Eleições no Líbano revelam as dinastias de cara nova

Anna Fifield e Ferry Bierdermann

Você já ouviu aquela de como os aspirantes a políticos no Líbano circulam hoje em dia? Eles pegam o ônibus escolar.

A piada, que circula por Beirute enquanto o Líbano se prepara para as eleições parlamentares, reflete o monte de jovens e novos rostos que irão concorrer na eleição de 7 de junho. Mas, enquanto as caras podem ser novas, os nomes que concorrerão na eleição que determinará se o equilíbrio de poder continuará inclinado ao Ocidente, ou se ele se voltará ao Irã e à Síria, não são tão novos assim.

O Líbano levou a arte da dinastia política para um novo patamar. O cenário político continua dominado pelos clãs, em vez dos partidos. Jovens membros de famílias como os Gemayels, os Mouwads, e os Tuenis - sem mencionar o retorno dos Hariri - estão entrando na briga política este ano. Todos eles têm uma coisa em comum: parentes assassinados em ataques atribuídos à Síria, que os nega.

"Por que estamos aqui? Porque eles mataram nossos pais. Eles mataram nosso sonho, o sonho de um novo país", diz Nayla Tueni, 26, cujo pai, Gebran, um membro anti-sírio do parlamento e editor do influente jornal "An-Nahar", foi morto por um carro-bomba em 2005.

"Meu pai deu sua vida pela liberdade do país, então decidi continuar e tentar realizar seu desejo", diz Tueni, da quarta geração de jornalistas no "An-Nahar" - fundado por seu bisavô - e que concorre a um assento cristão ortodoxo em Beirute.

Essas eleições serão as mais ardentemente disputadas em anos, com 587 candidatos concorrendo a 128 assentos. Os analistas dizem que essa eleição provavelmente resultará em um governo muito parecido com a atual administração da unidade nacional liderada pela Aliança 14 de Março, pró-ocidente, de Saad Hariri, um sunita membro do parlamento e filho do ex-premiê assassinado, Rafiq Hariri.

Mas o equilíbrio de poder poderá se inclinar em favor da oposição, a facção 8 de Março, liderada pelo Hizbollah, movimento armado xiita apoiado pelo Irã e pela Síria.

A perspectiva de uma aproximação com a Síria - cujas tropas foram expulsas depois do assassinato de Hariri em fevereiro de 2005, colocando fim à sua presença de 30 anos - tem motivado muitos dos políticos cristãos da nova geração, ligados à Aliança 14 de Março.

"Para mim é importante me colocar contra quaisquer políticas que possam levar o Líbano novamente a uma guerra, ou que possam nos fazer voltar a seguir as ordens da Síria," declara Samy Gemayel, filho de Amin, um ex-presidente. "A democracia libanesa está em perigo por causa do Hizbollah e de seus aliados", diz Gemayel, 28, um maronita que concorre no crucial distrito de Metn.

Ele diz que foi motivado a concorrer depois que seu irmão Pierre, então ministro da Indústria, foi morto a tiros em 2006. Também concorre seu primo, Nadim, 26, filho de Bashir Gemayel, outro ex-presidente, assassinado em 1982.

O avô deles, também Pierre Gemayel, fundou o partido das Falanges Libanesas.

Ser parte de uma das dinastias políticas do Líbano é um negócio arriscado. Todos os candidatos têm uma segurança digna de chefe de Estado, vivendo em fortalezas e viajando em comboios com guarda-costas que empunham fuzis AK-47.

"Não podemos levar vidas normais. De certa maneira, estamos em uma prisão," diz Michel Mouawad, 37, cujo pai, Rene Mouawad, outro ex-presidente, foi assassinado em 1989. Ele procura obter o assento maronita no distrito de Zgharta, ocupado por sua mãe, Nayla.

"Não podemos nos comunicar livremente com o eleitorado e não podemos visitar as vilas", diz Mouawad, que nunca mais comeu em um restaurante desde que Tueni foi assassinado.

"Mas o perigo só nos dá mais e mais vontade de continuar, por conta do alto preço, de todo o sangue, que já foi pago. Acho importante, para nós, dizer que tudo isso não foi em vão", ele diz.

A perpetuação dessa lista de nomes familiares destaca a natureza tribal de grande parte da política libanesa, e em parte enfraquece a retórica dos candidatos sobre a promoção da democracia. Além de afastar muitos eleitores.

"Não é bom - precisamos de mudança", diz Fadi, um engenheiro de computação de 33 anos da região de Ashrafiyeh em Beirute, dominada pelos cristãos, e onde Tueni e Nadim Gemayel estão concorrendo.

"Tem sido dessa maneira por décadas - temos sido governados pelas mesmas famílias e continuamos a ter os mesmos problemas. Precisamos de novos líderes", declara Fadi.

Todos os jovens candidatos dizem que, embora seus sobrenomes talvez os ajudem a se elegerem, eles não serão reeleitos a menos que façam um bom trabalho.

"Todos têm o direito de se candidatar. Cabe aos eleitores decidirem se [os candidatos] são capazes e competentes", diz Samy Gemayel.

"As pessoas que forem competentes vão permanecer, e aqueles que não deveriam estar lá, vão sair".

Tradução: Lana Lim

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