Arrocho de crédito às usinas de açúcar brasileiras contribui para alta dos preços

Javier Blas, em Londres, e Jonathan Wheatley, em São Paulo

A alta nos preços do açúcar bruto é exacerbada pela queda na venda futura pelo Brasil, o maior exportador mundial, à medida que alguns produtores viram suas linhas de crédito para comércio serem severamente restringidas, disseram traders e executivos locais.

  • Pernambuco, 08.02.2007.Foto de Guga Matos/JC Imagem

    Caminhão carregado de cana-de-açúcar na Usina Ipojuca, em Pernambuco

Os preços do açúcar bruto em Nova York tiveram forte alta nesta semana, atingindo o valor mais alevado em 3 anos, de 16,03 centavos de dólar por libra, um aumento de cerca de 35% até o momento neste ano, estimulado pela safra ruim na Índia, a maior consumidora do mundo. O açúcar negociado na ICE para julho permaneceu estável na sexta-feira a 15,40 centavos de dólar.

Os traders disseram que, em circunstâncias normais, a venda futura pelas empresas brasileiras - ou hedging - deveria frear a alta provocada pela maior importação pela Índia e a compra especulativa. Mas o hedging foi fraco, já que muitos produtores brasileiros carecem de linhas de crédito para financiar suas margens.

Os participantes nos mercados de futuros precisam fazer um depósito inicial, ou margem, para cada negócio. Além disso, se o mercado se mover contra a posição deles, eles recebem uma chamada de margem (margin call) - um pedido para depósito de uma garantia maior.

"Em relação aos níveis históricos, nós estamos vendo uma enorme restrição no lado vendedor no mercado de açúcar", disse Toby Cohen, da trading de açúcar Czarnikow, com sede em Londres, repetindo a visão de outros participantes do mercado de açúcar. "Quando as usinas precisam de todo o capital disponível para manter seus negócios funcionando, o hedging se torna um luxo."

Mas os traders de açúcar disseram que o problema não é disseminado. Grandes grupos sucroalcooleiros brasileiros, como a Cosan S/A Indústria e Comércio, estão operando quase na normalidade, mas usinas menores e traders locais estão em dificuldades.

Manoel Fernando Garcia, o presidente da S/A Fluxo, uma das maiores traders de açúcar do Brasil, disse que as linhas de crédito que costumavam financiar os contratos de futuros foram cortadas drasticamente, em comparação ao nível dos últimos dois anos. "Eu não posso dizer se é 60% ou 80%, mas é consideravelmente mais de 50%", ele disse ao "Financial Times".

Garcia disse que os produtores brasileiros de açúcar estavam "extremamente ansiosos" em tirar proveito dos preços altos atuais para um hedging dos contratos de açúcar para entrega em outubro de 2009 e março de 2010, mas a capacidade para isso foi severamente reduzida.

"Para fechar contratos para entrega em outubro ou março, eu precisaria de linhas de crédito para cobrir as chamadas de margem caso os preços continuassem subindo", ele disse. "Mas os bancos estão sendo extremamente cautelosos e simplesmente não temos as linhas", acrescentou Garcia.

A indústria sucroalcooleira do Brasil, intensiva em capital e que alavancou sua expansão com o crédito barato, tem sofrido com o peso do atual arrocho de crédito e os baixos preços durante grande parte de 2007 e o início do ano passado. Cinco empresas com cerca de 1 milhão de toneladas de produção de açúcar - cerca de 4% das exportações do país - pediram "recuperação judicial" (que substituiu a concordata).

Jonathan Kingsman, da Kingsman SA, uma consultoria de açúcar com sede em Lausanne, disse que o crédito tanto para o comércio quanto para expansão não está mais disponível para as usinas de açúcar brasileiras como quando o setor estava crescendo rapidamente, no início dos anos 2000.

Apesar de todos seus problemas, o Brasil deverá ter uma produção recorde neste ano, de 36,7 a 37,9 milhões de toneladas, em comparação a 31,6 milhões de toneladas do ano passado, segundo números oficiais.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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