"Candidata" a primeira-dama personifica a voz reformista no Irã

Najmeh Bozorgmehr

Há quatro candidatos para a eleição presidencial no Irã - todos homens -, mas a pessoa que surgiu como mais intrigante na campanha até agora é uma mulher: a esposa de Mir-Hossein Moussavi, o candidato reformista.

O conceito de primeira-dama não existe no Irã desde que a revolução de 1979 pôs fim ao papel cerimonial ocupado pela última rainha, Farah. Desde então os presidentes do Irã evitaram amplamente aparições públicas com suas mulheres.

Mas Zahra Rahnavard está decidida a mudar isso se seu marido for eleito depois da votação de 12 de junho. Ela já deixou de lado anos de tradição para fazer campanha e acompanhar Moussavi, que foi primeiro-ministro entre 1981 e 1989, nos comícios eleitorais.

Ela ainda não entrou em conflito com o establishment clerical conservador, cujas tradições ignora. Mas analistas indicam que até agora as pesquisas de opinião oficiosas colocam Mahmoud Ahmadinejad, o presidente fundamentalista, como provável vencedor de um segundo mandato. Se as porcentagens de Moussavi aumentarem, a mãe de três filhos poderá ter seu papel mais examinado.

Moussavi chocou muita gente - incluindo outros candidatos reformistas - quando decidiu desafiar Ahmadinejad para a presidência.

Depois de seu mandato como primeiro-ministro na década de 1980, ele desapareceu da política e se tornou pintor, surgindo apenas este ano para contestar a atuação econômica do governo, muito criticada, e fazer campanha por maior justiça social. Esse exílio político auto-imposto significa que Moussavi é um virtual desconhecido para os jovens que formam a maioria da população iraniana, de 70 milhões. Sua mulher, que é escultora e escritora, porém, é um potencial modelo para os jovens e as mulheres.

Unindo-se a Moussavi na campanha em Teerã e outras cidades - às vezes de mãos dadas -, Rahnavard é cada vez mais vista, até por alguns campos rivais, como um verdadeiro trunfo do candidato.

Em uma recente reunião política ela foi cumprimentada com a mesma aclamação que seu marido e o ex-presidente reformista Mohamed Khatami receberam.

Rahnavard diz que a decisão de seu marido de disputar a presidência foi impelida por um "compromisso com a prosperidade da população".

"Moussavi e eu nos dirigimos a toda a nação iraniana e em particular às mulheres, aos jovens e estudantes", ela diz. "Nossas mensagens aos iranianos durante os comícios são [encorajar] a liberdade de pensamentos, abrir o ambiente [político], estabelecer uma economia sólida, aumentar a participação do público... eliminar a discriminação contra as mulheres, criar oportunidades de emprego... e ajudar os jovens a pensar livremente."

A mulher de Ahmadinejad dirige um colégio em Teerã, mas raramente ou nunca é vista com seu marido em público. Mas Rahnavard acredita que seu próprio envolvimento na campanha já teve um impacto significativo nas atitudes de outros candidatos - incluindo Mohsen Rezaei, o ex-comandante da Guarda Revolucionária -, que começam a envolver suas mulheres.

Vestida em um chador preto da cabeça aos pés, ela é franca sobre seu passado antes da revolução, quando não usava o hijab ou véu islâmico, mas se vestia em um estilo mais ocidental.

Alguns temeram que isso pudesse ser usado contra a campanha de Moussavi se truques sujos fossem adotados. Mas até agora não aconteceu.

Ela insiste que, assim como sua arte - em que mistura modernismo com elementos mais tradicionais para produzir centenas de pinturas expressionistas e abstratas e esculturas feitas de pedra, vidro, madeira, ferro e bronze -, ela não deve ser classificada.

"Não sou um tipo de pessoa clichê e não me encaixo em categorias", ela diz.

Se seu marido se tornar presidente Rahnavard admite que a vida que a família levou nos últimos 20 anos será transformada. "O que eu estou vivendo hoje [a campanha] é caótico e contraria minha vida artística, que precisa de delicadeza e beleza", ela diz.

No entanto, ela é determinada: "Moussavi e eu entramos em cena para superar os fracassos [políticos e econômicos]".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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