Empresário pioneiro da animação chinesa ganha dinheiro sem financiamento do governo

Kathrin Hille

Hao Yaning está rompendo com a dominação dos desenhos animados japoneses na televisão chinesa e produzindo filmes independentes, sem financiamento do governo


Aproximar-se de Hao Yaning, em pé, com as mãos na cintura, na varanda da casa palafita onde fica seu escritório, lembra uma cena de faroeste.

Mas estamos no centro de Beijing e Hao não é nenhum caubói. Ele é, entretanto, um pioneiro no seu ramo, tentando fazer dinheiro com a nascente indústria da animação chinesa.

Sua companhia, Beijing United Film Investment, está produzindo uma série de animação para televisão chamada "My Own Swordsman" [algo como "Meu Próprio Espadachim"], baseada numa série com atores reais também produzida por Hao. A história é inspirada nas lendas de artes marciais bastante populares na China, e mescla elementos de ficção científica e um humor que parodia levemente o gênero.

A série deve começar a ser transmitida pela Televisão Central da China (CCTV), a principal emissora estatal, neste verão, e Hao vendeu os direitos de distribuição internacionais para a ADK, produtora japonesa por trás de "Doraemon", filme e série de animação para TV sobre um gato-robô que viaja no tempo e que ajudou a tornar a indústria japonesa do mangá famosa em todo o mundo.

O acordo com a ADK faz de Hao uma exceção na China. O país produziu
249 filmes de animação no ano passado, 33% a mais do que em 2007, mas menos de dez entre as 5.037 companhias de animação do país conseguiram exportar alguma coisa até hoje. Os produtores locais enfrentam a falta de produção em grande escala, de talentos, dinheiro e ideias, e mais de 90% dos filmes e séries de animação transmitidos na China são importados.

Isso evidencia as dificuldades do país em deixar de ser a "fábrica do mundo" para se tornar um lar para a indústria da cultura e do conhecimento.

Hao, 50, envolveu-se com a animação por causa de seu tino para os negócios. Ele estudou radioquímica na Universidade de Pequim e, depois de se formar, entrou para o Exército Popular de Libertação.

Em 1985, ele saiu do EPL e trabalhou numa empresa de publicidade e depois com marketing. Em 2003, ele montou sua própria produtora e desde então fez mais de 40 séries de TV, incluindo a "My Own Swordsman" original, que fez um enorme sucesso.

Foi então que surgiu a animação. Hao pensou que poderia reproduzir esse sucesso transferindo a história e os personagens para outros gêneros. "Depois de fazer 'My Own Swordsman', senti que ninguém na China estava trabalhando a cadeia de valorização da indústria cultural", diz ele. "Na maioria das vezes, as pessoas vendem DVDs e publicam alguns livros e só". Ele decidiu lucrar ainda mais ao lançar vários outros produtos culturais com o tema do Swordsman, desde um filme até mercadorias.

Hao começou com um jogo online. Em 2006, sua companhia investiu US$
17,5 milhões para desenvolver o jogo. Ele se tornou um sucesso instantâneo e o investimento foi recuperado dentro de um ano. O jogo ainda gera lucros, uma vez que a companhia o licenciou para a Perfect World, uma produtora de videogames que abriu seu capital na Nasdaq no ano seguinte.

"Depois que fizemos o jogo online, percebemos que se quiséssemos lançar produtos relacionados, teríamos que fazer desenhos animados", disse Hao. Então, a Beijing United começou a trabalhar na série de animação no ano passado.

Hao estava disposto a manter os consumidores focados em "My Own Swordsman" durante todo o ano que levaria para produzir a primeira temporada da série de animação. Para cobrir esse hiato, a companhia lançou quadrinhos e trilhas sonoras da série, fez uma peça de teatro, que rendeu US$ 1 milhão, e na sequência produziu versões da história para a ópera de Sichuan e de Pequim.

Tudo isso é muito diferente da forma como a indústria da animação trabalha em outros países. Nos EUA e na Europa, por exemplo, os gibis vêm antes, os filmes de animação em seguida, e às vezes são feitos filmes ou séries de TV com atores sobre o mesmo tema.

A China, ao contrário, "não tem uma base tão grande sobre a qual a indústria de animação possa se desenvolver", diz Hao.

