Sri Lanka: Domando com dificuldade os tigres tâmeis

Joe Leahy

À medida que o exército aproxima-se do último reduto dos rebeldes tâmeis, uma guerra civil que dura 25 anos está chegando ao fim - com a ajuda de Pequim, que faz com que surjam preocupações quanto à "estratégia do colar de pérolas".

Em um velho edifício governamental na capturada Kilinochchi, capital dos Tigres Tâmeis, o brigadeiro Shavendra Silva vai clicando por uma galeria de fotos sinistras. A sua apresentação em PowerPoint mostra pilhas de corpos usando as camisas listradas e calças escuras típicas dos integrantes dos Tigres de Libertação de Tâmil Eelam (Tigres Tâmeis), muitos deles mulheres. Alguns foram decapitados. Outros foram simplesmente explodidos em pedaços.

"A nossa intenção é matar o maior número possível de tigres tâmeis", afirma sem rodeios o brigadeiro Silva.

Conflito no Sri Lanka

  • UOL Mapas

    As forças armadas do Sri Lanka informaram que milhares de civis enfrentaram os disparos das tropas rebeldes para cruzar a linha de frente e fugir da zona de conflito. De acordo com a Cruz Vermelha, uma pequena faixa de terra no litoral é a única região ainda controlada pelos rebeldes dos Tigres Tâmeis. Esta faixa de terra é limitada pelo mar de um lado e por uma extensa lagoa de outro

  • AP

    Ao lado de corpos mortos, civis cingaleses feridos se reúnem em instalações médicas improvisadas à espera de algum tipo de atendimento

Essa truculência tem ajudado as forças armadas do Sri Lanka. Neste momento em que os tigres tâmeis encontram-se cercados em uma pequena faixa costeira no nordeste da ilha, o governo parece estar prestes a se tornar o primeiro do mundo pós-11 de Setembro a derrotar sumariamente um proeminente grupo insurgente terrorista.

Mas enquanto os humanistas manifestam horror e os estrategistas de sangue frio perguntam o que outras nações envolvidas em conflitos similares poderiam aprender com a experiência cingalesa, outros afirmam que a verdadeira vitoriosa na guerra civil que dura 25 anos nesta ilha é a China.

Nos últimos anos Pequim tornou-se um fornecedor crucial de armamentos e ajuda ao Sri Lanka. Mais do que isso, a China ajudou a rebater as críticas internacionais às maciças baixas civis resultantes da guerra. Em troca, Pequim obteve acesso a um importante porto do Sri Lanka, o que deu ao país uma base estratégica próxima a uma das principais rotas mundiais de navegação, bem diante da Índia, a potência regional do sul da Ásia.

"A China desempenhou um papel muito importante para o reequilíbrio da balança em favor das forças do governo", afirma Brhama Chellaney, do Centro de Pesquisa Política em Nova Déli. "Os líderes comunistas de Pequim foram responsáveis por impedir que o Conselho de Segurança das Nações Unidas emitisse qualquer resolução dura contra o Sri Lanka".
Mas, nesta semana, nem mesmo o Conselho de Segurança pôde mais ignorar o custo humano que o conflito do Sri Lanka impôs a sua população tâmil. O bombardeio de artilharia contra civis, que na semana passada matou 400 pessoas, incluindo cem crianças, obrigou o conselho a emitir a sua primeira declaração formal de protesto contra a guerra civil no Sri Lanka neste ano.

Por outro lado, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, exigiu que o governo parasse de "bombardear indiscriminadamente" civis, e que os tigres tâmeis libertassem milhares de não combatentes que mantêm à força no seu território. A secretária de Estado Hillary Clinton chegou a pedir que o Fundo Monetário Internacional (FMI) congelasse um empréstimo de US$ 1,9 bilhão (1,4 bilhão de euros, 1,2 bilhão de libras esterlinas) do qual Colombo necessita bastante para apoiar a sua economia combalida.

O horror da guerra contrasta fortemente com a beleza do Sri Lanka, uma ilha tropical que no passado atraía multidões de turistas a suas praias, parques de elefantes, plantações de chás nas colinas e templos no topo das montanhas. Se a guerra chegar mesmo ao fim, a esperada retomada do turismo ajudaria a tirar a economia da estagnação em que se encontra.

O governo repele vigorosamente qualquer alegação de que tenha bombardeado civis. Mas isso não impediu que as repercussões da matança atravessassem o Estreito de Palk e chegassem a Tamil Nadu, o Estado que fica na extremidade sul da Índia, país no qual a ilha do Sri Lanka parece estar dependurada como um brinco. O massacre de indivíduos de etnia tâmil no vizinho Sri Lanka tem sido um assunto importante neste importante Estado que mostrou-se politicamente indeciso nas eleições gerais indianas. Os resultados das eleições deverão ser divulgados hoje (16/05).

"É claro que nos preocupamos com os nosso povo que vive lá", diz Sashi Tharan, um eleitor de Chennai, a capital de Tamil Nadu. Mas, embora lamentem a crise humanitária, poucos são os indivíduos, mesmo na Índia, que discordam da necessidade de esmagar os Tigres Tâmeis.

Velupillai Prabhakaran, o elusivo líder dos rebeldes, era visto como um herói pelos tâmeis quando a guerra irrompeu em 1983. Representando cerca de 13% da população do Sri Lanka, que é de 19 milhões de habitantes, os tâmeis sofreram bastante após a independência dos britânicos em 1948 sob governos dominados pela maioria budista cingalesa da ilha. No entanto, nas décadas seguintes, os Tigres Tâmeis transformaram-se em uma organização terrorista internacionalmente proscrita, conhecida por aperfeiçoar o uso de ativistas suicidas que realizam ataques a bomba.

Após a intervenção da Índia com forças de paz, em 1987, homens-bombas suspeitos de pertencerem aos quadros dos Tigres Tâmeis assassinaram quatro anos depois Rajiv Gandhi, o ex-primeiro-ministro indiano. O grupo também matou outras figuras importantes, incluindo, em 1993, Ranasinghe Premadasa, que à época era o presidente do Sri Lanka, e vários outros políticos rivais de etnia tâmil e cingalesa, bem como diversos cidadãos comuns.

Em 2002, Prabhakaran quase concretizou o seu sonho de independência para o norte e o leste da ilha. Ele concordou com um cessar-fogo que o deixou controlando a maioria das áreas que os tâmeis dizem ser a sua pátria tradicional. No entanto, o que houve a seguir foi uma sequência de erros por parte de Prabhakaran. Ele perdeu o controle efetivo sobre os territórios do leste que estavam sob a posse dos Tigres Tâmeis, por ter se desentendido com o seu comandante naquela área. A seguir, a sua teimosia durante a eleição de 2005 contribuiu para a eleição de Mahinda Rajapaksa, o atual presidente - que tornou-se o arquiinimigo dos Tigres Tâmeis.

Quando os rebeldes passaram a violar o cessar-fogo no ano seguinte, até mesmo com a tentativa de assassinato do irmão de Rajapaksa, Gotabhaya, uma autoridade graduada do setor de defesa, o presidente retomou as hostilidades, apostando o seu futuro político em uma vitória militar total.

O líder dos tigres também não contava com a dureza do novo comandante militar escolhido pelo presidente - Sarath Fonseka, um nacionalista cingalês de linha dura. O general Fonseka, ele próprio sobrevivente de um ataque suicida a bomba, obteve ajuda ocidental para interromper a rede financeira global ilícita dos Tigres Tâmeis, e fez com que a sua marinha e força aérea afundassem navios de suprimentos dos rebeldes em águas internacionais. Em terra, ele usou arrasadoras barragens de artilharia para obrigar os moradores das vilas e aldeias a evacuar o campo de batalha, antes de voltar as suas armas e a força aérea diretamente contra as posições rebeldes. Ele incrementou isso com forças especiais treinadas para combate na selva, que infiltraram-se por detrás das linhas dos Tigres Tâmeis para matar líderes rebeldes.

Rajapaksa também ampliou os gastos militares. Somente no ano passado, ele aumentou o contingente militar em 20%, para cerca de 190 mil soldados, fazendo com que as forças armadas cingalesas tornassem-se, proporcionalmente, uma das maiores da região. "Ele focou toda a sua ótica, diplomática, econômica ou política, em livrar-se desses caras", afirma, referindo-se ao presidente, o coronel da reserva R. Hariharan, um analista político de Chennai que foi diretor de inteligência da força de paz do exército indiano no Sri Lanka.

