Wolf: esta crise é um momento, mas pode não ser um definidor

Martin Wolf

A atual crise é um marco, com a globalização liderada pelo mercado, o capitalismo financeiro e o domínio ocidental de um lado, e o protecionismo, a regulamentação e a predominância asiática do outro? Ou os historiadores a julgarão como um evento causado por idiotas, com pouca importância? Meu palpite é que acabará em um ponto intermediário. Não é nem a Grande Depressão, porque as políticas de resposta foram muito determinantes, nem o 1989 do capitalismo.

Vamos examinar o que sabemos e o que não sabemos sobre seu impacto na economia, finanças, capitalismo, o Estado, a globalização e a geopolítica.

Na economia, nós já sabemos cinco coisas importantes. Primeiro, quando os Estados Unidos pegam uma pneumonia, todo mundo fica seriamente doente. Segundo, esta é a crise econômica mais severa desde os anos 30. Terceiro, a crise é global, com um impacto particularmente severo nos países que se especializaram na exportação de bens manufaturados ou que dependiam da importação líquida de capital.

Quatro, os autores de políticas empregaram os mais agressivos estímulos fiscais e monetários e resgates financeiros já vistos nesta crise. Finalmente, este esforço resultou em algum sucesso: a confiança está retornando e o ciclo de estoques deve provocar alívio. Como comentou Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, a economia global "está em um ponto de inflexão", o que significa que a economia agora está desacelerando em uma taxa em declínio.

Nós também podemos arriscar o palpite de que os Estados Unidos liderarão a recuperação. Os Estados Unidos são novamente o país avançado mais keynesiano do mundo. Nós também podemos imaginar que a China, com seu imenso pacote de estímulo, será a economia mais bem-sucedida do mundo.

Infelizmente, há pelo menos três grandes coisas que não sabemos. Quanto os níveis excepcionais de endividamento e queda do valor líquido gerarão um aumento sustentado na poupança desejada de lares de consumidores outrora grandes gastadores? Por quanto tempo os atuais déficits fiscais continuarão até que os mercados passem a exigir uma maior compensação pelo risco? Os bancos centrais podem elaborar uma saída não inflacionária para as políticas não convencionais?

Nas finanças, a confiança está voltando, com os spreads entre os ativos seguros e de risco caindo a níveis menos anormais e uma recuperação (modesta) nos mercados. O governo americano deu ao seu sistema bancário um certificado de saúde razoável. Mas os balancetes do setor financeiro explodiram nas últimas décadas e a solvência dos devedores está prejudicada.

Nós podemos imaginar que o setor financeiro também se recuperará nos anos à frente. Nós também podemos imaginar que seus dias de glória permanecerão uma coisa do passado por décadas, pelo menos no Ocidente. O que não sabemos é de quanto será a "desalavancagem" e a consequente deflação dos balancetes na economia. Nós também não sabemos quão bem-sucedido será o setor financeiro em evitar as tentativas de imposição de um regime regulatório mais eficaz. Os políticos deviam ter aprendido com a necessidade de resgatar sistemas financeiros repletos de instituições consideradas grandes e interligadas demais para falir. Eu temo que interesses concentrados superarão o interesse geral.

E quanto ao futuro do capitalismo, sobre o qual o "Financial Times" publicou uma série fascinante? Ele sobreviverá. O compromisso tanto da China quanto da Índia com a economia de mercado não se alterou, apesar da crise, apesar de que ambas ficarão mais nervosas em relação a finanças desagrilhoadas. As pessoas no lado do livre mercado insistirão que o fracasso deve ser atribuído mais aos reguladores do que aos mercados. Há uma grande verdade nisso: os bancos são, afinal, as instituições financeiras mais reguladas. Mas este argumento fracassará politicamente. A disposição em confiar na liberdade de atuação das forças de mercado no setor financeiro foi comprometida.

Nós podemos imaginar, portanto, que a era do modelo hegemônico da economia de mercado é coisa do passado. Os países, como sempre fizeram, se adaptarão à economia de mercado segundo suas próprias tradições. Mas o farão de forma mais confiante. Como Mao Tsé-tung poderia ter dito: "Deixe milhares de flores capitalistas florescerem". Um mundo com muitos capitalistas será arriscado, mas divertido.

Menos claras são as implicações para a globalização. Nós sabemos que a enorme injeção de fundos do governo em parte "desglobalizou" as finanças, a um grande custo para os países emergentes. Nós também sabemos que a intervenção do governo no setor tem um forte tom nacionalista. Nós também sabemos que poucos líderes políticos estão preparados para correr risco pelo livre mercado.

A maioria dos países emergentes concluirá que o acúmulo de enormes reservas de moeda estrangeira e a limitação dos déficits em conta corrente é uma estratégia sólida. Isso provavelmente gerará outra rodada de "desequilíbrios" globais desestabilizadores. Este parece um resultado inevitável de uma ordem monetária internacional defeituosa. Nós não sabemos quão bem a globalização sobreviverá a tamanhos estresses. Eu tenho esperanças, mas não estou confiante.

Enquanto isso, o Estado está de volta, mas também está parecendo cada vez mais falido. A razão da dívida do setor público e produto interno bruto provavelmente dobrará em muitos países avançados: o impacto fiscal de uma grande crise financeira pode ser, como fomos lembrados, tão oneroso quanto uma grande guerra. Isto, então, é um desastre com o qual os governos de economias avançadas que crescem lentamente não podem arcar em ver repetido em uma geração. O legado da crise também limitará a munificência fiscal. O esforço para consolidar as finanças públicas dominará a política por anos, talvez décadas. O Estado está de volta, portanto, mas será um Estado como um corpo intrusivo, não um grande gastador.

Por último, o que a crise significa para a ordem política global? Aqui sabemos três coisas importantes. A primeira é que a crença de que o Ocidente, apesar de amplamente desapreciado pelos demais, pelo menos sabia como administrar um sistema financeiro sofisticado, morreu. A crise danificou muito o prestígio dos Estados Unidos, em particular, apesar do tom do novo presidente certamente ter ajudado. A segunda é que os países emergentes e, acima de tudo, a China agora são agentes centrais, como mostrado na decisão de realização de dois encontros de cúpula seminais do Grupo dos 20. Eles agora são elementos vitais na autoria de políticas globais. A terceira é que esforços estão sendo feitos para reformar a governança global, notavelmente no aumento dos recursos sendo dados ao Fundo Monetário Internacional e na discussão da mudança do peso dos países dentro dele.

Nós podemos ainda apenas imaginar quão radicais serão as mudanças na ordem política global. Os Estados Unidos provavelmente emergirão como o líder indispensável, livre das ilusões do "momento unipolar". O relacionamento entre os Estados Unidos e a China se tornará mais central, com a Índia aguardando como a próxima. O poder e peso econômico relativo dos gigantes asiáticos certamente aumentarão. Enquanto isso, a Europa não está passando por uma boa crise. Sua economia e sistema financeiro provaram ser muito mais vulneráveis do que muitos esperavam. Mas o quanto uma série de instituições reformadas e reequilibradas para a cooperação internacional refletirá as novas realidades é, até o momento, desconhecido.

Qual então é o resumo? Meu palpite é de que esta crise acelerou algumas tendências e provou que outras -particularmente aquelas de crédito e dívida- são insustentáveis. Ela prejudicou a reputação da economia. Ela deixará um legado amargo para o mundo. Mas mesmo assim poderão não representar um marco histórico. Para parafrasear o que as pessoas diziam sobre a morte dos reis: "O capitalismo está morto; vida longa ao capitalismo".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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