Vento de mudanças pelos bazares

Anna Fifield e Najmeh Bozorgmehr Em Teerã (Irã)

As vielas de pedra movimentadas do principal bazar de Teerã, um labirinto de pratos e carpetes, temperos e DVDs, há muito são um reduto conservador no Irã. Os comerciantes ainda detêm poder econômico e político, apesar de menos do que em 1979, quando foram uma força por trás da Revolução Islâmica. Muitos, contudo, parecem estar se voltando contra Mahmoud Ahmadinejad, que amanhã tentará ser reeleito presidente em uma eleição fortemente disputada e que tem a economia como centro.

  • AFP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Amadinejad foi prefeito da capital Teerã. Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil. Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos (em parte devido a sanções internacionais), que agora são denunciados pelos outros candidatos presidenciais. Ahmadinejad ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas. Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos

  • Reuters

    Mir Hussein Mousavi foi premiê do Irã de 1981 a 1989, quando o cargo foi eliminado. Visto como candidato reformista, é questionado por alguns críticos por ter sido parte da estrutura de poder após a Revolução Islâmica, que esmagou oposicionistas e impôs regras ultraconservadoras no país. Mousavi também teve papel central nos avanços políticos que começaram com o presidente Mohammad Khatami em 1997. Mousavi, que estudou arquitetura, atualmente é presidente da Academia de Artes do Irã. Sua mulher defende maior presença de mulheres no governo

"Alguns estão apoiando Ahmadinejad, mas são poucos - ele perdeu o apoio no bazar", diz Abbas, sentado atrás do balcão de sua loja de meias e roupas de baixo.

"Isso porque o bazar se tornou tão parado nos últimos anos. Não há muitos clientes porque ninguém tem dinheiro. Ahmadinejad quebrou a coluna dos empresários aumentando os impostos", diz Abbas.

Ahmadinejad chegou ao poder em 2005, prometendo compartilhar a riqueza do petróleo do Irã com o povo. Ele fez isso distribuindo de tudo, desde dinheiro a batatas, o que contribuiu para uma inflação crescente e uma profunda deterioração do poder de compra dos iranianos.

As estatísticas oficiais estimam uma inflação de 24% e um índice de desemprego em 12,5%, apesar de economistas independentes sugerirem que a realidade é muito pior.

A renda do Irã mergulhou fortemente desde que os preços do petróleo começaram a cair do pico de US$ 147 por barril há 12 meses, acrescentando ao mal estar econômico. O Fundo Monetário Internacional estima que o crescimento vá desacelerar de 4,5% no ano passado para 3,2% neste ano.

No rastro da campanha nas últimas semanas, Ahmadinejad defendeu seu desempenho econômico, dizendo que ajudou a melhorar as vidas dos oprimidos.

"Foram estabelecidas as fundações para um grande salto econômico nesses quatro anos", disse Ahmadinejad, que alega que a inflação é de apenas 14%.

Certamente, ele ajudou algumas pessoas comuns. Os partidários de Ahmadinejad foram às ruas com cartazes dizendo: "Guardião do dinheiro do povo, nós o apoiamos."

Seus três rivais, contudo, criticaram repetidamente sua administração econômica e riram de seu uso questionável da estatística durante os debates na televisão.

O desempenho econômico de Mir-Hossein Moussavi, seu forte oponente, foi considerado relativamente bom quando foi primeiro-ministro durante a guerra Irã-Iraque nos anos 80. Mas ele ainda é visto com desconfiança porque, na época, defendia políticas socialistas.

  • Mahdi Karroubi é o único clérigo na corrida presidencial. Ele também disputou a presidência em 2005, após ocupar um cargo no Parlamento em duas ocasiões. Karroubi é considerado moderado e já criticou o establishment no poder, mas também participou de batalhas contra reformistas no parlamento

  • Mohsen Rezaei foi um comandante da Guarda Revolucionária de 1981 a 1997. Atualmente, é secretário do conselho que media as relações entre os clérigos e o parlamento. Rezaei, que é professor de economia na Universidade de Imam Hossein, está entre os procurados pela Interpol por suposta relação com o ataque a bomba contra um centro cultural judeu em Buenos Aires, em 1994, que deixou 85 pessoas mortas


Enquanto Ahmadinejad prometeu continuar com suas políticas populistas de distribuição, Moussavi prometeu uma política econômica mais racional.

Os planos econômicos do ex-primeiro-ministro até agora foram uma mistura de políticas socialistas e de mercado aberto. Se for eleito, a prioridade de Moussavi será lidar com problemas de moradia como causa da pobreza, enquanto promove um ambiente favorável aos negócios e acelera a privatização.

É claro que muitas pessoas no bazar conservador continuam apoiando o atual presidente, que se considera protetor dos ideais revolucionários.

Houve, porém, uma mudança palpável na fidelidade do bazar, onde alguns estão apoiando outro candidato fundamentalista, Mohsen Rezaei, ou o clérigo reformista Mehdi Karroubi. A maior parte dos que mudaram de lado, contudo, partiram em apoio a Moussavi.

"Ahmadinejad não foi capaz de deter a inflação -os preços dobraram nos últimos quatro anos", diz Fazlollah, que vende tecidos para homens há 32 anos. Ele votou em Ahmadinejad em 2005, mas diz que apoia Moussavi desta vez.

Líderes empresariais acreditam que isso contribuirá para uma mudança no apoio a Moussavi fora dos limites do bazar.

"A maior parte da comunidade empresarial apoia Moussavi e acredita que, se Ahmadinejad for reeleito, os problemas econômicos vão se multiplicar", disse Saeed Shirkavand, ministro de economia interino no governo reformista anterior.

"Ahmadinejad basicamente colocou os especialistas de lado na administração da economia do país, o que levou à alocação desbalanceada de recursos financeiros, substituindo planos de longo prazo por decisões de um dia e fechando os centros que faziam decisões macroeconômicas", disse Shirkavand.

Gholam-Hossein Shafei, diretor da Câmara de Comércio da cidade de Mashhad, no Nordeste, acrescentou que o governo fracassou na economia. "O plano de governo para promover projetos de curto prazo foi um fracasso e levou a uma falta de finanças para a indústria, metade da qual agora trabalha com menos de 50% da capacidade enquanto o resto está em dificuldades ou enfrenta a falência."

Saiba mais

Tradução: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos