Desidratação, tumulto e doenças no maior êxodo humano desde o genocídio em Ruanda

Farhan Bokhari, David Pilling e Daniel Igra

Se os observadores do Paquistão se surpreenderam com a decisão dos militares de atacar os extremistas no vale de Swat, no norte, também ficaram chocados com o consequente desastre humanitário.

Enquanto o exército de Islamabad se preparava para bombardear cidades e aldeias em Swat, as pessoas começaram a despejar um mês atrás, às vezes ao ritmo de 100 mil por dia, no que foi descrito por uma autoridade da ONU como o maior êxodo humano desde o genocídio de Ruanda, há 15 anos.

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Das estimadas 2,5 milhões de pessoas que fugiram do conflito, até 90% encontraram alojamento temporário com amigos ou parentes em outros lugares do Paquistão. Mas pelo menos 200 mil se encontraram em acampamentos, presas do calor mortal e de alegações contraditórias sobre sua lealdade.

Relatórios indicam que algumas estão recebendo comida e transporte de militantes islâmicos, afiliados às próprias pessoas que o governo combate. Nas últimas duas semanas foram relatados tumultos na província meridional de Sindh, a mais de 1.200 km de Swat, onde os moradores se chocaram com pessoas que eles supunham estar escapando do conflito no vale.

"As tensões em nosso país certamente vão aumentar se [pessoas internamente deslocadas] de Swat não voltarem para casa logo", diz uma importante autoridade do governo. "Vocês terão um grande número de pessoas se espalhando pelo Paquistão e provocando novas tensões, ou elas voltarão para casa?"

Richard Holbrooke, representante especial dos EUA para o Afeganistão e o Paquistão, disse esta semana que o governo do presidente Barack Obama vai propor ao Congresso uma verba adicional de US$ 200 milhões em ajuda para Swat. Ele acrescentou sua voz às queixas do Paquistão sobre a limitada resposta global. Falando em um acampamento perto de Islamabad ontem, Holbrooke disse que "a tarefa é levá-los para casa, e isso exige segurança e ajuda do resto da comunidade mundial".

Autoridades da ONU dizem que as verbas até agora dedicadas são insuficientes, com menos da metade dos US$ 280 milhões necessários para alimentar as pessoas deslocadas no futuro próximo.

  • Faisal Mahmood/Reuters

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Sir John Holmes, subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, adverte que o atraso tornará os desalojados de Swat vulneráveis a doenças e à desidratação. "Estou ansioso para que os doadores juntem o dinheiro rapidamente", ele diz. "Se não conseguirmos em um mês, o fluxo de comida começa a parar.

"O maior problema é o calor", acrescenta sir John, falando para o FINANCIAL TIMES em Londres. "Chega a 45 graus... essas pessoas são das montanhas e estão habituadas a 25 graus. Não há água, os serviços são básicos e há o risco de doenças." Isso poderá criar "terreno fértil para revolta" contra o governo, ele indica.

Ghazala Minallah, uma ativista que levanta fundos para as vítimas de Swat, diz que o governo paquistanês demorou para despertar para a crise. "Se um maior senso de urgência tivesse prevalecido, tenho certeza de que muito mais poderia ter sido feito", ela diz.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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