Além disso, o Sri Lanka ganhou a China como aliada. Rajapaksa consolidou as relações com Pequim em 2007, quando concedeu a companhias chinesas contratos para o desenvolvimento de um porto no seu reduto eleitoral, no sul da ilha.

Embora Pequim afirme que as suas intenções são pacíficas, muitas acreditam que a China deseja usar o porto como base naval para projetar poder no Oceano Índico e sobre as rotas de navegação vizinhas, pelas quais passam dois terços do petróleo comercializado em todo o mundo.
Analistas militares apelidam isso de "estratégia do colar de pérolas", segundo a qual a China estaria criando uma rede de aliados no Oceano Índico, incluindo Sri Lanka, Paquistão e Burma. Em Nova Déli, Chellaney afirma que a China quintuplicou o tamanho da sua ajuda financeira ao Sri Lanka, que passou a ser de US$ 1 bilhão por ano. Os chineses também aumentaram o fornecimento de armas sofisticadas como os jatos Jian-7, armamentos anti-aéreos e radares de vigilância aérea JY-11 3D.

Mas há quem afirme que está havendo um exagero quanto às supostas intenções da China no Sri Lanka. Em Chennai, o coronel Hariharan argumenta que Pequim não deseja correr o risco de antagonizar seriamente Nova Déli, um importante parceiro comercial, devido ao Sri Lanka.
Mas, qualquer que seja o papel da China, Colombo defronta-se agora com novos problemas. À medida que os Tigres Tâmeis recuavam, os seus integrantes obrigaram cerca de 250 mil civis a seguir, sob a mira de armas, para o território cada vez mais reduzido do grupo. Como essas pessoas não têm para onde fugir, as baixas civis acumulam-se desde janeiro. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), desde então 20 mil pessoas morreram ou ficaram feridas.

Como ainda há 50 mil civis presos no que restou do território sob controle dos Tigres Tâmeis, uma área que consistiria de uns poucos quilômetros quadrados, o presidente corre o risco de alienar ainda mais a minoria tâmil devido a baixas civis maciças em uma investida final contra os rebeldes. Mesmo se o exército eliminar Prabhakaran, que ainda estaria no campo de batalha, os analistas acreditam que o presidente precisa apresentar um pacote político verossímil concedendo aos tâmeis alguma autonomia, para que seja possível evitar a reemergência do separatismo.

O pior é que a sociedade civil do Sri Lanka vem pagando um preço alto pelas injustiças da guerra. O país tornou-se fortemente militarizado. A dissidência foi esmagada. Diversos jornalistas proeminentes foram assassinatos por indivíduos não identificados ou obrigados a deixar o país. Outros estão sendo processados por redigirem artigos tidos como favoráveis aos Tigres Tâmeis.

Neste mês Obama citou o caso de um desses jornalistas, J.S. Tissainayagam, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Quando o "Financial Times" tentou falar neste mês com Tissainayagam, durante um intervalo no seu julgamento, em um tribunal solitário da era colonial, em Colombo, ele recusou-se a ser entrevistado. Mais tarde o "Financial Times" ficou sabendo que ele temia ser morto caso falasse ao jornal.
Como o Sri Lanka necessita desesperadamente de empréstimos do FMI e de ajuda estrangeira para administrar campos para os mais de 200 mil refugiados que até o momento foram deslocados nesta fase da guerra, Rajapaksa precisa reconquistar a boa vontade mundial. Os comandantes na frente de batalha perto de Kilinochchi, como o brigadeiro Silva, sabem disso. Enquanto exibem rifles e armas de artilharia capturados dos Tigres Tâmeis, eles temperam os seus discursos com propagandas de guerra. Campanhas militares anteriores são chamadas de "operações humanitárias" - e a batalha ora em andamento no último reduto dos Tigres Tâmeis é rotulada de "a maior missão mundial de resgate de reféns".

Mas os oficiais militares não conseguem ocultar o prazer ante a perspectiva de vitória iminente sobre um inimigo que outrora acreditava-se ser imbatível. "Alguém deveria dizer a Prabhakaran que liberte esses civis. Se você puder fazer essa gentileza para mim, a batalha terminará em 24 horas", diz o brigadeiro.

Tradução: UOL

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