O governo quer mudar isso. O primeiro-ministro Wen Jiabao reclamou no começo deste ano da preferência de seu neto por "Ultraman" e outros filmes de animação japoneses. "Espero que possamos assistir mais desenhos animados chineses", disse. "Precisamos atrair as crianças chinesas com nossos próprios filmes de animação".

Pouco depois, o Ministério da Cultura anunciou planos para investir dinheiro estatal na indústria e criar algumas empresas importantes.
Ele também está considerando montar várias bases para o setor, que reuniriam grupos de produtoras de animação que poderiam dividir os custos de equipamentos e receber treinamento para seus funcionários.

Mas os empresários dizem que essas medidas refletem uma obsessão dos políticos com as grandes companhias estatais, e com a fabricação.
Apesar de a iniciativa privada ter se tornado há tempos o principal motor de crescimento da economia chinesa, os grandes bancos estatais ainda relutam em emprestar dinheiro para empresas de pequeno e médio porte.

Isso vale para a indústria da animação. Muitas pequenas produtoras do setor sobrevivem apenas fazendo trabalhos menos elaborados, de produção em massa, fornecidos por outras companhias. E os melhores horários de exibição vão para as companhias que pertencem, ou que pelo menos estão ligadas, ao Estado, como as subsidiárias da CCTV.

Nesse contexto, a Beijing United prospera porque se baseia mais em suas próprias ideias e instintos empresariais do que em baixos salários ou uma ligação com o Estado. Hao diz que é por isso que ele não quer a ajuda que o governo está oferecendo.

"O problema é que essas produtoras estão todas localizadas na periferia da cidade, porque só assim é possível ter terreno suficiente para ter um negócio grande", diz ele. "Mas eu disse [ao governo] muitas vezes: não vou para lá. Se eu fosse, perderia mais da metade do meu pessoal, porque eles querem ficar por aqui".

A produtora dele fica no complexo do Estádio dos Trabalhadores, que abriga eventos esportivos e de entretenimento e fica próximo a Sanlitun, área que concentra a vida noturna mais badalada de Beijing.

"Nossos funcionários são como corujas, e são criativos", diz Hao. "E como estamos num setor que depende do cérebro deles para fazer dinheiro, precisamos criar um ambiente em que eles queiram trabalhar."

A equipe da Beijing United têm horários flexíveis de trabalho, e muitos funcionários preferem chegar depois do almoço e trabalhar até tarde da noite. Ao lado, há dormitórios para aqueles que saíram muito tarde do trabalho e não podem mais pegar o ônibus para casa.

Enquanto isso, Hao planeja seus próximos passos num escritório pequeno, com painéis de madeira, lotado de livros, revistas, pôsteres, DVDs e computadores. "Queremos aprender com Harry Potter", diz ele.
"Apesar de provavelmente não conseguirmos chegar a sete, acredito que vamos produzir pelo menos três temporadas de Swordsman."


Setor se prepara para estrear no cenário mundial

Apesar de a indústria de animação da China ter dificuldades para competir com a dominação estrangeira em seu próprio país, ela já tem olhos para os mercados internacionais.

A parceria entre a Bejing United Films e a ADK do Japão é apenas um dos exemplos. A Beijing Glorious Animation, outra companhia chinesa de animação, estabeleceu uma parceria com a Future Plant, outra companhia japonesa, para sua produção atual, uma adaptação de "Romance of the Three Kingdoms" ["Romance dos Três Reinos"], um dos mais importantes romances históricos da China.

Mas apesar de os motivos de Hao Yaning, presidente da Beijing United, serem puramente comerciais, há outros fatores em jogo.

Zhou Fengying, gerente geral da Beijing Glorious Animation, diz que espera difundir a cultura chinesa no mundo.

"Introduzimos a cultura e a arte estrangeira na China e passamos a compreender o mundo, [mas] também deveríamos fazer com que os a produção chinesa vá para o mundo e faça com que ele entenda a China", diz ela.

A Beijing Glorious é uma subsidiária da Televisão Central da China, maior emissora do estatal do país. E as ideias de Zhou estão alinhadas com os objetivos do governo de dar à China uma maior visibilidade no cenário mundial através do "poder suave" [influência por meios culturais ou ideológicos].

Ouyang Jian, vice-ministro da Cultura, anunciou planos no começo deste ano para montar três grandes grupos de animação e entretenimento.

Tradução: Eloise De Vylder

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