Ex-ativista anti-apartheid torna-se o novo poderoso do planejamento na África do Sul

Richard Lapper

O novo ministro de finanças da África do Sul minimizou os temores que as nomeações para os ministérios criaram centros de poder competitivos no coração do governo do presidente Jacob Zuma. E argumentou que a prudência fiscal continuará a ser base da política econômica.

Pravi Gordhan disse ao "Financial Times" que a criação de um Ministério de Desenvolvimento Econômico, uma comissão de planejamento e uma unidade de monitoramento e avaliação permitirá maior coordenação da política econômica e ajudará o Estado a se tornar mais eficaz.

ATIVISTA PROEMINENTE

Pravin Gordhan, farmacêutico de formação, entrou para o movimento antiapartheid na escola.

Como membro do Congresso Nacional Africano, o Partido Comunista e a Frente Democrática Unida, ele teve papel importante nos protestos dos anos 70 e 80 em seu Estado natal de KwaZulu Natal.

Gordhan conhece o novo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, daquele tempo e gosta do estilo mais inclusivo do novo líder.



"Vamos ter maior coesão e uma contribuição mais diversa para os desafios econômicos que enfrentamos. Acho que haverá mais equilíbrio", disse Gordhan, que tem 60 anos, foi ativista do Partido Comunista contra o apartheid e passou a última década chefiando a receita federal da África do Sul.

Ele é relativamente desconhecido fora da África do Sul, mas em casa conquistou ótima reputação nos círculos empresariais por seu estilo de administração direto. Sob sua orientação, a receita federal antes moribunda foi transformada -tanto assim que é modelo de eficiência, uma brilhante exceção em um setor estatal caracterizado por uma administração e serviços fracos.

Ele agora ocupa o escritório em Pretoria que nos últimos 13 anos abrigou Trevor Manuel, que supervisionou as políticas macroeconômicas ortodoxas da África do Sul após o apartheid. Gordhan descreveu como trouxe o estilo ativista desenvolvido nas marchas e campanhas de "luta" para a linha de frente na batalha para melhorar o desempenho do setor público.

"Você não se acomoda com o que tem", disse ele. "Você busca aprimorar constantemente, busca inovação e formas melhores de fazer as coisas, para 'elevar o nível' constantemente, com limites realistas que permitem mudar em um ritmo mais rápido."

Colegas dizem que Gordhan é incansável, que não tem medo de tomar decisões duras e é muito dedicado. "Temos que pedir aos servidores para avançarem mais um pouco em vez de se comportarem como burocratas típicos, sentados atrás de suas mesas", disse ele.

As empresas e o mercado financeiro comemoraram sua nomeação e, mais particularmente, a de Manuel para o novo papel poderoso de planejamento.

Houve, contudo, preocupação com duas das novas nomeações. Ebrahim Patel, ex-sindicalista que defendeu políticas protecionistas no passado deverá chefiar o novo Ministério de Desenvolvimento Econômico, enquanto Rob Davies, economista do Partido Comunista, assume o Departamento de Comércio e Indústria. A esquerda apoiou o novo presidente tanto na longa luta pelo poder dentro do partido governante, Congresso Nacional Africano, quanto na campanha antes das eleições do mês passado.

Muitas vezes os esquerdistas polarizaram com Thabo Mbeki, ex-presidente, que foi forçado a deixar o cargo no ano passado, e criticaram a influência de Manuel, que era ministro das finanças na presidência de Mbeki. Gordhan, contudo, não admite divisão. O Tesouro, disse ele, não mudará de função de "forma substancial" sob o novo arranjo.

"(O Tesouro) agiu como espinha bastante sólida para o governo e continuará assim", disse ele. O novo presidente deixou "muito claro que o tipo de prudência fiscal que a África do Sul exercitou ainda informará as decisões a serem tomadas."

Será importante melhorar os serviços para satisfazer as amplas expectativas populares por mudança, disse Gordhan, repetindo um lema de Zuma.

Em fevereiro, o governo anunciou um déficit fiscal de 3,8%, mas estava estimando uma expansão de 1% neste ano, enquanto muitos economistas independentes agora estimam que a economia vá se contrair. O PIB do primeiro trimestre, que deve ser anunciado neste mês, deve mostrar que a economia entrou formalmente em recessão.

Gordhan também fez uma forte defesa de metas de inflação que, segundo ele, continuarão a vigorar, apesar do governo estar preparado a discutir a questão. A esquerda vem pressionando para que outros fatores, tais como o desemprego, sejam levados em conta no estabelecimento das taxas de juros.

"Há forças e vozes diversas na África do Sul", disse Gordhan. "Em vez de evitá-las, é preciso engajá-las -ou ouvi-las, e ter isso como parte do desenvolvimento democrático dentro da África do Sul".

Tradução: Deborah Weinberg

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