futuro próximo.

A maior pergunta é quanto este exercício ajudará a restaurar a economia. Os bancos comerciais fornecem apenas um quarto do crédito do setor financeiro nos Estados Unidos, uma queda em comparação a perto de 40% em meados dos anos 90. Grande parte do restante vem de várias formas de securitização. A menos e até que este segundo mercado reabra plenamente, o crédito do setor privado provavelmente ficará restrito. O quanto esta restrição atrapalhará dependerá de quanto os tomadores de empréstimo altamente alavancados estarão dispostos a tomar emprestado, particularmente quando a garantia que possuem está desvalorizada. Por este motivo, é um estímulo enorme -a parte menos conservadora do pacote econômico- que promoverá a recuperação. Ela também é a menos incômoda aos interesses dos lobbies poderosos, particularmente do setor financeiro.

Abordagens mais radicais -permitir o calote de mais bancos, por exemplo- aumentaria a incerteza a curto prazo e minaria o retorno à estabilidade que Obama deseja. Mas aqui o presidente deve reconhecer o risco a longo prazo: que o sistema financeiro resgatado irá, com o tempo, estabelecer a fundação para outra crise financeira, e possivelmente maior, anos à frente.

Assegurar o resgate de um sistema financeiro ainda mais lotado do que antes de instituições complexas e "grandes demais para falir" pode ser a resposta cautelosa para esta crise. Mas ainda deixa o governo com a tarefa ainda mais onerosa de impor uma regulamentação eficaz no futuro. Infelizmente, o retrospecto da regulamentação de sistemas financeiros generosamente segurados é extremamente ruim. O interesse próprio mobilizado de agentes altamente remunerados facilmente supera as limitações impostas por reguladores muito menor remunerados e quase certamente menos capazes.

Quanto mais a crise se desdobra, mas evidente fica que os incentivos no sistema financeiro foram (e continuam sendo) altamente distorcidos. Eu solidarizo com a abordagem conservadora às crises, mas não quando deixa no lugar a abundância de incentivos perversos que as provocaram. No final disto, então, haverá um grande teste: o número de instituições consideradas "grandes demais para falir" será tão grande quanto agora e, se for o caso, como serão controladas? Se as respostas ainda não estão claras, será preciso ainda mais mudanças.

*Implicações dos Testes de Estresse, 11 de maio de 2009, www.brookings.edu

Tradução: George El Khouri Andolfato

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