Resignada, Embraer demite 20% de sua mão-de-obra para lidar com a crise

Por Jonathan Wheatley

No Brasil, onde as leis trabalhistas são rígidas e o governo tende a se envolver ativamente nas fortunas de grandes empregadores do setor privado, demissões em massa são extremamente raras.

Logo, foi um choque este ano quando a Embraer, a fabricante de aeronaves antes controlada pelo governo, demitiu 4.200 trabalhadores - cerca de 20% de sua força de trabalho de 21.350. O choque foi ainda maior porque o governo mantém uma "golden share" (participação acionária com privilégio nas decisões) na empresa desde a privatização, em 1996, e mantém uma cadeira em seu conselho diretor.

Manifestação do sindicato

  • Fernando Donasci/Folha Imagem

    Manifestação de funcionários da Embraer contra as 4 mil demissões, em São José dos Campos (SP), em 27 de fevereiro deste ano

"Houve um certo clima ruim [com o governo]", disse Frederico Fleury Curado, o presidente-executivo. "Mas nós percebemos que não havia sentido em negociar, seja com os sindicatos ou com o governo. Nós não poderíamos resolver nosso problema com soluções paliativas, como colocar as pessoas em licença remunerada. Nós tínhamos que agir rapidamente, até mesmo cirurgicamente."

O problema da Embraer foi uma repentina contração acentuada em seu mercado, após o estouro da crise econômica global.

As companhias aéreas do mundo, que são responsáveis por cerca de 70% das receitas da Embraer - o restante vem de jatos executivos e aeronaves militares - viram uma queda de volume de passageiros de 3% a 4%. Curado considera isto uma redução "dramática", agravada pelos passageiros estarem trocando serviços premium por comuns e porque as companhias aéreas estavam expandindo quando a crise estourou. A British Airways, por exemplo, despencou para um prejuízo recorde em seu ano financeiro encerrado no final de março.

O impacto sobre os fabricantes de aviões foi imediato. A Boeing está cortando 10 mil vagas de trabalho de sua força de trabalho de 165 mil, enquanto a Bombardier - a concorrente direta da Embraer no mercado para jatos menores de passageiros - está demitindo 4.360, quase 15% de sua força de trabalho.

Antes da crise, a Embraer esperava uma receita de US$ 7,1 bilhões neste ano, em comparação a US$ 6,4 bilhões em 2008. Agora, ela espera não mais que US$ 5,5 bilhões. As encomendas de jatos executivos foram canceladas e na aviação comercial, onde os cancelamentos são raros, os clientes adiaram as entregas. As entregas da Embraer neste ano ficarão 30% abaixo da meta.

Sua primeira reação foi cortar gastos onde quer que fosse possível, em coisas como administração, viagem e comunicações. "Este é um setor muito intensivo em capital. Qualquer demora para adoção de fortes medidas poderia criar dificuldades", disse Curado.

Os gastos em ativos fixos, como maquinários e hangares para aeronaves, foram cortados em US$ 100 milhões.

Mas ele destacou que os gastos em desenvolvimento de projetos prossegue inalterado. A Embraer cuidou para manter um forte caixa, que ultrapassava as dívidas nos últimos cinco ou seis anos. "Nós tínhamos que manter isso. Dinheiro pode acabar rapidamente", ele disse.

Apesar dos cortes, a Embraer percebeu em janeiro que sua posição era muito pior do que a esperada. Os orçamentos foram recalculados e, em fevereiro, foi tomada a decisão de corte de vagas de trabalho.

"Houve uma grande tristeza", disse Curado. "A Embraer possui uma cultura muito forte e estávamos demitindo 2 de cada 10 trabalhadores. Mas era óbvio para todos que tínhamos uma enorme capacidade ociosa."

Grande parte das demissões ocorreu na produção e engenharia, e mais algumas na administração e vendas. Todos os afetados foram chamados para serem informados ao longo de dois dias.

Escolher quem demitir foi particularmente difícil. "Nós perdemos muita gente boa", disse Curado. "Nós tentamos escolher aqueles que já iam se aposentar. Se um marido e esposa estivessem trabalhando na empresa, nós manteríamos um deles. Mas foi muito difícil."

Curado disse que as demissões deviam ser vistas no contexto das 10 mil pessoas contratadas pela Embraer nos últimos sete anos e diz que a empresa espera que o crescimento retornará, permitindo que possa voltar a contratar.

O sindicato dos trabalhadores aeroespaciais tentou impedir as demissões na Justiça do Trabalho - o Brasil possui uma divisão do Judiciário dedicada a disputas trabalhistas. Mas a Justiça manteve as demissões, ordenando à Embraer que fizesse o que já estava fazendo: pagar um mês extra de salário para cada cinco anos de serviço e pagar os planos de saúde dos ex-funcionários por um ano após a demissão.

Elias Jorge da Cruz, o secretário-geral do sindicato, disse que Embraer deveria ter lutado mais para ganhar uma participação do mercado doméstico. A Azul, uma nova companhia aérea fundada por David Neeleman, da companhia aérea americana JetBlue, se tornou a primeira companhia aérea brasileira a usar os jatos de passageiros da Embraer. E ele disse que o governo devia ter forçado a Embraer a considerar o impacto social e econômico de suas ações.

Curado apontou que a Embraer ainda está assinando novos contratos, como um acordo com a British Airways para 11 aviões CHK fechado em dezembro. E ele disse que com mais de 20 mil acionistas (o maior possui 14% da empresa), a Embraer não tinha escolha a não ser demitir. "Foi algo muito doloroso, mas absolutamente necessário", ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos