Empresários procuram identificar perspectivas com fim da guerra civil no Sri Lanka

Joe Leahy Em Bombaim (Índia)

Em um hotel com a espetacular vista do mar em Colombo, a capital do Sri Lanka, um grupo de empresários locais organizou há algumas semanas um seminário que contou com uma participação modesta.

O tópico discutido no evento foram as oportunidades empresariais no norte do país, a região devastada pela guerra que, finalmente, deixou de ser controlada pelo grupo separatista Tigres da Liberação do Tâmil Eelam (Tigres Tâmeis), no último domingo, após 25 anos de conflito.

Fatos sobre o conflito

A guerra no Sri Lanka teve início em 1983, depois que os Tigres da Liberação do Tâmil Eelam (Tigres Tâmeis) mataram 13 soldados no norte da ilha, provocando rebeliões anti-tâmil em Colombo.
A guerra custou a vida de mais de 70 mil pessoas, sendo que mais de 20 mil foram mortas ou feridas desde janeiro último, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU).
O governo do Sri Lanka gasta cerca de 18% do seu orçamento público com as forças armadas.
Os Tigres Tâmeis foram o único grupo terrorista internacionalmente proscrito a obter poderio militar aéreo, terrestre e marítimo.
Velupillai Prabhakaran, o líder dos Tigres Tâmeis, escondeu-se a princípio na Índia, na década de oitenta, antes de retornar à ilha, em 1987, para expulsar uma força indiana de paz do Sri Lanka.
"Os Tigres Tamis só são comparáveis a Pol Pot na história moderna", afirmou Douglas Devananda, o principal organizador do evento. Devananda, um ex-militante tâmil e rival dos Tigres Tâmeis, é atualmente ministro de Serviços Sociais e da Previdência Social.

Mas, a seguir, Devananda abordou o tópico da reunião. "Com a aproximação do fim da guerra, eu tenho que solicitar ajuda externa para reconstruir as áreas ocidentais".

Com as notícias de que Velupillai Prabhakaran, o líder dos Tigres Tâmeis, foi morto no campo de batalha, os cingaleses podem voltar a ter esperança de que o tão procurado "dividendo da paz", com o qual o país sonhou por tanto tempo, possa estar finalmente ao seu alcance.

A remoção dos Tigres Tâmeis do norte do país significa que, pela primeira vez, os empresários poderão viajar desimpedidos ao longo da autoestrada A9, entre a Península de Jaffna, ao norte, e a rica região sul, abrindo oportunidades em áreas como turismo, pesca, portos e outras indústrias.

"Uma vitória aumentará a confiança e será positiva para o crescimento, as finanças públicas e o setor externo", disseram em um relatório Rohini Malkani e Anushka Shah, economistas do Citigroup.

Os investidores no mercado de ações do país concordam. O índice Colombo All-Share saltou 7,14% como as notícias de que o corpo de Prabhakaran foi encontrado, antes de fechar com um aumento de 6,46 pontos percentuais, em um total de 2.030,90 pontos, a maior alta diária em três anos. A rupia cingalesa subiu 2,43% em relação ao dólar, atingindo o maior valor do mês.

No entanto, a euforia inicial foi temperada pela constatação dos problemas do Sri Lanka.

A ilha, com as suas belas praias, florestas e culturas de chá, deveria ser um polo de atração para os turistas. Mesmo com a guerra, o Sri Lanka já era teoricamente o mais rico dos grandes países do sul da Ásia, com uma renda per capita de mais de US$ 1.600.

Mas, a guerra prolongada, na qual o governo injetou anualmente entre 10% e 18% do orçamento estatal, prejudicou a economia da ilha, e a situação piorou devido à crise financeira global.

As indústrias de exportação de chá e vestuários do país sofreram um impacto, a quantidade de dinheiro enviado pelo exército de trabalhadores cingaleses no exterior caiu e a atividade turística está fraca.

"A chegada de turistas e as arrecadações obtidas com o turismo sofreram uma queda anual de 11% em 2008, o que resultou na contração do setor hoteleiro pelo quarto ano consecutivo", afirmou o Banco de Desenvolvimento Asiático em um relatório sobre o Sri Lanka.

A situação financeira precária do país, com a recente queda das reservas de moeda estrangeira para apenas seis semanas de importações, ou a metade do nível considerado seguro, obrigou o governo a buscar um empréstimo de US$ 1,9 bilhão junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas esse empréstimo foi adiado devido às reservas dos Estados Unidos quando à maneira como Colombo está lidando com as baixas civis no conflito, em meio às estimativas de que mais de 20 mil pessoas foram mortas desde janeiro.

O fim do conflito prolongado poderia acelerar a aprovação desse empréstimo, que, segundo os analistas, proporcionaria um impulso instantâneo para a economia.

O Citigroup informa que por ora está acreditando na previsão de um aumento anual do produto interno bruto de 4,8%. Mas ele citou comentários do banco central, feitos no mês passado, segundo os quais, embora o crescimento deste ano possa ser de 4,5% ou 5%, esse número poderá cair para algo entre 2,5% e 3,5%.

A libertação das duas regiões no norte e no leste anteriormente controladas pelos Tigres Tâmeis não implicará, por si própria, na prosperidade do Sri Lanka. Juntas, as duas províncias respondem por menos de 8% do produto interno bruto do país.

O mais importante será determinar se o fim da guerra trará estabilidade e o fim de ataques terroristas e guerrilheiros. Só então os investidores e turistas retornarão em grande quantidade.

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